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Entre bombos e gritos, furando por entre a multidão das feiras, Luís Montenegro elogiou as mães e pediu uma "maioria maior"

5 mai 2025, 07:20
Luís Montenegro em Barcelos (Lusa/ Miguel A. Lopes)

REPORTAGEM | No primeiro dia oficial de campanha, o líder da AD esteve em Bragança e Barcelos e mostrou o seu lado mais popular. De mão dada com a mulher, falou com os feirantes e tirou selfies. A dinâmica é de vitória, mas Montenegro não confia em sondagens: “Ninguém ganha as eleições antes do dia das eleições"

Quase a terminar o dia, Luís Montenegro sobe as escadas do chafariz do largo da Porta Nova, em Barcelos, e enfrenta a multidão que se junta à sua frente. Não tem microfone e levanta um pouco a voz para dizer: “Até de hoje a 15 dias não vamos perder um segundo. Temos de conquistar os votos todos para ter uma maioria maior para continuar a governar Portugal”. A campanha mal começou e já percebemos que esta "maioria maior" é uma das expressões a repetir até ao dia das eleições.

O primeiro dia começou assim: “Bragança, desperta, chegou a escolha certa!”

Domingo. Faltam alguns minutos para as 11:00 da manhã, a chuva parece dar breves tréguas e o largo da rodoviária, em Bragança, está cheio de militantes da AD empunhando bandeiras cor-de-laranja e azuis, à espera de Luís Montenegro. Um miúdo pequeno, três anos, não mais, empoleirado em cima de um banco, agita uma bandeira como quem dá a partida numa corrida de carros: “partida, largada, fugida!”. E ri-se, ri-se, contente com a sua brincadeira. “Partida, largada, fugida!” - a campanha da AD está oficialmente na rua e a primeira voz que se ouve é a de Ana Miguel, que sai da carrinha já com o megafone ligado: “Bragança, desperta, chegou a escolha certa!”, grita a militante da JSD de Aveiro.

É licenciada em Direito, tem 24 anos e uma energia inesgotável. “Começámos no dia 1 na Ovibeja e vamos até dia 16, temos que puxar pelas pessoas, estamos aqui para isso”, conta a jovem que vai alternando com Sara, da JSD de Macedo de Cavaleiros, na tarefa entusiasmar os apoiantes de Bragança. “Hoje somos nós, amanhã são outros. Depende de quem está com mais energia e com mais voz.” As palavras de ordem são inspiradas nos gritos das claques do futebol e até nos de outros partidos, o importante é que funcionem. “Luís, amigo, Bragança está contigo”, grita Ana. Pouco depois, começa a ouvir-se o hino da campanha, vindo de uma coluna, e a isto tudo ainda se juntam os tambores da Escola de Tocadores e Gaiteiros da Lombarda. E Luís Montenegro ainda nem saiu do carro. 

Ana Miguel agarra o microfone e grita as palavras de ordem: esta é a sua tarefa ao longo destas duas semanas de campanha (Foto: CNN)

Domingo é dia de feira, toda a gente sabe, e Montenegro tem duas na agenda: de manhã, a feira das Cantarinhas, em Bragança; à tarde, a Festa das Cruzes, em Barcelos.

Em Bragança, as barraquinhas ocupam os passeios, nas ruas do centro da cidade, e se já é difícil andar por ali sem a campanha, imaginem o que é com este grupo de gente de autocolante ao peito e os jovens com as bandeiras em riste e a Ana sempre a gritar ao megafone - agora grita “Assim se vota, assim se vê, é a força da AD” - enquanto à frente os seguranças vão abrindo caminho, discretíssimos, vestidos à paisana, não fossem os auriculares nos ouvidos e aqueles braços determinados com que afastam a multidão, e nem os identificaríamos. E também são eles que vão alertando, atenção ao poste, atenção às cordas das barracas, aos canteiros de flores, às louças que estão expostas, pratos com flores pintadas e travessas de barro para fazer assados no forno, cuidado para não partir nada. O líder da AD caminha devagar, mal se consegue mexer, as câmaras da televisão em cima dele, os microfones a tentar captar todas palavras trocadas com os feirantes e os transeuntes. Ele aperta-lhes a mão, eles queixam-se da falta do comboio, das pensões que são baixas, dos ordenados que não dão para tudo, dos médicos que escasseiam. 

