Foi durante uma emissão conduzida por mim que Pedro Frazão lançou o nome de uma empresa sobre a qual nunca tinha ouvido falar: a VitaX. Referiu o deputado do Chega que “a VitaX foi criada nada mais, nada menos que a 16 de maio do ano passado”. O que Pedro Frazão fez foi “nada mais, nada menos” do que usar uma informação que apanhou por aí e continuou: “não é que curiosamente, passados 15 dias, no dia 3 de junho de 2024, o Ministério da Agricultura, veja lá, regulamentou e liberalizou a proteína de insetos para a alimentação humana? Eu queria saber se o senhor primeiro-ministro não acha que tem um conflito de interesses”.
Este momento aconteceu em direto, com Pedro Frazão a tornar pública uma suspeição, num debate que nada tinha que ver com este tema, a envolver uma empresa sobre a qual eu nunca tinha ouvido falar porque, de facto, ela não existe.
Acredito que o jornalismo tem uma missão ainda mais importante nos nossos dias, em virtude das estratégias trapaceiras de dar o falso como certo e vice-versa. A desinformação é um problema grave na nossa sociedade. Estar numa emissão em direto, contudo, torna impossível fazer a verificação de factos no próprio momento, sobretudo quando são inventados. Ainda assim, fiquei a pensar nesta empresa, porque Frazão trouxe à antena uma acusação grave.
O que fiz no dia seguinte foi abrir o meu jornal com a clarificação que se impunha. A empresa não existe e a intervenção de Pedro Frazão provocou uma reação do filho do primeiro-ministro. Nas redes sociais, Hugo Montenegro decidiu quebrar o silêncio, escrevendo que a VitaX “não passa de um projeto de universidade no âmbito da cadeira ‘Projeto Final – Plano de Negócios’, onde o objetivo era simular a criação de uma empresa de raiz para fomentar o nosso espírito empreendedor”.
Ou seja, o pacto social da empresa VitaX citado pelo deputado do Chega mostra que esta empresa fictícia tem sede na Rua Molitor 711, 4100-367, União das freguesias de Lordelo do Ouro e Massarelos, concelho do Porto, uma rua que também não existe. "Molitor", que dá nome à rua, é uma das palavras do nome científico "Tenebrio molitor”, as larvas-da-farinha.
Confrontámos o Chega com estas declarações e fiz apenas duas perguntas: qual a fonte de informação e se admitia que tinha divulgado informação falsa. O próprio Chega reencaminhou um link para uma conta anónima no X, onde estava os alegados “documentos” que comprovavam a acusação. Portanto, este não é apenas um problema do deputado Pedro Frazão, é um problema do partido que, solicitado a pronunciar-se oficialmente, também enviou uma publicação no X de uma conta anónima que, entretanto, desapareceu. A fonte do Chega era tão sólida quanto a espuma dos dias.
Esta manhã voltei ao contacto institucional com os dois assessores do Chega, solicitando resposta às duas mesmas perguntas, acrescentando uma terceira: será feito um pedido de desculpas a Hugo Montenegro? Até agora, ninguém respondeu.
O dedo que rapidamente aponta suspeitas na televisão em direto e pede responsabilidades é o mesmo que depressa recua no momento de assumir as suas.
Hugo Montenegro decidiu quebrar o silêncio porque sentiu necessidade de desmarcarar esta mentira. Isto não é política, não é justiça, é bom-senso elementar.
André Ventura, por coincidência, tinha agendada uma entrevista na CMTV. A primeira pergunta da jornalista foi sobre este caso que começou na CNN Portugal e nem o Presidente do Chega conseguiu defender o seu deputado. Admitiu que não conhece este caso em concreto e que, se se tratar de uma “notícia falsa”, Pedro Frazão “dirá” que se trata de um equívoco. “Ele próprio fará isso”, disse Ventura.
Foi preciso esperar sensivelmente 40 horas para que Frazão publicasse um mea culpa disfarçado de ataque no X. Escreve o deputado que foi induzido em erro porque “o clima de suspeição tornou-se insustentável”. Surgem-me duas perguntas: quem tornou a suspeição tão incomportável e como é que o deputado foi induzido? A escolha desta expressão cria a ideia de Pedro Frazão ter sido passivo nesta história. Bastava ter sido ativo na procura da verdade para, através de alguns cliques, chegar à conclusão que era tudo uma teoria da conspiração.
Pedro Frazão estava preocupado com a VitaX, mas, se passasse menos tempo no X, talvez não tivesse cometido este erro grosseiro. Qualquer computador ou telemóvel com Internet consegue, por exemplo, aceder ao Portal da Justiça. Mas Frazão e o Chega preferiram abrir o X e, sem pudor, explicar aos jornalistas que essa era a sua fonte.
Apesar de não ter tido resposta do partido, com estes factos consigo responder às minhas próprias perguntas;
- Qual a fonte de informação? Redes sociais.
- Admite a divulgação informação falsa? Sim.
- Pede desculpa a Hugo Montenegro? Não
Pedro Frazão, na sua extensa explicação, nunca pede desculpa nem a Hugo Montenegro, visado diretamente, nem aos portugueses que o ouviram alimentar uma mentira de redes sociais na noite de sábado na televisão nacional. O que aconteceu é que Frazão perdeu a credibilidade, porque, a partir de agora, tudo o que diga pode ser falso.
Ocorre-me a imagem daqueles azulejos colocados nos portões das moradias: “cuidado com o cão”. Nunca sabemos se, na verdade, lá existe um cão ou não. Pedro Frazão poderia usar um sinal semelhante, “cuidado com o Frazão”, porque nunca sabemos se o que diz é verdade ou não.