Sem apoiar Seguro, Montenegro abriu nova batalha com Ventura: querem mostrar quem é o verdadeiro "porta-voz da direita"

19 jan, 09:30
Luís Montenegro (João Relvas/Lusa)

Com uma segunda volta entre Seguro e Ventura, o eleitorado da "direita moderada" ficou "órfão". E o PSD não ajudou a orientá-lo, quando Marques Mendes e Montenegro rejeitaram um apoio claro. Levar Seguro a Belém tornaria “mais fácil” a vida do primeiro-ministro. Mas valeria o preço de dar a Ventura a "bandeja da liderança da direita"?

 A expectativa era de que, com os aspetos que os aproximam ao centro, Luís Marques Mendes viesse manifestar o apoio a António José Seguro. Mas mesmo tendo a sua “opinião pessoal” – que os politólogos ouvidos pela CNN Portugal encaminham para o lado do socialista -, o antigo comentador televisivo fugiu a uma posição clara: não apoia ninguém porque não é “dono dos votos” que lhe “foram depositados”.

Viria depois outro Luís, de seu apelido Montenegro, reforçar a postura o candidato que apoiava. “A conclusão que o PSD tira é que o seu espaço político não estará representado nesta segunda volta”. “Não emitiremos nenhuma indicação, nem é suposto fazê-lo”, juntou.

Duas declarações que abrem margem para o debate, quando Ventura procura usar o resultado deste domingo para alimentar a sua imagem de líder da direita, espetro político que se propõe “agregar” daqui em diante.

Não apoiar ninguém é um risco para Montenegro? Ou poderá o presidente do PSD retirar benefícios desta situação?

Analistas antecipavam que Marques Mendes assumisse apoio a Seguro, para vincar contraste com projeto de André Ventura (Miguel A. Lopes/Lusa)

“Ventura ganhou o que queria: embaraço ao PSD”

“Montenegro estava perante uma escolha impossível. Ou apoiava o candidato que reúne os apoios da esquerda ou dava a André Ventura a bandeja da liderança da direita. Ficou a meio da ponte. Não é uma opção sem riscos: o eleitorado da AD já se dividiu e vai dividir-se ainda mais. E Ventura passará a segunda volta a afirmar-se como o líder da direita, a lembrar que Montenegro, com o seu silêncio, pode dar a vitória a um socialista”, reage Margarida Davim, comentadora de política da CNN Portugal.

“Seguro parte favorito para a segunda volta, mas Ventura já ganhou o que queria: causou embaraço ao PSD e ganha espaço na direita”, junta Rui Calafate, também comentador da CNN Portugal.

Para o politólogo João Pacheco, foi uma escolha “perigosa”, porque, “apaga a linha vermelha que separa o PSD do Chega, em vez de agarrar a oportunidade de a sublinhar”.

“Além de revelar uma partidarite aguda, pode ser uma via verde para a afirmação da radicalização da direita. Este silêncio tático em relação à segunda volta permite que Ventura fale por Montenegro e que o Chega fale mais alto do que o PSD”, reforça o analista.

Nesta segunda volta, Ventura procurará afirmar-se como “uma espécie de porta-voz da direita, oficializado por um deferimento tácito de Luís Montenegro. O eleitorado da direita moderada está órfão e isso não favorece, em nada, nem o PSD nem o Governo”, conclui.

Ventura desafia-se a "agregar a direita" (Tiago Petinga/Lusa)

Um 'trunfo' em Belém

Até porque a moderação associada a António José Seguro poderia ser um trunfo para Montenegro em Belém, lembra Margarida Davim. “Seguro é um socialista muito à direita, um homem de pontes, que não seria força de bloqueio. Não faria a vida de Montenegro tão difícil como Ventura. Mesmo sabendo isto, Montenegro optou por não escolher. Temeu que uma parte do seu eleitorado não entendesse o apoio a Seguro”.

“Montenegro deixou a direita moderada em desânimo. Quer fragilizar mais o PS do que o Chega”, remata João Pacheco.

Ventura, pelo menos, já está a aproveitar a postura de Montenegro para o ataque: lembrou que só perderá a segunda volta “por egoísmo do PSD, da Iniciativa Liberal ou de outros partidos que se dizem de direita”.

Também Cotrim de Figueiredo, que teve uma campanha focada na vontade de evitar a chegada de um socialista a Belém, aproveitou para o ataque a Montenegro, mesmo assumindo a mesma posição do primeiro-ministro: liberdade de voto.

Montenegro, disse, cometeu “um erro estratégico” porque não pôs o interesse do país à frente do interesse do seu próprio partido”.

“Embora hoje exista em Portugal uma maioria social de centro-direita, é provável que venhamos a ter um Presidente da República oriundo do PS e, tal, ficará a dever-se exclusivamente a um erro estratégico da liderança do PSD”, afirmou o liberal.

Seguro ficou em primeiro lugar na primeira volta. Sondagens e analistas apontam-no como o favorito para a segunda volta frente a Ventura (José Coelho/Lusa)

 

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