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Enquanto os estudantes enterravam a gata, Montenegro discursou na varanda do teatro. E garantiu: "Só seremos Governo se ganharmos as eleições"

14 mai 2025, 23:21
Luís Montenegro numa ação de campanha em Braga (Lusa/ Miguel A. Lopes)

Em Arcos de Valdevez, a campanha da AD teve concertinas e quadras do "amigo Loureiro". Em Braga, o Zé Pedro tentou chamar a atenção de Montenegro para a questão da Palestina, mas foi impedido pelos seguranças

“Nós somos cor-de-laranja mas não somos do PSD. Somos de psicologia. E se vir aí uns laranja mais clarinho são de educação.” Catarina quer deixar isto bem claro. Que não se confundam os apoiantes de Luís Montenegro, que esta tarde está a fazer campanha em Braga, com os estudantes da Universidade do Minho que à mesma hora desfilam em cortejo pelo centro da cidade - uma iniciativa que integra as “monumentais festas do enterro da gata” que se prolongam durante toda a semana. “É uma maneira de celebrar depois de todo o trabalho que tivemos no curso”, explica Rita, de 21 anos, estudante de enfermagem, trajada de preto, embrulhada na capa.

Entre os 58 carros alegóricos há vários com mensagens políticas - e não são simpáticas para o Governo. "Temos aqui estudantes de muitos partidos, alguns até podem ser do PSD, não tem nada a ver. Mas todos estamos de acordo que as propinas não podem aumentar", defende a futura psicóloga, Catarina.

Um dos carros do cortejo do "enterro da gata", em Braga (CNN Portugal)
Os estudantes não acreditam nas promessas dos partidos (CNN Portugal)

O cortejo termina no chafariz da Praça da República onde os grupos de estudantes coloridos se vão banhando à vez, ao mesmo tempo que cantam e dançam, cada curso com a sua coreografia própria. “É a nossa tradição”, explica Rita. Os jovens ficam a tiritar de frio e, para aquecer, bebem mais umas cervejas. Esta noite ainda haverá um concerto de Quim Barreiros e será anunciado o vencedor do desfile.

Enquanto isso, os outros laranjas, os da AD, começam o seu próprio cortejo no Arco da Porta Nova pelas 18:30. Com a vantagem de, aqui, ninguém ter dúvidas sobre quem será o vencedor. “A gente já sabe que eles são todos mais ou menos iguais, mas temos de votar no que é melhor, não é?”, justifica-se Maria Helena. “Pode ser que ele diga: temos tanta gente por nós, vamos lá fazer alguma coisinha por eles. Temos de ver o que vai fazer e, se fizer mal, vai para a rua e votamos noutro.”

A arruada começa sem Montenegro, que só se junta ao desfile a meio da rua pedonal D. Diogo de Sousa, surpreendendo alguns dos apoiantes que julgavam que ele já estava no meio da confusão. Começa logo a distribuir abraços e obrigados e nem sequer repara em Zé Pedro, um jovem que traz uma bandeira da Palestina atada ao pescoço, como uma capa, e um pequeno cartaz onde se lê: “PSD a favor do genocídio. Votou contra ajuda humanitária em Gaza”. Levanta os braços, empunhando o cartaz, e tenta aproximar-se, mas é imediatamente barrado pelos seguranças de Luís Montenegro. Por duas vezes, em dois pontos diferentes da rua, os seguranças afastam Zé Pedro. O rapaz não resiste, não protesta, continua o seu caminho.

Zé Pedro tentou mostrar a Luís Montenegro o seu cartaz, mas foi impedido pelos seguranças (CNN Portugal)

“Achei que era uma boa ocasião para vir marcar uma posição”, explica. “Sei que os partidos não podem fazer muito, Portugal não tem o poder de mudar o que se passa. Mas quando há uma votação para mandar ajuda humanitária para Gaza poderiam ter votado a favor e não o fizeram.” Na terceira vez que tenta mostrar o seu cartaz é a polícia que o afasta para a lateral e lhe pede a identificação. Zé Pedro, mais uma vez com toda a calma, tira o cartão da carteira. “Eu é que fui empurrado e é a mim que me pedem a identificação? Aqui está.” 

Chegados ao Theatro Circo, rapidamente se percebe que a multidão que ali está não vai caber nos 800 lugares disponíveis no espaço. É então que se decide fazer o comício cá fora, com os políticos na varanda - e pela primeira vez nesta campanha há um comício sem ecrãs gigantes, sem jotas a agitar bandeiras no palco, uma coisa improvisada mas de alguma forma mais genuína, como percebeu Hugo Soares, cabeça de lista por Braga, o primeiro a pegar no microfone, para anunciar que vão ficar na rua "para não deixar ninguém de fora".

