Foi com lições que o Presidente da República quis dar posse ao novo Governo. Lembrou a subida do Chega, a brutal descida do PS e pareceu dar a entender que a votação de 18 de maio passa um pano ético sobre o caso da Spinumviva
O Presidente da República decidiu antecipar a sua nova vida já esta quinta-feira, transformando o Palácio da Ajuda num gigante auditório em que foram dadas muitas lições a um Governo fresquinho.
E a palavra é do próprio Marcelo Rebelo de Sousa, que caminha a passos largos para deixar o Palácio de Belém e voltar a abraçar o ensino. Falemos, então, de lições.
Não é a primeira, mas parece ser a mais relevante, já que o chefe de Estado quis deixar claro ao primeiro-ministro e ao Governo a quem tinha acabado de dar posse que a vitória, embora mais expressiva, não é um “cheque em branco” à sua atuação.
É que Marcelo Rebelo de Sousa frisou que a Aliança Democrática (AD) não conseguiu a maioria absoluta, mas também sublinhou que nem com a Iniciativa Liberal essa maioria é possível. “Os portugueses escolheram o caminho mais seguro, menos arriscado”, apontou, antes de se lançar numa autêntica aula de História de Portugal e do mundo.
Um mundo que agora se faz de “forças novas ou renovadas, mais radicais”, e que vêm a “subir progressivamente”. Um recado claro para o Chega e para André Ventura, que ouvia atentamente a mensagem.
Tudo isto decorrente de umas eleições em que Marcelo Rebelo de Sousa parece não ter visto apenas um reforço da AD e do Governo em geral, mas um reforço concreto do primeiro-ministro. É que o Presidente da República deixou claro que foram as dúvidas em torno da Spinumviva a atirar o País para eleições, mas também deixou a entender o voto popular passou por cima do juízo ético para dar essa mesma vitória.
"Os resultados mostraram que o juízo coletivo reforçou a confiança política [no primeiro-ministro]", reiterou, falando até numa campanha que falou por uma "elevada personalização". E isto sempre em relação ao juízo político, já que o juízo jurídico ou judicial não foi chamado.
Segundo o chefe de Estado, Luís Montenegro fez uma campanha "se afirmou junto dos seus apoiantes por elevar a personalização a elemento decisivo de escolha eleitoral".
"Ou seja, podendo cada qual, votante, candidato ou partido, ficar na sua opinião, positiva ou negativa sobre a matéria, os resultados revelaram que os portugueses não consideravam que esses juízos eram de molde a deixar de renovar e reforçar a escolha daquela força política e daquela mensagem personalizada no primeiro-ministro", reforçou.
"Falo dos juízos políticos, porque os de ordem jurídica, do foro judicial, não estavam em apreciação", ressalvou Marcelo Rebelo de Sousa.
No seu entender, apesar disso, "foi uma vitória impressiva por ser com apenas 11 meses de Governo, pela carga decisiva do juiz ético ou moral que estava em causa, pela divisão da chamada direita e pela acrescida complexidade no derrube do executivo".
"Ou seja, os portugueses premiaram o que consideraram melhor, ou mais seguro, ou menos arriscado de todos os caminhos, mas sem querer em converter o crédito adicional em crédito ilimitado, o incentivo à persecução da obra iniciada em poder absoluto, ou a humildade e empatia em auto centramento ou menor abertura a outras lições do ato eleitoral", resumiu.
Marcelo pede mundanças
O Presidente da República considerou que o primeiro-ministro tem agora uma meta "bem mais ambiciosa", após a vitória "personalizada" nas legislativas, e pediu mudanças na saúde, habitação e educação.
Na parte final do seu discurso na cerimónia de posse do XXV Governo Constitucional, o segundo executivo PSD/CDS-PP chefiado por Luís Montenegro, Marcelo Rebelo de Sousa dirigiu-se diretamente ao primeiro-ministro.
"Agora, a meta de vossa excelência é bem mais ambiciosa. Quer ir e tem de ir à raiz estrutural do que precisa de se ajustar ao novo Portugal, acelerando o uso dos apoios europeus, estimulando o investimento e explorações, assim contribuindo para aumentar o poder de compra, portanto, os salários dos portugueses, não esquecendo os mais pobres e excluídos", afirmou.
O chefe de Estado defendeu que o novo Governo PSD/CDS-PP tem de ir mais longe, "mudando sistemas e orgânicas encravadas ou necessitadas de perspetiva de futuro, nomeadamente na saúde, na habitação e mesmo em alguns setores da educação".
Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, Luís Montenegro "já demonstrou que é determinado e resistente, mesmo na equipa que mantém e retoca, e decidido a converter o que parecia impossível, em possível".
"Ao fim e ao cabo, a governação de vossa excelência – e digo vossa excelência porque esta vitória é personalizada na eleição que acabámos de viver – é chamada a comprovar, desde já, que o essencial de Abril permanece em liberdade, democracia e justiça social, e que esse Abril é capaz de entender e dar futuro a um Portugal muito diferente daquele de 1974", acrescentou.
Assegurando a Montenegro que terá "a solidariedade" do Presidente da República, até ao fim do seu mandato, manifestou o desejo de que "a sua entrega, o seu empenho, a sua visão, a sua resiliência, a sua permanente confiança nos portugueses e em Portugal sejam coroadas de êxito".
"Esse é o meu voto muito sincero, e creio é o voto muito sincero de muito Portugal", concluiu o chefe de Estado.
