Do ex-mandatário do PSD à ligação a uma das famílias mais ricas de Portugal: o que revelam os contratos da empresa da família de Montenegro

28 fev 2025, 21:55

Montenegro vai falar ao país este sábado às 20:00 sobre os contratos que a empresa familiar a que está ligado ainda mantém. Entre essas relações contratuais, há três empresas ligadas direta ou indiretamente ao universo Solverde, que irá negociar a manutenção da concessão de jogo nos casinos de Espinho e do Algarve

As revelações dos clientes da empresa de consultoria familiar de Luís Montenegro deixaram surpresos até vários ministros e secretários de Estado. Depois de o primeiro-ministro ter garantido no Parlamento que não iria divulgar a lista de clientes da Spinumviva, o seu filho também acionista daquela sociedade quebrou esta sexta-feira o segredo.

No comunicado, revelado durante a tarde, constavam os nomes de cinco empresas que até aos dias de hoje mantêm relações contratuais com a Spinumviva, detida pela mulher de Luís Montenegro, a quem o primeiro-ministro vendeu as suas quotas num negócio que, para muitos especialistas, pode vir a ser considerado nulo por o chefe do Executivo estar casado em regime de comunhão de bens adquiridos. 

Entre essas empresas, que mantêm avenças entre os 1000 euros e os 4500 euros, constam várias ligadas direta ou indiretamente ao universo Solverde, a gigante dos casinos liderada por Manuel e Rita Violas que ainda este ano irá negociar com o Governo a renovação dos contratos de concessão dos casinos de Espinho e do Algarve. Para além do grupo Solverde, a empresa de consultoria mantém contratos com o Colégio Luso-Internacional do Porto e a Lopes Barata, Consultoria e Gestão Lda.

No caso do CLIP - Colégio Internacional do Porto, o mesmo tem como presidente do conselho de Administração Manuel Soares de Oliveira Violas, o presidente do grupo Solverde. Será este o "estabelecimento de ensino privado sem contrato com o Estado" que o primeiro-ministro referiu durante as explicações dadas no Parlamento há cerca de uma semana.

Segundo registos existentes na plataforma BASE, o CLIP teve dois contratos públicos com a Universidade do Porto entre 2020 e 2022 no valor total de 83.061,51 euros. Ambos os contratos dizem respeito à aquisição de serviços de tradução e revisão de material científico para o serviço de Bioética daquela instituição de ensino. 

Já outro dos clientes revelados é a Lopes Barata Consultoria e Gestão, dona da marca SOFARMA, uma empresa que se dedica ao comércio de produtos farmacêuticos e detentora de uma série de farmácias no Norte do país. É uma empresa familiar, detida em 85% por Gustavo Barata e em 5% pela mulher, Filipa Silva Carvalho, filha de um dos administradores da Solverde - Manuel da Silva Carvalho, ex-deputado do CDS-PP. À CNN Portugal, a mesma empresa garantiu que "efetivamente contratou serviços para implementação e contínua aplicação das obrigações decorrentes do Regulamento Geral de Proteção de Dados à Spinumviva e à respetiva equipa". "Nesse contexto, todos os serviços prestados encontram-se devidamente documentados."

No Parlamento, Montenegro afastou qualquer conflito de interesses com o grupo Violas, cuja família é uma das mais ricas de Portugal, sublinhando que, sendo "amigo pessoal dos acionistas dessa empresa", ficará "inibido" de intervir em "qualquer decisão" respeitante à Solverde ou a qualquer outra a que se encontre "ligado por relações familiares, de amizade ou razões profissionais".

Da lista constam ainda duas outras empresas onde o próprio Luís Montenegro exerceu funções remuneradas entre 2015 e 2022. Trata-se da cadeia de retalho Rádio Popular, onde Montenegro foi presidente da mesa da Assembleia-Geral entre 30 de maio de 2015 e 26 de maio de 2022. E a Ferpinta, uma empresa de Oliveira de Azeméis especializada na indústria dos tubos de aço, onde Montenegro também fez parte dos órgãos sociais: foi presidente da Assembleia Geral entre 2017 e 2022.

Recorde-se que Luís Montenegro venceu as eleições para a liderança do PSD contra Jorge Moreira da Silva, a 28 de maio de 2022, tendo anunciado a sua candidatura em março daquele ano.

A Ferpinta e a Rádio Popular são duas das empresas para quem a Spinumviva ainda presta serviços de consultoria. Serviços esses que tiveram início “numa altura em que era sócio e gerente desta sociedade, mas não tinha qualquer atividade política”. Luís Montenegro teve atividade na consultora entre 21 de janeiro de 2022 e 30 de junho de 2022 e, como tal, terá sido entre estas datas que a empresa de consultoria familiar iniciou os contratos com vários clientes, entre eles os referidos Rádio Popular e Ferpinta. 

Além disso, Montenegro e o dono da Rádio Popular, Ilídio Silva, têm um passado em comum mais extenso. O empresário foi mandatário da candidatura do PSD em Espinho nas autárquicas de 2009 que acabaram com a eleição do ex-presidente Joaquim Pinto Moreira para presidente da Câmara e com a eleição de Luís Montenegro para o cargo de presidente da Assembleia Municipal. 

A longa relação entre Joaquim Pinto Moreira e Luís Montenegro resfriou após o ex-autarca ter sido constituído arguido na sequência da Operação Vórtex e de o presidente do PSD lhe ter retirado a confiança política. Pinto Moreira foi acusado em julho de 2023 pelos crimes de corrupção e tráfico de influências.

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