Luís Montenegro: três meses à frente do PSD com o partido na mão - mas há um problema

2 out, 17:00
Presidente do Partido Social Democrata (PSD), Luís Montenegro (Lusa/ Nuno André Ferreira)

Um grupo parlamentar escolhido pela anterior direção é o maior dos escolhos que a ainda recente liderança do partido tem pela frente internamente. Os sinais de união em torno de Luís Montenegro mantêm-se, as estruturas do partido estão serenadas. E no entanto…

“Não estou desiludido”, responde prontamente Miguel Relvas. A pergunta era sobre o balanço que faz deste arranque da nova direção, três meses depois do congresso do Porto, com férias de verão pelo meio, um contexto económico e social a degradar-se e um horizonte eleitoral regulamentarmente longínquo. O antigo homem forte do PSD continua atento à vida política e ao seu partido e continua rápido na análise. “Não estou desiludido”, repete, “pelo contrário, a unidade e a afirmação do partido são uma realidade”, em contraponto com o que foi o PSD liderado por Rui Rio.

No entanto, até o antigo ministro-adjunto de Passos Coelho reconhece que a relação com a bancada parlamentar é “uma dificuldade” e o reinício dos trabalhos da Assembleia da República já serviu para antever que pode ser um foco de instabilidade permanente. Mesmo que, para já, a turbulência não seja visível à superfície.

Primeiro, foram as alterações feitas nas comissões, “sem uma palavra” aos deputados, depois o despedimento de vários funcionários e a contratação de outros, culminando na integração de Pedro Alves, da distrital de Viseu e coordenador autárquico do partido, que vai assumir funções de “consultor político”, como noticiou o Expresso, ganhando 4.150 euros mensais, mais do que o ordenado bruto de um deputado.

Os deputados, lá está, não gostaram.

A estranheza percorreu a bancada, com vários deputados a contestarem a figura contratual, o facto de poder ficar em teletrabalho e o salário, que pode acumular com outras funções. “Acho que tirando o Pedro Alves, ninguém ficou contente”, atira um deputado. “Acharam um absurdo'', relata um ex-dirigente rioísta,que confirma que “caiu mal” na bancada a contratação do coordenador autárquico do PSD. E mesmo na direção da bancada assume-se que “está difícil o ambiente”.

A direção do partido, claro está, desvaloriza. “Não é tema”, remata, sem mais, um destacado dirigente do PSD. Ninguém comentou publicamente a questão. E se o consultor estratégico não tem sido visto no Parlamento, há a garantia de que passará a estar dois ou três dias por semana.

Um clima de pântano

Ainda a contratação de Pedro Alves não era pública, quando, na última semana, veio a ordem para votar na eleição do vice-presidente do Chega. O descontentamento ficou evidente quando grande parte da bancada ignorou a ordem que tinha chegado via e-mail do líder do grupo parlamentar, Joaquim Miranda Sarmento, mas que vinha de cima, do presidente do partido.

A atual liderança do PSD sublinha que são questões que não passam para fora, ou seja, para o eleitorado. O que vale, nestes três meses de Montenegro à frente do partido, é a “marcação cerrada” que tem sido feito ao Governo, sublinha uma fonte do núcleo duro. E aponta como exemplo o desafio para lançar um programa de emergência social: “O Governo foi atrás, é assim que tem de ser.” E acrescenta que o PSD vai continuar a lançar propostas alternativas sem, contudo, apresentar um programa alternativo. Falta muito tempo para as eleições, mesmo que na cúpula do PSD continue a acreditar-se que a legislatura pode não chegar até ao fim.

É neste caldo de insatisfação que Luís Montenegro tem de gerir a bancada que Rui Rio escolheu. Mesmo que, para já, as críticas não sejam às claras, mesmo que nenhuma oposição interna esteja organizada, como garantem vários deputados à CNN Portugal, é um “clima de pântano” o que se vive dentro do Parlamento. Um “mau ambiente, mas em surdina”, segundo outra fonte do grupo parlamentar, que comporta riscos.

As “más prestações” do líder parlamentar (aí, sim, uma escolha do presidente do partido, que pediu a Mota Pinto que se afastasse) são tema recorrente nos bastidores. Todos reconhecem que Joaquim Miranda Sarmento tem competência técnica, mas vários apontam a incapacidade para se afirmar, quer nos debates, quer internamente na condução da bancada. “Quem manda naquilo é o João Moura e o Paulo Rios Oliveira; eles são muitos e depois não sobra muito o que fazer para os restantes deputados”, contam à CNN. Há quem até já vaticine que Montenegro pode deixar cair Miranda Sarmento. Mas também quem diga que são só ambições veladas de eventuais pretendentes ao lugar.

Um problema chamado Chega e os desafios eleitorais

Não será para já, nem será tão cedo que essa contestação em surdina vai tornar-se audível. Dentro do grupo parlamentar, mesmo os que são oposição mais evidente da atual liderança, sabem que têm de esperar para ver: "Até haver eleições, vai ser assim, falam nos corredores, mas ninguém vai fazer nada”, é preciso ver como resulta nas urnas a estratégia. O problema “eleições europeias de 2024” é um desafio consabido e o núcleo mais fechado do PSD já está a trabalhar nesse cenário. Fontes ouvidas pela CNN Portugal dizem até que o cabeça de lista já estará, senão escolhido, pelo menos pensado. “E é forte”, garantem. Não é de somenos, há o problema do Chega e da Iniciativa Liberal poderem "comer'' lugares aos social-democratas e um mau resultado em maio de 2024 pode mudar tudo internamente.

