Nova descoberta levanta dúvidas sobre as obras na casa do ministro Luís Neves
Empresas de amigo do ministro, muitas delas insolventes ou dissolvidas, estão no centro da nova descoberta
A investigação jornalística às obras numa propriedade da família do ministro da Administração Interna, Luís Neves, em Odemira, chegou a novos elementos.
Na deslocação que fizeram ao local, os jornalistas do Nascer do Sol encontraram materiais relacionados com uma outra empresa do mesmo empreiteiro, João dos Santos Carvalho, amigo do ministro que também fez obras em edifícios da Polícia Judiciária - num valor total de quase dois milhões de euros.
Os materiais em causa estavam ao lado de bonés da empresa Construções João & Martins, Lda, propriedade do mesmo empreiteiro, mas que entrou em processo de insolvência, como revelou o jornal online Página Um e como confirmou a TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal) através da consulta do portal Citius.
O processo de insolvência desta empresa encerrou em janeiro de 2025, após rateio final, no Juízo de Comércio de Vila Nova de Famalicão.
Esta descoberta levanta novas questões sobre a intervenção realizada nas propriedades do ministro e sobre a escolha de empresas ligadas ao empreiteiro para a execução das obras, nomeadamente após o Página Um revelar que das 14 sociedades nas quais o empreiteiro surgiu nas últimas décadas como fundador, sócio ou gerente, pelo menos seis foram declaradas insolventes pelos tribunais - outras seis acabaram dissolvidas, liquidadas administrativamente ou encerradas.
Apesar do historial anterior, João dos Santos Carvalho fez trabalhos nas propriedades da família de Luís Neves e foi contratado pela Polícia Judiciária.
Apesar das promessas iniciais, o ministro continua sem divulgar a documentação relativa aos trabalhos realizados. Num novo esclarecimento, o gabinete de Luís Neves diz agora que "a intervenção na propriedade em causa ainda se encontra em curso e, uma vez concluída, será reunida e disponibilizada toda a documentação final que se revele pertinente. Até lá, não serão feitos mais comentários sobre este assunto."
Sem acesso a estes documentos, continua por esclarecer os custos das obras e em que condições foram adjudicadas.
A polémica em torno do ministro da Administração Interna nasceu após uma notícia do jornal Nascer do Sol. A investigação revelava que Luís Neves contratou para obras em duas propriedades suas em Odemira a empresa Construbarcelos, de João dos Santos Carvalho, o mesmo empreiteiro que realizou obras avaliadas em cerca de dois milhões de euros em instalações da Polícia Judiciária entre 2020 e 2025, período em que Luís Neves era diretor nacional da PJ. O caso levantou dúvidas de eventual conflito de interesses e favorecimento, devido à relação de amizade entretanto estabelecida entre ambos.
O ministro rejeita qualquer irregularidade, garante que a maioria dos contratos públicos foi adjudicada antes de conhecer pessoalmente o empresário e sustenta que os procedimentos de contratação na PJ obedeceram às regras legais. Admite, contudo, que, face ao escrutínio público, "hoje faria de maneira diferente" e reconhece que as obras privadas decorreram sem contrato escrito, justificando essa opção pela relação de confiança existente com o empreiteiro.
