Montenegro foi ao "Natal no País das Maravilhas" para dizer que tornou Portugal "mais estável" que a Alemanha

26 dez 2024, 22:00

Na sua primeira mensagem de Natal ao país, António Costa assinalou em 2015 que esse tinha sido o "ano de mudança" devido ao "virar da página da austeridade". Este ano, Luís Montenegro fala num "ano de viragem". Coincidências? Entretanto: Montenegro, líder de um Governo "preso por fios", socorreu-se da Alemanha e da França para argumentar implicitamente - ou explicitamente? - que é primeiro-ministro de fios fortes

"Tranquilidade pragmática”: é assim que o politólogo José Filipe Pinto descreve a postura de Luís Montenegro na sua primeira mensagem de Natal ao país enquanto primeiro-ministro. Uma declaração que, segundo o professor de ciência política, “valeu tanto por aquilo que disse como por aquilo que deixou implícito”. 

Entre os vários temas abordados pelo primeiro-ministro naquele que diz ter sido “um ano de viragem” - ecoando as palavras de António Costa na sua primeira mensagem de Natal como chefe do Executivo, que já em 2015 falava num “ano de mudança” -, Luís Montenegro sublinhou querer uma “imigração regulada” e prometeu combater a criminalidade - com o cuidado de não colar os temas um ao outro. 

Esse detalhe foi interpretado por muitos jornalistas e analistas como uma moderação ou suavização do discurso de Luís Montenegro em matéria de segurança e imigração, quando comparado com a declaração que fez ao país às 20:00 da noite de uma quarta-feira para dizer que "a segurança em Portugal não é um dado adquirido".

Miguel Pinheiro, comentador da CNN Portugal, não vê qualquer moderação nesta mensagem de Natal, uma vez que nunca interpretou as declarações de Luís Montenegro como “extremadas” nessa matéria. “A verdade é que no discurso dos últimos congressos do PSD, Luís Montenegro teve a mesma preocupação. Não me parece de maneira nenhuma que ele alguma vez tenha dado associado imigração e segurança e, por isso, desse ponto de vista não me parece que haja uma suavização - é a continuidade do que tem feito sempre”, argumenta o comentador.

Também José Filipe Pinto considera que o primeiro-ministro quis dar assim um sinal de “continuidade” na sua posição relativamente à imigração e segurança e não foi por acaso que o fez sem associar os temas. “É como que a explicar que o que se passou no Martim Moniz não tem que ver como a imigração, mas com operações de rotina visando a manutenção da segurança, não responsabilizando diretamente os imigrantes pelo aumento de sensação de insegurança. Ao falar da imigração regulada, deixou claro que Portugal precisa de imigrantes, mas não pode ter a porta aberta à imigração. É uma visão marcadamente realista, marcadamente pragmática”, observa o politólogo.

Para a comentadora da CNN Portugal Mafalda Anjos, o tema da imigração era “incontornável” mas Luís Montenegro “escolheu fazê-lo sublinhando a imigração regulada e não tentando fazer uma ponte ou tentando acalmar os ânimos ou apaziguar ou desfazer mitos, perceções, ideias erradas”, critica, argumentando que essa seria a postura certa, sobretudo numa altura em que “há uma divisão grande na sociedade”, particularmente desde a operação policial aparatosa no Martim Moniz.

“Foi pena, porque a noite de Natal seria a ocasião perfeita para desfazer mitos e ideias feitas, foi uma oportunidade perdida” de Luís Montenegro, argumenta a comentadora da CNN Portugal.

Tal como já é tradição nas mensagens de Natal dos primeiro-ministros, Luís Montenegro enalteceu as conquistas do seu Governo nestes últimos oito meses, que resume como “um ano de mudança”. Colocando-se no lugar do “eleitorado mais à direita”, que tem assistido a um Governo que mais não faz do que “resolver reivindicações da função pública” - das forças de segurança à educação, da saúde à justiça -, Miguel Pinheiro questiona: “Onde é que está essa mudança?”.

Este é, para o comentador, o “grande problema” de Luís Montenegro. “Até agora, as grandes medidas do Governo têm sido resolver problemas na função pública. Não conseguiu ainda apresentar mudanças, desde logo na saúde”, argumenta Miguel Pinheiro, descrevendo a atuação do Executivo nesta matéria como “uma gestão ligeiramente diferente nas urgências de obstetrícia”, sem que haja “uma visão alternativa” para a saúde.

Também na educação não se veem mudanças, acrescenta o comentador, lembrando que recentemente o primeiro-ministro anunciou que havia este ano menos 89% de alunos sem aulas que no ano passado, número que se veio a revelar falso e que o Ministério da Educação corrigiu posteriormente. 

“Há alguns sinais de mudança mas ainda não foram concretizadas as tais mudanças que se esperaria de um Governo à direita depois de oito anos de governos à esquerda”, conclui Miguel Pinheiro, sublinhando que, nesta mensagem de Natal,  Luís Montenegro posicionou-se no “centro do espectro político”, dirigindo-se tanto para o eleitorado da esquerda como da direita - e que não o fez por acaso. “O Governo está preso por fios. Agora vai ter uns meses de alívio, porque o atual Presidente e o futuro Presidente nos últimos seis meses e nos primeiros seis meses de mandato, respetivamente, não vão poder dissolver o parlamento, mas as condições políticas deste governo são muito precárias.”

Mesmo sabendo disso - ou talvez por saber isso mesmo -, Luís Montenegro apresentou-se com um discurso “otimista”, qual “Natal no País das Maravilhas”, descreve Mafalda Anjos, repetindo as palavras de Luís Montenegro sobre um país que “tem tudo para vencer e criar mais riqueza”. Sobre este ponto, o primeiro-ministro deixou outra coisa implícita no discurso, segundo José Filipe Pinto, que entende que a referência à situação política e económica de Alemanha e França “não é por acaso”. Além de serem as duas maiores economias da União Europeia, são também “dois países que neste momento enfrentam uma situação política muito difícil”. “Na Alemanha, um governo de coligação fracassou por causa da falta de solidariedade entre as partes que o compunham e em França o Presidente da República tem enfrentado muitas dificuldades face ao crescimento do populismo de esquerda e de direita, ou cultural ou identitário e socioeconómico”, aponta José Filipe Pinto.

Ao contextualizar com uma “Europa apreensiva” e sublinhando esses dois casos em particular, Luís Montenegro quer mostrar que o seu governo minoritário “conseguiu a estabilidade que outros, designadamente a Alemanha, não conseguiram garantir mesmo dispondo de mais condições”, conclui o politólogo.

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