Por muito que Montenegro se tenha apresentado como um líder para pelo menos 4 anos, sabe bem que o teste das europeias de 2024 pode ser decisivo. Por essa altura, tem de mostrar que está de facto a afirmar-se como alternativa ao poder socialista. Por enquanto, o PSD ainda não está a capitalizar descontentamento: na sondagem divulgada pelo Expresso esta sexta-feira, a péssima avaliação do Governo ainda não tem reflexo nas intenções de voto.

Depois, há a questão das autárquicas e alguma apreensão com a possibilidade de voltar a perder a câmara da capital. “Lisboa é uma questão que precisa de um acompanhamento permanente” da direção do partido, considera um destacado militante.

Quanto ao Chega, a estratégia de Luís Montenegro - que até apelou ao presidente da Assembleia da República para desbloquear o impasse na eleição de um vice-presidente daquele partido - é justificada internamente. ”O PSD quer ir buscar eleitorado ao Chega, não tem de o diabolizar e isto torna-os um partido do sistema; é uma estratégia inteligente”, diz-se na sede da São Caetano à Lapa. 

Como vai o PSD buscar esse eleitorado, que as sondagens mostram que continuamente escapa? “Vamos ver, não vamos andar sempre a falar do Chega”. Porém, nos últimos dias, não se falou de outra coisa.

Há três meses, no discurso da tomada de posse enquanto presidente do PSD, Montenegro arrancou uma ovação do congresso quando proclamou: "Acreditem, se algum dia for confrontado com a violação dos nossos princípios e valores para formar ou suportar um Governo, o partido pode decidir o que quiser, mas não serei eu o líder de um Governo desses." Também disse de outra forma: que não estará disponível para qualquer acordo que viole esses princípios, mas esta conversa tem uma subtileza: um eventual acordo não pode violar princípios, mas não recusa um acordo com um partido que viole esses princípios, como fazia o seu opositor, Jorge Moreira da Silva. Ou seja, a Montenegro falta dizer o que estará disponível para aceitar se precisar do Chega para ser primeiro-ministro.

“Está a falar muito e a prometer tudo”

Aqui chegados e apesar de tão pouco tempo passado, o clima social-democrata está já longe da festa com que marcou o verão. A rentrée política do PSD foi marcada pelo regresso de Pedro Passos Coelho a um evento partidário e pela apresentação de um pacote de medidas de apoio às famílias e empresas para fazer face à inflação.

O regresso da chamada Festa do Pontal não teria tido o mesmo impacto sem o primeiro, mas muitos questionam como terá Passos, sentado na mesa de honra, ouvido “tanta “promessa e tanto apoio” proposto para famílias, pensionistas e empresas. O mesmo valeu para os 125 euros que o Governo anunciou para os trabalhadores com rendimentos brutos mensais até 2700 euros e que o PSD veio propor que fosse alargado aos pensionistas.

Fontes social-democratas consideram perigoso o caminho das “promessas demagógicas”, que nem sequer estão em linha com os princípios do PSD. “Ele [Montenegro] está a falar muito e a prometer tudo”, criticam, referindo também a posição da direção social-democrata sobre a atualização de pensões em 2023.

O PSD saiu ao ataque contra o Governo, acusando António Costa de malabarismos ao pretender uma antecipação do aumento aos pensionistas quando na verdade quer cortar pensões. “Tem razão em dizer que há truque, mas a sustentabilidade das contas da Segurança Social foi uma batalha do Passos, do PSD, que insistiu na necessidade de rever o sistema; agora vem o Montenegro dizer que não há cortes nas pensões?”, comenta, perplexo, um antigo dirigente.

O novo aeroporto de Lisboa é outro tema que tem vindo a marcar este arranque de liderança do PSD, com o Governo a dizer desde a primeira hora que queria um consenso de princípio com o maior partido da oposição. Luís Montenegro disse e repetiu que não iria decidir no lugar do Governo, mas acabou ao lado de António Costa num acordo para estudar o impacto de pelo menos três soluções possíveis, que adia pelo menos mais um ano uma decisão. Montenegro defende-se dizendo que não corroborou mais um adiamento, já que a Avaliação Ambiental Estratégica é obrigatória e nunca foi feita.

No debate de quarta-feira sobre este assunto, pedido pelo Chega, o PSD acabou por ter de jogar à defesa, com Chega e Iniciativa Liberal a acusarem os social-democratas de terem embarcado num acordo típico de Bloco Central que coloca todos os outros de fora. Enquanto isso, no PS há regozijo por acharem que meteram os social-democratas no bolso. Um episódio que mostra bem como é estreito e difícil o caminho do maior partido da oposição, que tem a responsabilidade de ser oposição ao Governo, mas também tem o peso de se afirmar como alternativa fiável e capaz de assumir compromissos que vão para além dos ciclos políticos.

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