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Mas qual é a dúvida, Luís Montenegro?

19 jan, 12:20
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Se entre um porto seguro e uma tempestade ciclónica, Luís Montenegro tem dificuldade em escolher, é porque não é grande timoneiro

"Política sem risco é uma chatice, mas sem ética é uma vergonha." Alguém ofereça a Luís Montenegro, que nesta campanha se apresentou como herdeiro legítimo de Sá Carneiro, um quadro com a famosa tirada do fundador do PSD e o pendure na parede mesmo à frente da sua secretária. Já agora, alguém o leve também a fazer uma visita guiada rápida pela exposição que a Ephemera organizou com o espólio do Sá Carneiro, que termina agora no dia 31 de janeiro. Bastariam 15 minutos para perceber como este homem estaria hoje absolutamente desiludido com o que Montenegro tem feito, e voltou a fazer ontem, à direita moderada portuguesa, ao não tomar posição entre o radicalismo antidemocrático e a moderação na segunda volta das eleições.  

Nunca como agora fez tanta falta voltar às bases e recordar os ideias fundadores e os princípios identitários do PSD. Um partido que nasceu inspirado no liberalismo clássico (nada a ver com o neoliberalismo da IL), na social-democracia nórdica de centro-esquerda, numa visão progressista para a sociedade, na doutrina social da Igreja. Um partido, hoje, irreconhecível, porque se deixou contaminar e resvalar – na agenda política, no tom e nas causas – para o extremismo do Chega.

Ontem, tanto Luís Montenegro como o candidato presidencial por ele apoiado, Luís Marques Mendes (e Cotrim de Figueiredo, que mostrou não ter mesmo cabeça), não foram capazes de tomar posição numa dicotomia de aritmética simples, que coloca de um lado a defesa dos valores democráticos, a salvaguarda de direitos fundamentais, a coerência, a decência básica e, do outro, a vontade de instaurar uma quarta república, o discurso de ódio, a defesa de ideias fascistas, o oportunismo, a amoralidade e a indecência.

É caso para perguntar, mas qual é a dúvida, Luís Montenegro? Pior do que não ter ideias, é não ter princípios nem valores.

Montenegro é um hábil taticista. Está dotado de notável resistência, frieza e teimosia, e muita capacidade de engolir facas e por gelo nos pulsos. Foi assim que chegou à liderança do PSD, foi assim que conseguiu ser Primeiro-Ministro, foi assim que conseguiu ser reeleito e manter-se com um governo sem maioria de suporte parlamentar, apesar das polémicas que envolveram a sua empresa familiar.    

Mas esta estratégia de neutralidade medrosa e imprudente em relação ao Chega é um desastre por várias razões. Aponto cinco:

  1. Luís Montenegro lembra-me um homem que sabe que vai ter de entrar desarmado numa jaula para lutar com um leão, mas passa meses a fazer tudo para o fortalecer e vitaminar bem. O foco de Ventura é sentar-se em São Bento, o seu plano de poder passa pela liderança da direita em Portugal e pelo Governo. A quem lhe der a mão pelo caminho, ele vai comer o braço mais à frente se preciso for.
     
  2. A experiência mostra que os partidos da direita moderada que adotaram um discurso mais radical para tentar combater uma extrema-direita que engrossa ao seu lado não foram bem-sucedidos. Apenas se travestiram e descaracterizaram perante o eleitorado, normalizaram propostas radicais e ajudaram a escancarar a janela de Overton (o conjunto de ideias admissíveis no discurso político numa determinada sociedade). Sem sucesso, a extrema-direita continuou a crescer.
     
  3. Empurrar o PSD demasiado para a direita desguarnece o centro. Um centro moderado que, nestas eleições, o verdadeiramente apartidário Gouveia e Melo protagonizou e recolheu quase 700 mil votos. Se o PSD não está lá, alguém mais tarde ou mais cedo vai pegar. A política tem horror ao vazio é uma máxima que nunca perde a pertinência.
     
  4. Luís Montenegro sabe que o moderado Seguro – um dos melhores representantes daquela esquerda que a direita gosta – não será uma força de bloqueio. À parte de Marques Mendes, é, entre todos os candidatos presidenciais na corrida, o melhor que um governo laranja pode à partida desejar. Foi colaborante durante a Troika e brando na oposição, e o que tem de mediano e enfadonho tem de bom senso e espírito conciliador. Se entre um porto seguro e uma tempestade ciclónica, Luís Montenegro tem dificuldade em escolher, é porque não é grande timoneiro.
     
  5. Nas últimas eleições presidenciais nos EUA, Hugo Soares deu voz a uma indecisão idêntica que percorreu muitas cabeças sociais-democratas: entre Kamala Harris e Trump tinha muita dificuldade em escolher. Dizer isto é mostrar uma aflitiva falta de compromisso com a democracia e o estado de direito. O resultado, como seria de esperar, está agora à vista. Trump destroçou as instituições democráticas internas, instaurou um clima de terror com uma polícia federal que mais parece uma milícia, atentou contra a liberdade de expressão, e está a rebentar com a ordem política mundial que vigora há 80 anos, voltando a instaurar o imperialismo e a lei da força. Portugal sofrerá por tabela: além de levar com os efeitos do desmembrar da NATO e das tarifas, um dia destes pode acordar e estar sem a Ilha Terceira. Mas, enfim, era muito difícil escolher…  

Sá Carneiro não teria dúvidas. Porque as tem agora Luís Montenegro?

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