Depois do debate das rádios, o candidato da AD foi almoçar com os agricultores do Oeste. "Até foram simpáticos", reagiu o também primeiro-ministro
As entradas foram com branco e um rosé “mais moderno, estilo Provence”. Só para começar. Depois, ao almoço, a acompanhar o bacalhau com broa e o arroz de pato, foi servido um moscatel “mais aromático” e um tinto de “colheita selecionada”, tudo da marca Mundus. Os convidados podiam beber à vontade, mas Luís Montenegro mal provou o vinho tinto. Limitações de quem tem uma apertada agenda eleitoral.
Ainda que, como explica Nuno Galvão, o enólogo responsável da Adega Cooperativa da Vermelha, este seja “um vinho de baixa graduação alcoólica, muito fresco, frutado e normalmente ligeiramente carbonatado [com CO₂], o que permite que seja um vinho ideal para, como dizem os brasileiros, beber à beira da piscina para acompanhar pizas e saladas.” Características que se devem à localização das vinhas - a 25 quilómetros do Atlântico - e ao clima “com manhãs frescas, orvalhadas”, aborrecidas para quem quer ir à praia, ideais para a vinha.
Depois de um dia nas feiras e de dois debates seguidos - à noite na televisão, esta manhã nas rádios -, nada como rumar ao campo para começar sem pressas este segundo dia de campanha. O líder da AD escolheu a Adega Cooperativa da Vermelha, perto do Cadaval, onde reuniu agricultores da região. Montenegro visitou a zona do embalamento do vinho e, depois, passou ao almoço, onde foi falando informalmente com um e outro produtor. Ambiente descontraído, câmaras de televisão mantidas à distância. Os agricultores eram também apoiantes, mas trouxeram dúvidas e reclamações. Falou-se de apoios necessários, da concorrência desleal dos produtos vindos de fora a preços muito baixos, da falta de água, da necessidade de regulamentar o uso de drones na agricultura. Houve críticas ao peso das regras ambientais e sanitárias europeias impostas aos produtores. E muitas críticas à burocracia. “Há muitos organismos, muita redundância. Perde-se tempo e dinheiro em custos secundários em vez de gastar na produção”, lamentou-se um dos agricultores.
“É preciso descomplicar um bocadinho”, diz Dina Martins, da ACRO - Associação de Criadores e Reprodutores de Gado do Oeste. “A legalização das explorações é muito difícil. Há criadores que já têm a atividade há 50 anos ou mais, essas atividades às vezes até já vêm de família, e hoje em dia não conseguem licenciar as estruturas que têm, nem a atividade agropecuária - porque há uma data de restrições e imposições legais que para muitos é difícil, quase impossível, de cumprir.”
“Modernize mais o Ministério da Agricultura para que as coisas andem mais depressa e sejam mais produtivas também”, pede também Paulo Renato Silva, da Associação dos Produtores Agrícolas da Sobreira, que tem 64 anos e tem dedicado toda a sua vida à fruticultura - peras e maçãs -, primeiro com o pai, depois por conta própria.
Montenegro ouviu com atenção e concordou. “Acho que até foram simpáticos. Pediram alguma simplificação, mas não é alguma que é precisa, é muita”, concluiu o candidato da AD, numa conversa descontraída, ainda com pratos e copos nas mãos. “Temos de simplificar os procedimentos e depois temos de ter mais fiscalização, para garantir que não há abusos.”
"Não tenham medo" do Mercosul
Fundada no início do início dos anos 60, a Adega Cooperativa da Vermelha começou por ter 21 associados - hoje são 2.900. “Mas, normalmente, por campanha só 600 é que entregam uva”, explica o enólogo Nuno Galvão. “Nesta zona, somos os líderes do mercado na produção de vinhos leves. A Adega da Vermelha produz, entre a marca própria, Mundus, e marcas de linha branca à volta de 6 milhões de garrafas”, mas nos últimos anos tem havido “alguma escassez de produção”. “Isto deve-se fundamentalmente a alguma heterogeneidade do ano agrícola, portanto os anos não têm sido muito convenientes. Além disso, tem havido uma transição dos produtores da viticultura para a fruticultura. Esta é a zona, por excelência, de produção de pera-rocha. E esta é uma produção mais rentável”, explica Nuno Galvão. Apesar de os vinhos da Vermelha estarem presentes em todas “a média e grande distribuição”, 60% da produção é para exportação, nomeadamente para Estados Unidos, China e Brasil.
Num breve discurso após o almoço, o primeiro-ministro sublinhou que há um ano Portugal apresentava um défice alimentar na ordem dos cinco mil milhões de euros, mas que em onze meses esse défice já caiu para os 4,4 mil milhões de euros, menos 600 milhões de euros. "Um país com o potencial do nosso não tem de pagar uma fatura tão elevada. Temos de nos tornar autossustentáveis, esse é o caminho”, disse, criticando o "desinvestimento" no setor nos últimos anos e enumerando de que forma o investimento e o desenvolvimento da agricultura são políticas fundamentais para a coesão social e territorial do país.
Mas Luís Montenegro também aproveitou para se demarcar da posição de alguns agricultores que são contra a concretização do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Na sua opinião, a conclusão deste acordo é a solução para se “exigir reciprocidade” em termos de cumprimento de regras ambientais e de controlo sanitário” – e não o contrário. “Não temos de ter medo disso. Quem quiser fechar-se numa concha para proteger hipoteticamente o seu interesse, quando acordar vai ver a sua prateleira [de vendas] cheia, enquanto a prateleira do outro está completamente vazia”.
Raquel Carvalho, ligada ao setor da viticultura, dirigiu-se ao primeiro-ministro para chamar a atenção para “uma baixa de preço significativa no ano passado do preço da uva de vinho”, que de deve à importação de uva, sobretudo de Espanha, “muita dela que não é legalizada, que extrapola o limite previsto na lei e que entra aqui a muito baixos preços e que faz com que entre numa concorrência desleal na compra da uva aos viticultores nacionais”. O que esta produtora pede é mais fiscalização, para que as leis sejam cumpridas.
“As câmaras, por vezes, também estão um bocadinho de costas viradas para o nosso setor”, lamentou Dina Martins. “Ou seja, o turismo tem muito peso, a habitação, a educação. Mas o setor agropecuário, que foi tão importante durante a pandemia, que foi tão resiliente, continuou sempre a trabalhar, nunca baixou os braços para fornecer, que todos elogiavam, afinal, quando acabou a pandemia, esqueceram-no rapidamente. Os criadores sentem-se um bocado abandonados”, considera Raquel Carvalho.
Paulo Renato Silva deixou um outro alerta. “Quem zela pelo ambiente, pelo meio ambiente e pelos sítios onde vivemos são os agricultores. São esses que trabalham a terra, que ordenam, que produzem, que limpam, que deixam as coisas utilizáveis para os urbanos. Uma coisa que este governo já pôs em andamento é a questão da água, que é importantíssima para o país e em particular aqui para a nossa região. Temos de conseguir guardar mais a que cai e não a deixarmos ir tanto para o mar", diz este produtor, referindo ao projeto "A Água que nos Une".
Luís Montenegro garantiu que anotou todas as preocupações e partiu, rumo a Castelo Branco e depois à Guarda, onde à noite tinha um jantar. Provavelmente a essa hora já poderá beber um copo de vinho.