A campanha da AD passou pelo Porto e encheu a praça D. João I para mais um comício. Antes disso, desceu a rua pedonal de Santa Catarina por onde, poucos minutos antes, tinha passado a arruada do PS
Quando os sociais-democratas começam a descer a rua de Santa Catarina com Luís Montenegro ainda há apoiantes socialistas a subir a rua, depois do discurso de Pedro Nuno Santos. Balões brancos de uns cruzam-se com balões vermelhos de outros. Encostadas à esplanada do restaurante Tropical, três militantes socialistas levantam as suas bandeiras e fazem um ar sério. “Estamos aqui, não nos vamos desviar por causa deles”, lança uma delas. É mais uma quinta-feira pré-eleitoral no Porto e, como sempre, os dois principais partidos estão na zona comercial do centro da cidade, cada um deles a tentar mostrar a sua força, a querer fazer mais barulho e ocupar mais metros quadrados do que o outro.
Durante a tarde, o movimento na rua de Santa Catarina é grande, as esplanadas estão cheias, há turistas a fotografar a Capela das Almas, enquanto lá dentro se reza o terço. Um grupo de raparigas da Tuna Feminina do Porto canta a “Canção do Engate”. Em breve, vai terminar esta paz. Os socialistas arrancam da Praça da Batalha pouco depois das 17:00. Os seus gritos ouvem-se a escassos 400 metros dali, na Praça dos Poveiros, onde a essa hora começam a juntar-se os apoiantes da AD. Um deles é Gil Cruz, de 68 anos, que tem um autocolante ao peito, uma bandeira na mão e um balão atado à mochila. “Nunca fui militante nem nunca serei”, faz questão de dizer, mas acredita em Luís Montenegro. “Eu vivi o 25 de Abril e fui muito ativista, mas sempre no centro-direita”, sublinha. “Há determinados partidos que me queimam as mãos”, graceja. Andou um tempo afastado da política, mas recentemente voltou a entusiasmar-se. “Acho que nunca estive tão aferroado como desta vez. Vivemos tempos complicados. Não podemos deixar que os outros decidam por nós. É por isso que estou aqui hoje.”
O cortejo arranca já depois das 18:00 e vai apanhar o candidato a meio do caminho. Os tambores a ribombar. As bandeiras ao alto. A música aos berros. A multidão a avançar determinada pela rua, surpreendendo os turistas e enervando os socialistas que estão a voltar da sua arruada. A segurança é reforçada e são poucos os cidadãos que se conseguem aproximar do primeiro-ministro para lhe dar um beijinho.
A meio da Santa Catarina, seis homens empunham cartazes: “Não atiramos a tolha ao chão”, lê-se na camisola de um deles. São lesados do Novo Banco e esperam chamar a atenção de Luís Montenegro: “Estamos há 11 anos à espera que isto se resolva”, queixa-se Rui Alves, vice-presidente da Associação de Lesados do Papel Comercial - uma associação que representa 2.100 pessoas que ficaram lesadas em 433 milhões e 800 mil euros. Desde 2017, já teve 53 reuniões com diferentes responsáveis políticos, incluindo com o atual primeiro-ministro. No telemóvel, guarda as fotografias que tirou com todos eles, todos a sorrir. Mas das promessas feitas à resolução do imbróglio vai uma grande distância. “Isto que nos fizeram é imperdoável.” Montenegro não chega a vê-los.
Meia hora demora esta arruada até invadir a praça D. João I, onde está montado um pequeno anfiteatro para receber o comício. A praça enche-se rapidamente. “Que lindo, Porto, que lindo!”, grita, exultante o speaker de serviço, perante a praça lotada. “Não é sorte, é o Montenegro que trabalha forte.” Depois de um breve discurso de Pedro Duarte, candidato do PSD à Câmara do Porto, e de Paulo Rangel, candidato da AD neste distrito, Luís Montenegro dirige-se aos apoiantes: “Estou absolutamente grato a tantos milhares de pessoas que estão a vir ter connosco na rua e que são uma pequena parte daqueles que estarão connosco no domingo”, diz. "Todos os dias da campanha foram de grande entusiasmo e de grande alegria."
Demonstrando algum cansaço, inevitável na reta final desta campanha, Montenegro recupera as ideias que tem repetido nos últimos dias - com ênfase para a diminuição dos impostos e as medidas tomadas na segurança e na regulação da imigração. E, no apelo ao voto, tenta mostrar-se sereno, de forma a distanciar-se dos seus opositores. “Creio que os portugueses e as portuguesas, tranquilamente, com a serenidade de um povo que foi sempre muito inteligente e muito profundo na sua avaliação, vão dar as condições de que precisamos para dar as respostas em todas as áreas que as pessoas precisam”, antecipa."Tenho a certeza que, na segunda-feira, teremos um país com todas as condições de governabilidade."
O comício termina pouco depois das 20:00, com toda a gente a entoar o hino nacional, como habitualmente. "Valeu Porto, obrigado por este mar de gente", agradece o speaker. Falta apenas um dia de campanha eleitoral e a AD vai passá-lo em Lisboa, terminando com um comício no Campo Pequeno.
Montenegro admite que se inspirou em Sá Carneiro
A manhã tinha começado tranquilamente com uma visita de Montenegro à Câmara Municipal do Porto, para ver a exposição “Francisco Sá Carneiro e a construção democrática portuguesa”. Recebido pelo presidente da autarquia, Rui Moreira, e acompanhado pelos ministros Paulo Rangel, Pedro Duarte e Nuno Melo, Luís Montenegro disse que Sá Carneiro foi a sua fonte de inspiração desde que muito jovem se começou a interessar pela política e fez mesmo alguns paralelismos entre os principais combates políticos que Sá Carneiro travou e aqueles que agora enfrenta, a começar pelas eleições intercalares de dezembro de 1979, que a AD venceu, e das quais partiu dez meses depois para o objetivo renovado de governar quatro anos com maioria absoluta: “Sá Carneiro, que já tinha tido maioria em 1979, fez a campanha em 1980, precisamente com o objetivo de ter uma maioria maior” - expressão que ele decidiu recuperar nesta campanha.
Luís Montenegro considerou que o PPD de Sá Carneiro tinha “uma janela ideológica relativamente limitada, um bocadinho comprimida entre o socialismo de um lado e a democracia cristã do outro”. “Mas acabou por se erguer como um grande partido, o partido que nós dizemos muitas vezes que é o partido mais popular de Portugal e em muitos momentos históricos, como é o caso agora, o maior partido popular”, explicou.
O presidente do PSD aproveitou para voltar a dizer que, também hoje, o partido não é socialista nem liberal. “Não somos socialistas, não somos liberais - exatamente aquilo que está ali nos textos da época da fundação. Não acreditamos que o Estado resolva tudo, mas também não acreditamos que o mercado resolva tudo por si”, acentuou.