Questionado sobre ter mantido a festa do Pontal enquanto parte do país ardia, o primeiro-ministro assumiu na declaração ao país de quinta-feira que pode "ter contribuído para a perceção" de que o Governo não acompanhou de perto os incêndios
"Montenegro tem governado de e para as perceções e neste discurso acaba por confirmar e dizer que até pode ter contribuído para a criação das mesmas”, começa por dizer Mafalda Anjos, comentadora da CNN Portugal, em reação à declaração ao país que o primeiro-ministro fez esta quinta-feira. “Este discurso teve três partes: um mea culpa muito claro quando diz que sabe que as pessoas estão transtornadas, que há razões para isso e que nem tudo correu bem (…); um momento de desculpas, desculpas essas que Montenegro, no passado e enquanto líder da oposição, dizia que não tinham relevância ou oportunidade; e, por fim, apresentou medidas em que se focou, e bem, em propostas de curto prazo e imediatas”.
Na declaração feita ao país após um conselho de ministros extraordinário, o chefe de Governo rejeitou a necessidade de declarar o estado de calamidade, justificando que o Governo aprovou um “instrumento legislativo” capaz de agilizar os apoios à população afetada - esse instrumento legislativo contempla 45 medidas. Quando foi confrontado pelos jornalistas sobre a manutenção da Festa do Pontal enquanto parte do país ardia, Montenegro negou ter “menosprezado” a ameaça dos fogos mas admitiu que pode "ter contribuído" para “a perceção” de um Governo distante da tragédia. Uma imagem que, para Mafalda Anjos, “não se esquece”.
“É verdadeiramente difícil que esta conferência venha apagar a imagem da atuação do Governo nas últimas semanas. Há imagens que não se esquecem, como aquela em que de um lado havia um país desesperado a combater as chamas e, do outro, um conjunto de ministros e o primeiro-ministro em festa”, afirmou a comentadora na CNN Portugal.
João Marcelino, também comentador da CNN Portugal, destaca o “ato de contrição” do primeiro-ministro, ainda que com reservas. “Montenegro fez um ato de contrição. Gostaria era que tivesse levado ao extremo de dizer que não devia e que foi um erro ter estado na Festa do Pontal. Mas ficou muito limitado pela intervenção de ontem de Hugo Soares, que tentou justificar o injustificável e, portanto, o primeiro-ministro não podia ter deixado cair um dos seus homens de confiança.”
Foram no total 45 o número de medidas que o Governo apresentou esta quinta-feira para responder à crise dos incêndios que Portugal tem enfrentado nas últimas semanas, sobretudo nas zonas norte e centro. Medidas que para o comentador Pedro Tadeu correspondem a apenas “serviços mínimos”.
“A resposta das medidas a curto prazo é necessária. Mas quando Montenegro começa a fazer comparações com 2024 para amplificar a dificuldade, esquece-se é que 2024 foi o melhor ano de sempre em Portugal desde 2017 em matéria de incêndios. Não é justo nem útil. O país tem de estar preparado para muito mais e não esteve”, afirma Pedro Tadeu, sublinhado ainda que “a sensação” que tem da declaração de Luís Montenegro “é que respondeu com os serviços mínimos”.
Quanto ao novo diploma legislativo para agilizar os apoios, o comentador da CNN Portugal mostra-se cético. “Não percebo a necessidade desta lei. O plano a longo prazo de 25 anos parece-me algo de pura propaganda política. Daqui a 25 anos ninguém se lembra do que foi negociado agora.”
Já João Marcelino acredita que as medidas apresentadas “são boas”, mas lembra que é preciso ter cautela. “São boas, mas vamos ver a reação de todas as entidades e o apuramento final dos prejuízos. O primeiro-ministro foi mais humilde do que o vimos ser nos últimos tempos e tentou mostrar preocupação. A vida faz-se disto: momentos bons e maus. Se só os maus contassem, António Costa não teria sobrevivido à morte de 116 portugueses em 2017.”
