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Diretor executivo CNN Portugal

Porque é que Montenegro faz bem em não apoiar Seguro conta Ventura

19 jan, 07:30

Os resultados eleitorais da primeira volta das presidenciais são um desastre para Montenegro. A segunda volta vai provavelmente ser ainda pior. Ele sabe-o – e há uma razão para não dar o apoio direto do PSD a Seguro, endossando esse apoio indiretamente através de dirigentes

Luís Montenegro não é um dogmático, é um pragmático. Faz o que julga ser melhor em função das circunstâncias, já trocou o “não é não” pelo “temos de negociar” e mudará de outras camisas para manter as mesmas gravatas. Dizer, pois, que este domingo à noite não apoiou António José Seguro contra André Ventura para ser uma Suíça neutra num duelo entre duas frentes nem sequer o ofende.

Sim, Montenegro está a pensar mais no seu governo do que na Presidência. Não quer hostilizar nenhuma das partes com que tem de continuar a negociar no Parlamento, PS e Chega. Quer manter-se conciliável com os dois partidos incompatíveis.  

Mas não é só isso, há outra razão.

Claro que é uma jogada de risco, porque dirão que a sua coluna vertebral é de plasticina, e sobretudo porque mais votos naturais do PSD poderão virar à direita para Ventura. Mas o risco é apenas relativo, porque o grande mal para o PSD e para o governo AD já está feito.

Escrevi-o aqui antes da noite eleitoral, frisando que mesmo que não seja Presidente, Ventura já é residente da República. Depois do resultado da primeira volta, à frente de Marques Mendes e de Cotrim, e sobretudo se na segunda volta conseguir superar os cerca de dois milhões de votos que Montenegro teve nas legislativas (o que é bem possível), Ventura poderá mudar não apenas de discurso como arremessar um novo poder.

Nesse caso, Ventura dirá que, depois de passar o PS em 2025, passou o candidato do PSD em 2026; que depois de se transformar no líder da oposição em 2025, é o líder da direita em 2026. E irá usar essa legitimidade eleitoral para crescer para cima da AD, infernizando a vida ao governo e desvinculando-se de qualquer pressão para viabilizar propostas do Executivo que lhe desagradem – ao Chega ou aos seus eleitores potenciais.

Esse é o mal que já está feito. Mesmo se Ventura perder à segunda volta.

Mas se Montenegro apoiasse Seguro, Ventura diria ainda outra coisa: que só quando todos os partidos do sistema se unem é que ele perde; que tinha sido assim nas presidenciais e assim teria de ser nas legislativas; e que AD e PS, que andam a aprovar orçamentos juntos, são o “lado de lá” de Ventura, o “sistema” contra ele. É assim que acontece há anos em França.

O resultado das presidenciais trouxe Montenegro à terra, contrariando o seu excesso de otimismo e de confiança dos últimos meses. O grande resultado de Ventura somado ao grande resultado de Cotrim são um duche gelado de realidade, tanto que o discurso final de Cotrim – de que os seus 900 mil votos são o princípio de qualquer coisa – são uma ameaça a “esta” Iniciativa Liberal e a “este” PSD. Montenegro tem de perceber como é que mesmo baixando impostos, dando borlas no crédito à habitação e prometendo reformas, não mobiliza esta população jovem.

António José Seguro fica por sua conta, coisa que não o espantará.

Quanto a André Ventura, Montenegro já está em fase de controlo de danos. Na sua pior noite, o presidente do PSD tomou a sua melhor decisão: não apoiou Seguro , assim evitando no futuro que Ventura o acantone com o PS como “bloco central” do sistema que tem de unir-se para o vencer.

Já não há boas soluções: ao contrário da frase do candidato Tiririca, pior que está ainda fica. E Montenegro não é partidário da resistência, mas da sobrevivência. Quando se põe a olhar, vê-se ameaçado por vários lados, dois à direita e um à esquerda. E quando se põe a escutar, ouve um som familiar, minimal, repetitivo, um tiquetaque, tiquetaque, tiquetaque…

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