A escolha de Luís Neves para a Administração Interna, um rasgo fora da caixa para algo sem precedentes, com o aproveitamento e a apropriação política da aura de um “superpolícia”, é obviamente inteligente, na lógica da sobrevivência populista - arte em que Montenegro é mestre. Acossado à esquerda e à direita, na reação à desgraça das tempestades, reagiu como fizera face ao saque das fraudes na saúde, nomeando para espécie de xerife do SNS o “superjuiz” que todos conhecem, Carlos Alexandre, mesmo que passados meses não lhe tenham dado condições para combater nada.
Certo é que se matam dois coelhos - calando a oposição, rendida a figuras de mérito consensual, com risco nulo. Correndo bem, ganha o Governo; correndo mal, falharam os próprios. Nada que não esteja há muito inventado - espécie de direção do Benfica que, à beira do naufrágio, se manteve à tona ao contratar o super Mourinho.
Habilidades que não fazem deste primeiro-ministro o inventor da roda, mas que têm os seus méritos. O risco, esse, está todo do lado de Luís Neves - um polícia com uma carreira notável, de exemplar dedicação à Justiça e ao Estado, cujo sucesso assentou em sacrifício pessoal, persistência, talento, personalidade, e no conhecimento profundo de um sistema onde soube beber dos maiores mestres e que hoje domina de olhos fechados.
Alguém para quem todos os meandros da investigação criminal não têm segredos, que fez da PJ a sua casa, que a conhece como as mãos e que viveu para ela dia e noite durante 30 anos. Goste-se, ou não, o que acabo de descrever são factos inegáveis em qualquer análise honesta de quem acompanhe o fenómeno mais ou menos por dentro nas últimas décadas.
É por isso que Luís Neves, correndo esse risco, não merece agora falhar. Sobretudo por factores que não controle - como controlou o sucesso final de tantas investigações no domínio da PJ. Desde logo precisa de sorte, face a fenómenos naturais, e de habilidade na gestão da proteção civil, algo com que nunca lidou. A mesma habilidade que precisará para gerir as polícias - que não a sua -, sobretudo a PSP, onde algum corporativismo tende a olhá-lo com a desconfiança com que se encara um inimigo: foi ele quem conseguiu, com o anterior governo, enormes incrementos salariais para os inspetores da sua PJ, algo por que PSP e GNR se têm batido, sem grande sucesso; e foi ele, sempre, o maior defensor do cumprimento da competência exclusiva da PJ para a investigação da criminalidade mais complexa, violenta e grave, encostando a PSP, que agora tutela, à missão da segurança e manutenção da ordem pública.
Por certo, o novo ministro da Administração Interna manter-se-á coerente e fiel aos seus princípios, que o levaram ao topo e com os quais ganhou o respeito e a admiração do País. Precisa de sorte, porque coragem, engenho e arte não lhe faltam. Força!