Cem metros percorridos e Montenegro já precisa de uma pausa, entra no Café Lisboa e senta-se para tomar uma bica, acompanhado por Nuno Melo, do CDS, que entretanto se juntou à arruada, e Hernâni Dias, cabeça de lista por Bragança e ex-secretário de Estado, que se demitiu depois de ter criado duas empresas ligadas ao setor imobiliário quando já estava no Governo. Apesar disso, Luís Montenegro não acredita que a polémica possa prejudicar os resultados da coligação PSD/CDS. "De maneira nenhuma", garante aos jornalistas. "Convido-vos a ver os resultados de Bragança no dia 18 à noite e depois façam-me essa pergunta. Tenho a certeza absoluta que vamos ganhar com muita margem as eleições em Bragança".

Façamos nós também uma pausa. No meio da confusão, Virgínia conseguiu aproximar-se e tirar uma selfie com o primeiro-ministro. Mostra-a agora no telemóvel, orgulhosa.

Virgínia acordou cedo para fazer os "Bilhós" que está a vender na feira. Mas arranjou tempo para vir tirar uma selfie com Montenegro (Foto: CNN)

Virgínia Choupina, 55 anos, é a mulher que inventou o "Bilhó”, um bolo de castanha que é - podemos confirmar - realmente bom. Virgínia não é pasteleira, mas adora fazer bolos e experimentar receitas e achou que Bragança já merecia ter um doce só seu. “E se nós temos as castanhas, que são o ouro de Bragança, então tinha que ser de castanha.” Virgínia também faz pão de castanha e broa de castanha e até leite creme de castanha ela já inventou, mas é o bolo o seu mais-que-tudo. O "Bilhó” nasceu em 2002, mas só há dois anos é que, depois de ganhar um concurso de doces, se tornou mais conhecido. “Foram mais de vinte anos, eu até já tinha esmorecido.” E, de repente, aqui está ele: o  "Bilhó" vendido em feiras e mercados e Virgínia a levantar-se às 4:00 da manhã para conseguir responder a todas as encomendas, até já comprou um forno profissional e uma batedeira industrial, e diz que não dorme mas não se cansa. “Faço com muito amor porque é uma coisa que eu criei.” Este domingo, Virgínia deixou a sua banquinha na Feira das Cantarinhas e veio, com a mesma determinação com que vende “bilhós”, vestida com uma blusa cor-de-laranja, a furar por entre as gentes, para tirar uma selfie com Luís Montenegro. “Se ele veio cá, tinha que ser, não é?”

“Viva as mães de Portugal e, em particular, as mães de Bragança”

Depois do café, Montenegro já está de volta à rua. Por entre tantas bandeiras da AD, chama a atenção uma bandeira de Portugal. Quem a traz é Augusto Ribeiro, que nasceu há 80 anos no Entroncamento mas há já 22 que mora numa aldeia perto de Vinhais.

Além da bandeira de Portugal, Augusto tem também uma bandeira do CDS e um cachecol azul do partido a que pertence desde sempre: “Andei a recolher assinaturas para o CDS ser legalizado em 1974”, conta, ao mesmo tempo que exibe o seu cartão de militante com o número 101. Está feliz com esta coligação: “Eu tenho uma doutrina ideológica, não defendo pessoas, defendo princípios”, explica. E enquanto puder vai continuar a participar nas campanhas eleitorais, porque só assim sente que está a fazer o que é correto.

Augusto Ribeiro, militante do CDS, juntou-se à arruada (Foto: CNN)

Este domingo também é dia da mãe e os sociais-democratas têm tulipas para entregar às mulheres que com eles se cruzam em Bragança.

