MUNDIAL 2026

Saiba tudo aqui
Mais sobre o Mundial 2026

"É legítimo" Marcelo ter dado "ghosting" a Montenegro: "O Presidente sentiu-se ofendido" pelo primeiro-ministro

3 mar 2025, 23:37
Luís Montenegro e Marcelo Rebelo de Sousa (Lusa)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

O Presidente da República soube ao mesmo tempo que você, pessoa que lê estas palavras, do conteúdo da declaração do primeiro-ministro ao país, no sábado. Montenegro só quis falar com Marcelo depois da declaração (e não conseguiu): "O normal seria o Presidente saber antes de o primeiro-ministro falar ao país". Vai ser igual com Gouveia de Melo, Marques Mendes ou com quem ganhar as próximas presidenciais?

Luís Montenegro só ligou ao Presidente da República meia hora depois de ter falado ao país e o Presidente fez questão de dizer esta segunda-feira que isso já não é de agora, que Montenegro faz sempre isso, que guarda tudo para ele. O Presidente não gosta nada disso porque gosta muito de opinar, assume-o: “O primeiro-ministro tem direito de não ligar, mas podia ouvir a minha opinião”, disse Marcelo à SIC.

Mas há uma nuance curiosa neste acontecimento: quando o telefone de Marcelo tocou 30 minutos depois da declaração de Montenegro ao país, o Presidente não atendeu a chamada. Dúvida: Marcelo não atendeu de propósito quando viu no ecrã "Luís Montenegro", quis fazer aquilo a que as novas gerações chamam “ghosting”, quis ignorar de propósito e com isso mandar uma mensagem? Para os politólogos, foi um “sinal de desagrado”.

“Se Marcelo passou essa informação [à SIC] como passou, sem que um assessor tenha vindo desmentir, é porque não quis mesmo atender. Percebo a reação, que é legítima, para manter o equilíbrio das relações”, argumenta o politólogo Riccardo Marchi.

Foi birra, amuo do Presidente? “Acho que é mais uma questão de personalidade, de gestão de ego”, reage o politólogo Marco Lisi. Até porque não é a primeira vez que Marcelo reage assim quando sabe algo de São Bento pelas televisões. Em março de 2022, cancelou a audiência com António Costa após saber pela comunicação social quem eram os novos ministros.

“É um sinal de desagrado. O normal seria o Presidente saber do conteúdo da comunicação antes, por uma questão de cortesia institucional. Se não atendeu, uma interpretação possível é de que não gostou”, junta o politólogo José Palmeira.

(Lusa)

Se Marcelo pode não ter estado bem, Montenegro é que esteve mesmo mal, dizem os politólogos. Sobretudo por ter “dramatizado” uma crise política, agitando a estabilidade do país.

“O primeiro-ministro não tem obrigação institucional [de comunicar antes a Belém]. Agora, do ponto de vista ético, com o perigo de pôr o país numa crise política grave, teria sido o mínimo”, aponta Riccardo Marchi. Até porque Marcelo também precisaria de se "preparar para os passos seguintes, mais complicados". "Imagino que se tenha sentido ofendido."

“A maneira como foi gerida a crise não foi a melhor, sobretudo por Montenegro ter dramatizado e não ter consultado antes o Presidente. Não sei até que ponto [a reação de Marcelo] não terá sido um aviso, mais do que ter consequências práticas”, completa Marco Lisi.

Silêncio “sensato”

Marcelo habitou o país a vê-lo falar por tudo e por nada. Só que, desta vez, já clarificou que declarações ou posições de viva-voz só mesmo depois da votação da moção de censura apresentada pelo PCP.

Para os politólogos, é a postura “sensata” e que “faz sentido”. “Uma vez que o Presidente não foi tido nem achado no conteúdo da mensagem [de Montenegro], vai aguardar pelo desfecho. E isso faz sentido”, refere o politólogo José Palmeira.

“É sensato. O Presidente tem de ter em consideração qual a posição das forças políticas para depois atuar em conformidade”, remata Marco Lisi.

Marcelo ficou conhecido pela quantidade de vezes em que recorreu à “bomba atómica”. Embora o Presidente mantenha o poder de dissolução até setembro, não deverá carregar no botão da bomba atómica.

“Nem o Governo nem os partidos querem eleições. O Presidente muito menos”, diz José Palmeira. Até porque isso, muito provavelmente, avisa Marco Lisi, “iria implicar uma fragmentação ao nível do Parlamento” e tornar a governação ainda mais difícil.

Então por onde poderá passar o desfecho desta crise política? Por soluções mais criativas, como esta, apontada por Marco Lisi: uma solução de Governo com o PSD mas sem Montenegro à frente do executivo.

(Lusa)​​

Se o Governo se mantiver de pé pelo menos até ao início do próximo ano, terá uma oportunidade de construir uma nova relação com o futuro inquilino do Palácio de Belém.

Os politólogos são unânimes em garantir que seria Luís Marques Mendes, candidato apoiado pelo PSD de Montenegro, o nome mais conveniente para o Executivo. Mas descartam que o almirante Henrique Gouveia e Melo pudesse funcionar como uma força de bloqueio.

Por dois motivos: porque não há tradição de choques entre Belém e São Bento nos primeiros mandatos presidenciais e porque Gouveia e Melo quer afirmar-se ao centro.

“Não me parece que Gouveia e Melo ou mesmo um candidato da área socialista fosse causar problemas ao Governo”, aponta José Palmeira. “Politicamente, daquilo que falou, foi do seu posicionamento ao centro”, junta Riccardo Marchi.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Política

Mais Política