Montenegro exalta-se durante entrevista a Manuel Luís Goucha: "Nunca tive nenhum ato de corrupção. Desafio quem quer que seja a dizer o contrário"

CNN Portugal , MJC
25 mar 2025, 18:53

Primeiro-ministro sentou-se frente a frente com Manuel Luís Goucha, na TVI, para uma entrevista em que admitiu que talvez pudesse ter gerido de outra forma o caso da empresa familiar - nomeadamente passar logo para os filhos a Spinumviva. Sobre a crise política, disse assim: "O voto das moções de censura era hipócrita. O voto da moção de confiança trouxe à tona a verdade"

O primeiro-ministro, Luís Montenegro, admite que não antecipou os problemas que a sua empresa familiar lhe podia trazer e que talvez pudesse ter gerido melhor a situação. No entanto, recusa qualquer acusação de corrupção - como aquela que é feita num cartaz produzido pelo Chega: "Eu não posso ser associado a nenhum comportamento de corrupção porque eu nunca tive nenhum ato de corrupção. Nunca. E desafio quem quer que seja a dizer o contrário. Nunca fui suspeito nem pode ser. Isto não pode ser! E quem disser o contrário tem de prová-lo", disse Montenegro, num momento de alguma exaltação durante a entrevista a Manuel Luís Goucha.

Entrevistado em direto esta terça-feira tarde no programa "Goucha", na TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), Luís Montenegro admitiu que, se soubesse o que iria acontecer, talvez pudesse ter passado a empresa diretamente para os filhos, uma vez que era casado com comunhão de bens. "Admito que uma ou outra coisa pudesse ter sido enquadrada de maneira diferente, mas eu não sou acusado de ter tido cometido ilegalidade, não tive nenhuma atitude ilícita. Isto é um manto de insinuação e de aproveitamento político, de difamação em muitos casos, que não tem correspondência com os factos", afirmou. "Eu fiz tudo de boa-fé. Sou acusado de ter trabalhado. Eu não me envergonho disso. Estava fora da política, tinha uma atividade que era a advocacia, tinha património que foi herdado dos meus pais e criei uma empresa para administrar esse património", acrescentou.

"Confesso que nunca perspetivei que isto pudesse ser mal entendido", admitiu. "Mas há uma conduta que é de total boa-fé. Eu fiz aquilo que qualquer português faria no meu lugar."

Luís Montenegro garante que a sua atividade empresarial não teve nenhuma influência na política. "Não havia nenhuma perturbação, não há nenhuma contaminação recíproca das duas atividades." E acrescentou: "Eu vivo do meu trabalho, vivi sempre do meu trabalho. Não há um cêntimo que não tenha resultado do meu trabalho ou da minha família. Podem mexer o que quiserem que não vão encontrar, isso é seguro".

O primeiro-ministro referiu que "não é fácil" ter a sua "honorabilidade, integridade e honestidade" colocadas "em causa" e assegura que não há nenhum fundamento para dizer que foi avençado. Mas admite que "pode ter havido um erro de comunicação".

O primeiro-ministro considera que deu todas as explicações que seria possível dar. "Eu respondi a tudo desde a primeira hora, fui ao Parlamento responder a duas moções de censura, respondi por escrito a quem me fez perguntas, fiz uma declaração ao país sobre este tema." Montenegro afirma que continua disponível para esclarecer o que for necessário. "Nunca ninguém foi escrutinado como eu fui."

"O voto das moções de censura era hipócrita" 

Sobre a crise política, garante que não desejou "estas eleições antecipadas", argumentando que seria impossível saber como a oposição ia votar a moção de confiança. "A oposição estava a caminhar para criar uma condição de degradação das condições de o Governo executar o seu programa. O que eu disse foi 'os senhores têm de  dizer se o Governo tem ou não condições para executar o seu programa'. Foi o Parlamento que disse que não."

E a moção de confiança era mesmo necessária? "O voto das moções de censura era hipócrita. O voto da moção de confiança trouxe à tona a verdade", responde. "Eu assumo esta responsabilidade. Prefiro dois meses para clarificar a situação do que um ano para estragar o trabalho que estava a ser feito."

Luís Montenegro diz que não quer estar a discutir de quem é a culpa pela crise política e espera "que tenhamos ainda em Portugal o espírito democrático, que tenhamos uma campanha com elevação, com debate das ideias, das soluções".

Num outro tópico, Luís Montenegro admite que tem "uma profunda admiração" por Cavaco Silva: "Foi um primeiro-ministro exemplar, transformador", num período no qual o país conheceu "um enorme desenvolvimento".

"Tanto entro numa tasca como num palácio"

O primeiro-ministro emociona-se ao falar da família e de todo o apoio que tem recebido da mulher, dos filhos e da mãe. "A minha mãe foi uma mulher muito trabalhadora, que sacrificou a carreira profissional para educar os três filhos." E ainda: "Talvez a coisa mais bonita que ouvi na vida foi a minha mãe ter-me dito que se sentia recompensada pelo sacrifício que fez, com a dedicação que estava à prestar à sociedade."

Afirma que não gosta de "levar para casa" os problemas da política, mas nestas últimas semanas tem falado com a mulher e os filhos sobre a situação. "Eles estão com um nível de motivação elevadíssimo, têm-me dado muita força."

Rural? Manuel Luís Goucha lembra as palavras de Marcelo e Luís Montenegro ri-se: "Não posso ser mais urbano-litoral", diz, sublinhando que nasceu e cresceu no Porto, uma cidade junto ao mar, e trabalhou grande parte do tempo em Lisboa. E que Espinho é a casa onde regressa todos os fins de semana. Apesar de tudo, recorda as raízes humildes e transmontanas. "A minha avó paterna era lavradora, o meu avô era guarda-prisional. Esforçaram-se os dois e conseguiram licenciar os três filhos que tiveram." A família materna era mais abastada, tiveram 14 filhos e todos se licenciaram . "Mas sempre viveram do seu trabalho", sublinha.

"Eu tanto entro numa tasca como num palácio e entro com a mesma cara e a mesma naturalidade", garante o primeiro-ministro. E termina: "Sou uma pessoa normal."

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