Montenegro diz que está solidário com todas as mães que estão preocupadas com o futuro dos seus filhos e que temem ter de separar-se deles: “As mães portuguesas mandam os filhos para o estrangeiro”. Num dia em que a atualidade é marcada pelas medidas de regulação da imigração, o candidato da AD prefere falar da emigração. Sabendo que está numa região que luta contra a desertificação e a dificuldade em prender os mais novos, chegado à praça da Sé, Luís Montenegro sobe à varanda para se dirigir à população e volta a insistir no tema, garantindo que o trabalho do seu governo “olha para os jovens e lhes dá esperança para não terem de emigrar em busca de uma oportunidade”. “Viva as mães de Portugal e, em particular, as mães de Bragança”, diz por entre os aplausos - e estamos em crer que ao dizê-lo não se lembrou que, em 2003, foi criado um movimento de mulheres, chamado “mães de Bragança” que tinha como objetivo expulsar as prostitutas brasileiras que viviam nesta cidade transmontana. 

Uma hora leva a caravana da AD a percorrer a feira, nem sequer dá tempo para comprar uma cantarinha de barro. “Os liberais que aí passaram no outro dia compraram, mas este nada”, comenta Maria de Lourdes, que há mais de 30 anos faz, com as suas próprias mãos, as típicas cantarinhas de Bragança. As cantarinhas, que custam 3,5 ou 2,5 euros - dependendo se são pequenas ou muito pequenas -, “são para oferecer às pessoas como sinal de amizade, e também para nos dar sorte”. 

Maria de Lourdes faz, há mais de 30 anos, as cantarinhas de Bragança. Mas não vendeu nenhuma a Montenegro (Foto: CNN)

Montenegro precisa de sorte, mas sabe que, mais do que isso, precisa de votos. É também à varanda de Bragança que afirma, pela primeira vez, que "faltam 15 dias para termos uma maioria maior”. E faz um alerta a todos os eleitores: “Ninguém ganha as eleições antes do dia das eleições. Peço-vos que não deem a vitória por adquirida. Peço-vos para darem tudo".

Despachada a primeira feira, sigamos à tarde para a Festa das Cruzes.

O primeiro dia continuou assim: “Barcelos desperta, chegou a escolha certa!”

Ana Miguel ainda não está rouca. Os gritos continuam impecáveis mas agora é mais difícil ouvi-los porque aqui, além das palavras de ordem ao megafone, da música que sai da coluna da campanha, dos tambores e da gaita de foles do Grupo Zés Pereiras de Barcelos, ainda temos os ranchos folclóricos que desfilam na avenida da Liberdade, os carrosseis e carrinhos de choque, e os milhares de pessoas que vieram à feira nesta tarde que, de repente, se pôs de sol e calor. Acharam que em Bragança foi difícil? Aqui é muito pior. 

Luís Montenegro na Festa das Cruzes, em Barcelos: como se estivesse em casa (Lusa/ Miguel A. Lopes)

“Quem vem lá?” “Olha, olha, quem é ele.” Ninguém estava à espera disto, há quem corra para dar um beijinho e quem comente que este é "mais um gatuno, são todos iguais". Luís Montenegro chega de mão dada com a mulher, Carla. Sorri incansavelmente, estende a mão e diz "obrigado, obrigado", tira selfies, mantém curtas conversas. Na Padaria Regional Lurdes, desafiam-no a tirar uma imperial. O candidato está à vontade, sente-se em casa. Os assessores insistem para que se apresse, mas ele continua a parar a cada solitação. Desta vez tem ainda menos tempo, nem 45 minutos demora esta arruada. Depois do chafariz, acelera o passo. A feira fica para trás, já não há tambores, nem música, nem tempo para falar com mais pessoas na rua. Só os jovens continuam a acompanhá-lo e a gritar e, às tantas, pegam-lhe ao colo, aos gritos de “Montenegro, Montenegro”. O ainda primeiro-ministro deixa-se elevar, levanta os dedos em “v” e ri às gargalhadas, descontraído, até que alguém diz que são horas de ir. Tem menos de quatro horas para vestir o fato, mudar o tom e apresentar-se em Carcavelos para o último debate televisivo.

Luís Montenegro com a mulher, Carla Montenegro, no final da arruada em Barcelos (Lusa/ Miguel A. Lopes)

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