Luís Montenegro também se mostra satisfeito por fazer o comício à varanda. “O ar condicionado aqui é mais eficiente e é muito mais barato e as duas coisas coadunam-se com aquilo que nós estamos a fazer também no Governo: estamos a ser mais eficientes e estamos a gerir melhor os recursos públicos que temos à nossa disposição”, graceja.

O primeiro-ministro começa a sua intervenção, mais breve do que o habitual, a saudar Miguel Macedo, antigo dirigente do PSD, natural de Braga, que morreu há dois meses. “Está lá em cima agora contente, feliz por nos ver também felizes e alegres neste momento.” Depois, mudando de tom, deixa a garantia: "Nós não estamos aqui para o jogo da trica política. Não estamos. Nós estamos aqui mesmo para governar. Nós achamos que só faz sentido governar se tivermos a legitimação da vontade do povo." E repete: "Só seremos Governo se ganharmos as eleições. Se tivermos na raiz da nossa legitimidade a vontade das pessoas."

Um comício diferente: à varanda do teatro em Braga (Lusa/ Miguel A. Lopes)

Montenegro diz que "o único voto útil" é na AD

A campanha da AD começou a manhã em Arcos de Valdevez. “Nós vamos votar AD, é o voto mais seguro. Montenegro e a sua equipa têm presente e futuro.” Quem escreveu esta quadra foi Jorge Loureiro, mais conhecido como o “Amigo Loureiro de Barcelos”, artista que faz versos e canta à desgarrada por festas do Alto Minho e que, mesmo a falar, está sempre à procura da próxima rima. “Deus deu-me o dom de sorrir e alegrar o povo”, justifica. E tem mais uma quadra pronta para o candidato: “Nós vamos votar AD, tem equipa competente. Queremos Luís Montenegro para o país seguir em frente.”

Leonor distribui as quadras impressas em papel por entre todos os cantadores do Grupo das Concertinas de Arco de Valdevez para que ninguém se engane quando o primeiro-ministro chegar. “Vimos aqui tocar para o Luís Montenegro que é o que a gente quer”, explica, com os papéis numa mão e a pandeireta na outra. O grupo existe há já 19 anos e toca música popular, “da nossa terra”, conta Leonor. Tem acordeões e reco-recos e gente de voz afinada que se junta todos os domingos e dias santos para cantar e bailar. “Hoje é dia de trabalho, temos pouca gente”, lamenta-se Leonor.

"O amigo Loureiro" fez versos a apelar ao voto na AD (CNN Portugal)

Poderá ser pouca gente para as concertinas, mas para uma arruada eleitoral podemos dizer que está até bastante composta. Muito antes das 11.00 já está o largo do mercado cheio de apoiantes da AD. Ignoram o cartaz com as caras de Pedro Nuno Santos e Marina Gonçalves, ignoram o Rui Rocha que pede “confiança”, ignoram ainda o grande cartaz com os rostos de Mariana Mortágua e Adriana Temporão. Estão ali, ordeiramente, enfileirados no passeio, à espera de Luís Montenegro. “Era escusado fazer campanha, mudam todas as terras menos esta”, comenta um apoiante, recordando que nas últimas eleições a AD ganhou em Arcos e ganhou também no distrito, Viana do Castelo.

No café já há quem peça copos de vinho e quem perca dinheiro nas raspadinhas, enquanto à porta do supermercado os clientes pousam os sacos cheios de compras no chão e sentam-se nos bancos: “Já viu isto? Cortaram o trânsito, agora temos de ficar aqui à espera que isto acabe”, desabafa uma senhora. Nisto, todos os olhos se viram para o início da rua. “Lá vem ele!” 

“Anda, anda! Não queres ver?” Armanda chama o marido, que ficou encostado à parede. Ele aproxima-se lentamente, já ela fura por entre a multidão. “Querem lá ver, vinha cá o primeiro-ministro e eu não lhe ia dar um beijinho?”, comenta, minutos depois, enquanto arranja o lenço que tem sobre os ombros e retoma a postura. “É muito povo mas eu consegui.” 

Luís Montenegro em Arcos de Valdevez (Lusa/ Miguel A. Lopes)

No largo da igreja, Montenegro dirige-se à população: “Sabemos que estão cansados de eleições e preocupados com a estabilidade política, que tem de poder juntar-se à estabilidade social, económica e financeira do país. Se estão preocupados com a estabilidade política, temos de ser capazes de mostrar às pessoas que o único voto útil para a estabilidade é o voto na AD”, diz. “Quanto mais votos a AD tiver, maior estabilidade há em Portugal. Quanto mais votos forem dispersos pelos partidos de oposição, maior instabilidade haverá em Portugal.” No final, é o Loureiro que pega no microfone para debitar mais uma quadra: “No meio desta multidão eu sinto-me tão feliz, não posso ir embora sem dar um abraço ao Luís.” 

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