Temos Papa e porco no espeto mas comboios não há: a campanha de Luís Montenegro em Santarém

9 mai 2025, 00:29
Luís Montenegro em Fátima (Lusa/ Miguel A. Lopes)

Ao quinto dia de campanha, Luís Montenegro foi aos arquivos e encontrou declarações de Pedro Nuno Santos em 2019 a criticar as greves em períodos eleitorais

Bruno chegou ao Largo de Marvila, em Santarém, à uma da tarde. Era preciso montar os assadores, atear o carvão, pôr os três porcos no espeto. Depois das duas, a carne começou a rodar. “Isto vai assando devagarinho e nós vamos cortando as fatias da carne”, explica Bruno, que é um dos assadores do restaurante Sabores da Terra, de Alcanede, responsável pelo porco no espeto servido esta quinta-feira no comício da AD.

Foi assim a tarde toda. Cinco assadores a tomarem conta da carne, molhando-a com “um molho especial” e cortando-a às fatias, e cinco pessoas a fazer sandes. Quando, por volta das 19:30, Luís Montenegro surge no largo, vindo da rua Serpa Pinto, acompanhado do habitual grupo de apoiantes munidos de bandeiras e aos gritos de “deixem o Luís trabalhar”, já resta pouco porco no espeto, mas há mais de mil sandes embrulhadas em guardanapos, prontas a servir - à borla - assim que os discursos terminarem.

Os assadores do Sabores da Terra fizeram porco no espeto no comício da AD em Santarém foto CNN Portugal

Estava anunciando um comício “em ambiente de festa ribatejana”. E, por isso, além do porco no espeto, cujo cheiro se espalha pelo largo, há barraquinhas de cerveja, mesas e bancos de madeira e homens vestidos de campinos, claro. São os elementos do Rancho Folclórico de Alcanhões, um grupo que já existe há mais de 40 anos e que costuma atuar nas festas da região - “e não só”, garante o responsável, João Costa. O grupo tem 45 elementos mas hoje só vieram 9, cinco músicos e quatro dançarinos. O mais velho é o Zé Manel, que tem 74 anos; a mais nova é a Diana, que tem apenas sete anos e que começou a dançar ainda dentro da barriga da mãe - e quem o diz é a própria mãe, Vera. Vieram aqui dançar o fandango, obviamente, e tocar a “Marcha Ribatejana” para Luís Montenegro. “Hoje só tocamos estas porque não queremos chatear as pessoas que estão aqui é para comer o porco.” 

Mas, antes disso, os discursos, até porque se alguns vieram pelo porco outros vieram mesmo em campanha. E desta vez são  três discursos: primeiro, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, que é o cabeça de lista por Santarém e que aproveita para se mostrar “disponível para continuar” no Governo; a seguir o presidente do CDS-PP, Nuno Melo; e só depois o líder da Aliança, Luís Montenegro.

Em 2019 Pedro Nuno Santos também criticou as greves, recorda Montenegro: “Há aqui uma grande dose de incoerência”

Num discurso em que repete muitas das ideias que vem apresentando nos últimos dias, Luís Montenegro sublinha o sucesso que o “Passe Verde Ferroviário” teve nesta região, tendo levado a um aumento significativo no uso do comboio e obrigado a autarquia a responder, por exemplo, criando novos parques de estacionamento gratuitos. O plano de mobilidade da cidade prevê ainda a construção de um funicular ligado à estação ferroviária.

Montenegro aproveita, então, para voltar ao tema da greve da CP, que tinha abordado de manhã, contando que foi alvo de “um corrupio de comentários” por ter admitido alterações à lei para equilibrar o direito à greve com outros. “Eu até pensava que isto era relativamente consensual e que aqueles que comentaram a minha observação se lembravam do que diziam. Eu já dizia isto quando estava na oposição, foi talvez ingenuidade minha pensar que outros fariam o mesmo”, diz, recordando duas declarações de 2019 de Pedro Nuno Santos – sem nunca dizer o seu nome mas o seu cargo à data, de ministro das Infraestruturas -, em que o socialista se referiu à necessidade de “refletir sobre a lei da greve e sobre a organização sindical” e criticou a realização de greves durantes os períodos eleitorais. 

“Há aqui uma grande dose de incoerência. Eu não sei como é que se pode governar um país com dúvidas, com hesitações, com ziguezagues tão declarados”, acusa Montenegro, que volta a considerar a greve da CP que acontece esta semana “absolutamente injusta”, argumentando que o processo de negociações do Governo com os sindicatos permitiam tê-la evitado. “Havendo a greve, não tenho dúvidas de que ela tem altíssima influência de interesses políticos e partidários”, diz, questionando “se é justo e adequado” que centenas de pessoas possam “de forma fácil e direta colocar em causa os direitos de milhões de pessoas”, referindo-se aos que deixaram de ir trabalhar, estudar ou perderam consultas médicas.

Luís Montenegro no comício em Santarém foto Lusa/ Miguel A. Lopes

 "Ei lá, viemos a Fátima e há fumo branco"

Antes de Santarém, o líder da AD esteve em Fátima, onde visitou as instalações dos Bombeiros. Está na rua, depois de tirar selfies com os miúdos de uma escola e de entrar em algumas lojas e cafés a distribuir cumprimentos, quando, pouco depois das 17:00, começa a sair fumo branco da chaminé da Basílica de São Pedro, no Vaticano, anunciando a eleição no novo Papa. “Ei lá, viemos a Fátima e há fumo branco", exclama Montenegro quando lhe contam a novidade. “Parece de propósito mas é premonitório. Honestamente, não me tinha passado pela cabeça, mas é uma coincidência muito feliz”, comenta. “Esta coincidência, enfim... Dirá qualquer coisa, não sei o que é. Mas a fé também tem este lado misterioso.” Luís Montenegro diz que é um homem de fé, mas hoje não visita o santuário: “Não estamos aqui para isso”. 

Os sinos do santuário tocam celebrando o novo Papa, mas na bolha da campanha, sempre tão barulhenta, quase não se ouvem. Teresa assoma à porta da sua loja de santinhas e outras recordações de Fátima: “Já há Papa, quem é?” E logo a seguir: “Gostava que fosse o português ou então o italiano. Seja qual for, vai ter de trabalhar muito para conquistar as pessoas, porque depois do Francisco…” Deixa a frase a meio. Há mais de 30 anos que tem esta loja e diz que nunca viu “uma loucura tão grande” como quando Francisco morreu. “As pessoas também gostavam muito do João Paulo II, é verdade, mas gostavam mais do Francisco. Agora vendemos tudo o que tínhamos dele, os terços, as medalhinhas com a sua cara, os crucifixos iguais aos que ele usava no peito.”

Há mais de 30 anos que Teresa vende medalhas, santinhas e terços em Fátima foto CNN Portugal

Estar em Fátima quando o novo Papa é anunciado pode ser um sinal de que as eleições de dia 18 vão correr bem a Montenegro. Mas que o Papa se vá chamar Leão “é um sinal de que o Sporting vai ser campeão” já este sábado, graceja-se entre a comitiva. Cada um acredita no que mais lhe convém.

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