Numa declaração para defender a transparência mas em que não permitiu perguntas dos jornalistas, o primeiro-ministro diz que não cometeu "nenhum crime" nem teve "nenhuma falha ética". Vai pedir escusa em algumas decisões governativas. Afirma que a "situação política tem de ser clarificada" e admite pedir uma "moção de confiança" no Parlamento - que o próprio Governo disse depois que já não vai existir devido a uma moção de censura que o PCP anunciou e que o PS diz que vai chumbar. Entretanto: a empresa da família Montenegro vai passar a ter menos gente da família
Apareceu rodeado de todo o seu Governo, apresentou-se como vítima "de especulação, de insinuação mesmo": Luís Montenegro diz-se inocente de qualquer acusação, de qualquer suspeita, de qualquer dúvida, mas ainda assim vai passar a empresa familiar para a posse e gestão dos seus filhos, apenas dos seus filhos - Montenegro e a mulher, casados em comunhão de bens, afastam-se definitivamente da atividade da Spinumviva. Por outro lado, e depois de se saber que a empresa recebeu uma avença de 4.500€ mensais da Solverde, anunciou escusas: "Sempre que houver conflito de interesses, não participarei nos processos decisórios". E a regra é para aplicar a “todos” os membros do Governo.
Repleta de críticas à oposição, a intervenção de Montenegro serviu para antever uma crise política “inevitável” – palavra do próprio. Que sublinhou a sua idoneidade: “Não pratiquei nenhum crime nem tive nenhuma falha ética”, insistiu o primeiro-ministro, depois de lembrar que foi “tudo” declarado por ele. “Ninguém descobriu nada, está tudo nas minhas declarações de interesses.”
Em termos políticos, Montenegro coloca agora o ónus no Parlamento para que haja uma “clarificação” sobre se o Governo tem condições para continuar a executar o seu programa. E foi aí que admitiu pedir uma moção de confiança.
“Em termos políticos e governativos, insto daqui os partidos políticos, representados na Assembleia da República, a declarar sem tibiezas se consideram, depois de tudo o que já foi dito e conhecido, que o Governo dispõe de condições para continuar a executar o programa do Governo, como resultou há uma semana da votação da moção de censura”. E continuou: "Sem essa resposta, a clarificação política exigirá a confirmação dessas condições no parlamento, o que, por iniciativa do Governo, só pode acontecer com a apresentação de uma moção de confiança".
O PCP antecipou-se entretanto: anunciou uma moção de censura, o Chega diz que vota a favor. O PS reagiu mais tarde: vota contra nessa moção de censura (o que salva o Governo) mas também contra em caso de haver moção de confiança (e se Chega e PS votarem contra essa moção, algo que ambos os partidos já confirmaram, o Governo cai). Mas: a partir do momento em que a moção do PCP é chumbada, o Governo disse entretanto, por via do ministro das Finanças, que já não vai apresentar uma moção de confiança.
"O Partido Comunista Português acabou de anunciar que apresentará uma moção de censura. Aparentemente, será rejeitada porque o secretário-geral do Partido Socialista acabou de dizer que votará contra. Portanto o Parlamento volta, 15 dias depois, a reafirmar que o Governo tem as condições necessárias para governar”, disse Joaquim Miranda Sarmento na RTP. "Nesse sentido, não há uma justificação para uma moção de confiança."
Posto tudo isto, Pedro Nuno Santos diz que o PCP salvou o Governo: "Morderam o isco", afirma o líder do PS sobre os comunistas.
Voltando à declaração ao país de Montenegro. “Nunca cedi a nenhum interesse particular face ao interesse publico e ao interesse geral. E assim vai continuar a ser”, começou por dizer. "Estou em exclusividade total", repetiu. E foi nesse contexto que anunciou o pedido de escusa, sem precisar no entanto em que setores é que o fará. “Sempre que houver qualquer conflito de interesses, por razões pessoais ou profissionais, não participarei nos respetivos processos decisórios”, foi o que disse a esse propósito.
Montenegro deixou claro que a Spinumviva passará em exclusivo para as mãos dos filhos. “Totalmente detida e gerida” pelos descentes, que Montenegro diz não querer “privar” do trabalho que desenvolveram no projeto familiar. Assim, a mulher deixa de estar envolvida nesta empresa - que, recorde-se, recebe uma avença de 4.500 euros da Solverde - detentora de casinos e que Montenegro chegou a representar em negociações com o anterior Governo.
Também a sede da Spinumviva, na casa do casal, em Espinho, será mudada. “Seria justo fechar tudo, abandonar tudo, só porque circunstancialmente fui eleito presidente do PSD e agora exerço as funções de primeiro-ministro? Deviam os meus filhos ficarem inibidos de dar seguimento ao que criaram comigo só porque me encontro nesta situação?”, questionou.
Montenegro teceu fortes elogios à qualidade do trabalho desenvolvido pela empresa da sua família, que evita “coimas de milhões de euros” aos seus clientes no que respeita à proteção de dados.
Numa declaração a defender a transparência mas sem direito a perguntas dos jornalistas, Montenegro fez-se acompanhar dos seus ministros. E aproveitou para lembrar o trabalho feito em várias áreas, dos impostos às pensões, passando também pela habitação. “Temos um país em movimento”, disse.
“Colocar este país em movimento, este Portugal que está forte e que se recomenda, numa crise política é difícil de perceber. A crise política deve ser evitada, mas também é preciso dizer que ela poderá ser inevitável”, referiu.
E focou-se no ataque à postura da oposição, a quem exigiu “responsabilidade”, depois de os partidos terem lançado “especulações para que o assunto nunca se encerrasse”, alimentando um “círculo vicioso”.
Houve ataque direto ao PS: “Não resistiu em alimentar a desconfiança e a especulação, a insinuação mesmo”. "A situação política tem de ser clarificada sem manobras táticas e palacianas."