A crise política não acabou na noite deste sábado. Transformou-se, porque a partir de agora o Governo governará sempre com a sombra da instabilidade. Para os politólogos, ninguém quer mesmo uma ida às urnas. Até porque, na oposição, não houve tempo para preparar esse caminho
Aconteceu tudo em pouco mais de duas horas. Luís Montenegro acenou com uma moção de confiança, Paulo Raimundo anunciou uma moção de censura, Pedro Nuno Santos clarificou a sua votação em ambas: chumbo.
E, por isso, o jogo tornou-se claro daí em diante. Não há maioria para fazer o Governo cair pela moção de censura, mas há pelo chumbo da moção de confiança, com a junção dos votos do PS e do Chega. É pouco provável, admitem os politólogos ouvidos pela CNN Portugal, que o Governo avance com essa iniciativa, porque tal seria dar um passo para a sua própria queda.
Entretanto, o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, confirmou na RTP que a moção de confiança não é mesmo para avançar caso a moção de censura do PCP caia – o que vai acontecer.
“Na sua comunicação, dúbia, Montenegro referiu a moção de confiança, mas nunca explicou que estava na disposição de a apresentar”, alerta José Filipe Pinto.
“Uma nova crise sobre a existente”
Mas é sinal de que a crise política acabou? Nem por isso, garantem os especialistas. A crise política transformou-se, “há uma nova crise sobre a existente”, aponta Paula do Espírito Santo. Em resumo, o governo não vai governar com o à-vontade que tinha até agora, porque as suas decisões serão ainda mais escrutinadas.
“Deixámos de ter incerteza, mas também de ter estabilidade política. Foi uma cartada ‘tudo ou nada’ de Montenegro numa moção de confiança”, traça João Pacheco. Ainda assim, o politólogo destaca uma outra passagem do discurso de Montenegro: quando refere que uma crise política deverá ser “inevitável”, ou seja, quando abre a porta para que toda esta incerteza se volte a repetir aquando do Orçamento do Estado para 2026 sem a mão que o PS tem dado até agora.
Foi uma "jogada arriscada" de Montenegro, dizem os analistas. Tanto que no PS foi vista como uma espécie de chantagem. A escolha dada pelo primeiro-ministro, segundo a líder parlamentar, Alexandra Leitão, era esta: “ou estamos esclarecidos ou queremos instabilidade”.
“Montenegro percebeu que ao vitimizar-se, ao defender que por mais justificações que dê haverá sempre alguém que não está disponível para aceitá-las, estava a dizer aos partidos que se deveriam fazer ouvir. E isso era um convite a uma moção de censura”, resume José Filipe Pinto.
“Estava a chutar para canto. A responsabilidade da crise política seria de quem não viabilizasse a moção de confiança”, completa Paula do Espírito Santo.
Como Montenegro conseguiu confiança pela censura comunista
Montenegro pediu confiança, mas acabou por ser a intenção comunista de censura que lhe abriu o caminho para tal. Ora vejamos: como o PS vai chumbar esta iniciativa do PCP, mantém-se o estado de coisas atual, há um sinal de que o executivo pode continuar a governar. E isso, em si, é confiança.
O que não quer dizer que a carta da moção de confiança não venha a ser útil, mais à frente, para Montenegro. “Pode ser um suicídio político que pode ser útil. É uma carta que pode jogar quando lhe for mais útil”, aponta João Pacheco, perante a falta de maioria para aprovar um próximo orçamento. E o objetivo é o mesmo: “culpar a oposição e reforçar-se nas urnas”.
Pedro Nuno Santos já veio dizer que, ao apresentar uma moção de censura, os comunistas “morderam o isco” de Montenegro. Os politólogos concordam, vincando também a necessidade de o PCP se demarcar, de assumir um papel politicamente, perante a sua fragilidade eleitoral atual.
“Montenegro transformou a confiança em censura, para depois conseguir por essa via essa mesma confiança. É uma estratégia calculista, porque sabia que apresentar ele uma moção de confiança implicaria uma mudança de Governo”, resume José Filipe Pinto.
“Foi uma recondução simbólica”, resume Paula do Espírito Santo.
Pedro Nuno não faz cair o Governo. Porque quer o mesmo que Montenegro
Andam todos à procura de se reforçar no caso de eleições antecipadas. E isso também explica a postura do PS, que chumba tanto a censura comunista como a confiança governamental. Pedro Nuno Santos, dizem os analistas, não está ainda em condições de garantir, em caso de ida às urnas mais cedo, uma maioria que lhe permitisse governar sem grandes sobressaltos.
“As sondagens não são favoráveis, não tem vantagem se for a eleições. Percebeu que pode usar este tempo para que a credibilidade do Governo de Montenegro continue a ser beliscada. Não é por acaso que, na sua declaração, Montenegro vincou o ativo do executivo e, na sua declaração, Pedro Nuno Santos falou do passivo”, descreve José Filipe Pinto.
Embora admita que Pedro Nuno Santos possa ser penalizado por não se conseguir demarcar do Governo, permitindo-lhe estar em funções, Paula do Espírito Santo reconhece que “o tempo ainda não é o da demarcação eleitoral”.
“Com isto, o PS consegue afirmar-se como um partido de alternativa, não radical. Sai reforçado, só não sabemos é até quando”, completa João Pacheco.