Montenegro defende a história do partido, até a mais "incompreendida", quando os pensionistas se zangaram com Passos

6 mai, 15:46
Luís Montenegro em Sintra (Lusa/Miguel A. Lopes)

No centro de Sintra, o candidato da AD cumpriu a única arruada prevista para esta terça-feira, dia em que o PSD cumpre 51 anos. E continuou aquilo a que já chamou a "reconciliação com os pensionistas"

Ana Vicente veio a correr num instantinho com o filho Francisco ao colo, só para ver o primeiro-ministro. Estavam no local certo do largo Afonso de Albuquerque, pouco depois das 11:00 da manhã, e foram os primeiros a ser cumprimentados assim que Luís Montenegro saiu do carro. O Francisco a brincar com a bandeira, Ana a estender a mão, com um sorriso de orelha a orelha. "Já votei nele da outra vez e vou votar agora outra vez", diz, explicando que é empresária com dois cafés e um restaurante no centro de Sintra e que vota na AD porque é preciso "apoiar os empresários, que têm uma carga fiscal muito elevada" e também "termos menos imigrantes" pois "estão a tirar muita qualidade de vida aos portugueses". "Estamos a sustentar gente que não devíamos", conclui.

Ana Vicente acredita que Luís Montenegro vai apoiar os empresários (Foto: CNN Portugal)

Já Maria Alice Ribeiro não teve de se mexer, foi o candidato que foi ter com ela, à porta da Casa das Lãs. É o que dá ter uma loja num local tão central, no início da zona pedonal da avenida Heliodoro Salgado. "Sou 100% AD. Não gosto dos socialistas nem com molho de tomate. Lá em casa somos todos militantes do PSD", diz a lojista de 82 anos que há 43 tomou conta do negócio da família.

Nas prateleiras, ao lado dos novelos de lãs de todas as cores, Maria Alice tem uma moldura com uma foto sua com Marco Almeida, o candidato à Câmara de Sintra – e que, nas últimas eleições, entrou em confronto com o então presidente do PSD, Rui Rio, por não ter sido o escolhido para encabeçar a lista do partido às autárquicas de 2021. "Tenho porta aberta, trato todos os clientes bem. Mas não tenho vergonha do que sou. Se vier aqui algum político que não me interessa vender alguma coisa, convido-o logo a sair", garante.

Maria Alice tem uma foto com o candidato do PSD à Câmara de Sintra (Foto: CNN Portugal)

A "reconciliação com os pensionistas"

O Grupo de Bombos de Mercês-Sintra vai à frente, fazendo barulho suficiente para trazer todos às janelas. Luís Montenegro percorre a rua, rodeado de apoiantes e militantes, contornando os placards da exposição com caricaturas de Mário Soares, mas tentando, apesar de tudo, contactar com alguns dos transeuntes, entrando em lojas - sai de uma mercearia com uma laranja na mão, posando para os fotógrafos -, dirigindo-se aos vendedores de rua ou interpelando quem está sentado nas esplanadas. São os mais idosos aqueles que mais procuram o primeiro-ministro para se queixar das baixas pensões. Montenegro ouve-os com atenção, segura as mãos das senhoras, sorri compreensivo e, tal como tem dito nos últimos dias, a todos responde que poderá haver mais aumentos, se houver condições financeiras para tal - o que, como promessa, é das mais honestas que se podem fazer.

Interrogado pelos jornalistas se está a criticar implicitamente o Governo PSD/CDS de Pedro Passos Coelho (2011-2015), quando, nos recentes discursos, falou em “reconciliação com os pensionistas”, Montenegro recusa que pretenda demarcar-se das medidas de austeridade tomadas no período da "troika". "Sabemos que na evolução histórica e financeira do país tivemos um período de recuperação, no qual houve alguma incompreensão. Propus-me mostrar que somos um partido com uma grande vocação social, que não esquece aqueles que trabalharam uma vida toda e que olha com grande sentido humanista, personalista, para os que estão numa fase mais adiantada da vida, não os deixando sozinhos”, explica.

Questionado se é contraproducente ter hoje Passos Coelho num almoço para assinalar os 51 anos do PSD, o líder social-democrata recusa: “Não, é extremamente gratificante ter toda a história, que é uma história grande do PSD”.

E, àqueles (ou seja, aos socialistas) "que lançaram dúvidas sobre se o seu Governo iria mesmo baixar o IRS e aumentar as pensões”, Montenegro responde: "Houve muita gente que quis criar o medo de que nós não seríamos honestos no cumprimento do nosso compromisso. Nós respondemos com atos, com ações, com resultados".

Eunice Andrade tem 79 anos, é militante do CDS, e, mesmo com uma muleta, continua a participar nas campanhas (Foto: CNN Portugal)

Eunice Andrade, de 79 anos, não se queixa. Vem apoiada numa muleta, mas nem por isso se deixa ficar para trás. Acompanha a arruada por toda a avenida Heliodoro Salgado e vai até ao mercado da Estefânia. "Vou devagarinho, mas enquanto puder, vou", diz a militante do CDS que há mais de 40 anos está "ativamente" no partido e neste momento é secretária da mesa da assembleia da concelhia de Sintra. "Sou cristã, fui criada com estes ideais", justifica. "Conheço o Nuno Melo, conheço este menino aqui", diz, colocando a mão no rosto de Telmo Correia, "conheço-os a todos". Eunice tem ao peito dois autocolantes da AD, mas, honestamente, do que ela gosta mesmo é "da AD antiga", diz, sem avançar grandes explicações. "Os líderes eram melhores."

"Eram mais carismáticos, eram outros tempos", comenta um outro apoiante, que prefere não ser identificado, mas que, claramente, se emociona quando a comitiva da AD faz um momento de silêncio junto ao busto de Francisco Sá Carneiro, fundador do PSD.

Luís Montenegro junto ao busto de Francisco Sá Carneiro, em Sintra (Lusa/Miguel A. Lopes)

Os 51 anos de história do PPD/PSD "foram preenchidos com muitos momentos, uns mais felizes, outros mais sofridos, mas ainda assim de uma intervenção cívica e política que esteve sempre ao serviço de Portugal e que está associada às grandes conquistas da democracia portuguesa do pós-25 de abril de 1974", afirma Luís Montenegro. "Esta campanha eleitoral, com este entusiasmo na rua, com esta recetividade, esta conexão entre o PSD - a AD no caso - e o povo português, é a maior homenagem que posso fazer àqueles que me antecederam no exercício da liderança do partido e no exercício da liderança do Governo em representação do partido", diz, garantindo que está pronto para "fazer ainda mais do que foi feito até hoje".

Os "parabéns ao menino PSD" foram cantados logo de manhã, ainda antes de Luís Montenegro chegar. Foi o grupo de jovens da JSD que se lembrou, por entre os cânticos de "deixa o Luís trabalhar" e o gritos de "já não para, Montenegro, já não para", e logo ali se fez a festa com palmas e tudo, só ficaram a faltar as velas. A festa de aniversário continuaria com um almoço que juntou quase todos os antigos líderes do partido. Logo à noite, haverá um jantar com militantes no Centro de Congressos de Lisboa.

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