Em Arcos de Valdevez, a campanha da AD teve concertinas e quadras do "amigo Loureiro". Em Braga, o Zé Pedro tentou chamar a atenção de Montenegro para a questão da Palestina, mas foi impedido pelos seguranças
“Nós somos cor-de-laranja mas não somos do PSD. Somos de psicologia. E se vir aí uns laranja mais clarinho são de educação.” Catarina quer deixar isto bem claro. Que não se confundam os apoiantes de Luís Montenegro, que esta tarde está a fazer campanha em Braga, com os estudantes da Universidade do Minho que à mesma hora desfilam em cortejo pelo centro da cidade - uma iniciativa que integra as “monumentais festas do enterro da gata” que se prolongam durante toda a semana. “É uma maneira de celebrar depois de todo o trabalho que tivemos no curso”, explica Rita, de 21 anos, estudante de enfermagem, trajada de preto, embrulhada na capa.
Entre os 58 carros alegóricos há vários com mensagens políticas - e não são simpáticas para o Governo. "Temos aqui estudantes de muitos partidos, alguns até podem ser do PSD, não tem nada a ver. Mas todos estamos de acordo que as propinas não podem aumentar", defende a futura psicóloga, Catarina.
O cortejo termina no chafariz da Praça da República onde os grupos de estudantes coloridos se vão banhando à vez, ao mesmo tempo que cantam e dançam, cada curso com a sua coreografia própria. “É a nossa tradição”, explica Rita. Os jovens ficam a tiritar de frio e, para aquecer, bebem mais umas cervejas. Esta noite ainda haverá um concerto de Quim Barreiros e será anunciado o vencedor do desfile.
Enquanto isso, os outros laranjas, os da AD, começam o seu próprio cortejo no Arco da Porta Nova pelas 18:30. Com a vantagem de, aqui, ninguém ter dúvidas sobre quem será o vencedor. “A gente já sabe que eles são todos mais ou menos iguais, mas temos de votar no que é melhor, não é?”, justifica-se Maria Helena. “Pode ser que ele diga: temos tanta gente por nós, vamos lá fazer alguma coisinha por eles. Temos de ver o que vai fazer e, se fizer mal, vai para a rua e votamos noutro.”
A arruada começa sem Montenegro, que só se junta ao desfile a meio da rua pedonal D. Diogo de Sousa, surpreendendo alguns dos apoiantes que julgavam que ele já estava no meio da confusão. Começa logo a distribuir abraços e obrigados e nem sequer repara em Zé Pedro, um jovem que traz uma bandeira da Palestina atada ao pescoço, como uma capa, e um pequeno cartaz onde se lê: “PSD a favor do genocídio. Votou contra ajuda humanitária em Gaza”. Levanta os braços, empunhando o cartaz, e tenta aproximar-se, mas é imediatamente barrado pelos seguranças de Luís Montenegro. Por duas vezes, em dois pontos diferentes da rua, os seguranças afastam Zé Pedro. O rapaz não resiste, não protesta, continua o seu caminho.
“Achei que era uma boa ocasião para vir marcar uma posição”, explica. “Sei que os partidos não podem fazer muito, Portugal não tem o poder de mudar o que se passa. Mas quando há uma votação para mandar ajuda humanitária para Gaza poderiam ter votado a favor e não o fizeram.” Na terceira vez que tenta mostrar o seu cartaz é a polícia que o afasta para a lateral e lhe pede a identificação. Zé Pedro, mais uma vez com toda a calma, tira o cartão da carteira. “Eu é que fui empurrado e é a mim que me pedem a identificação? Aqui está.”
Chegados ao Theatro Circo, rapidamente se percebe que a multidão que ali está não vai caber nos 800 lugares disponíveis no espaço. É então que se decide fazer o comício cá fora, com os políticos na varanda - e pela primeira vez nesta campanha há um comício sem ecrãs gigantes, sem jotas a agitar bandeiras no palco, uma coisa improvisada mas de alguma forma mais genuína, como percebeu Hugo Soares, cabeça de lista por Braga, o primeiro a pegar no microfone, para anunciar que vão ficar na rua "para não deixar ninguém de fora".
Luís Montenegro também se mostra satisfeito por fazer o comício à varanda. “O ar condicionado aqui é mais eficiente e é muito mais barato e as duas coisas coadunam-se com aquilo que nós estamos a fazer também no Governo: estamos a ser mais eficientes e estamos a gerir melhor os recursos públicos que temos à nossa disposição”, graceja.
O primeiro-ministro começa a sua intervenção, mais breve do que o habitual, a saudar Miguel Macedo, antigo dirigente do PSD, natural de Braga, que morreu há dois meses. “Está lá em cima agora contente, feliz por nos ver também felizes e alegres neste momento.” Depois, mudando de tom, deixa a garantia: "Nós não estamos aqui para o jogo da trica política. Não estamos. Nós estamos aqui mesmo para governar. Nós achamos que só faz sentido governar se tivermos a legitimação da vontade do povo." E repete: "Só seremos Governo se ganharmos as eleições. Se tivermos na raiz da nossa legitimidade a vontade das pessoas."
Montenegro diz que "o único voto útil" é na AD
A campanha da AD começou a manhã em Arcos de Valdevez. “Nós vamos votar AD, é o voto mais seguro. Montenegro e a sua equipa têm presente e futuro.” Quem escreveu esta quadra foi Jorge Loureiro, mais conhecido como o “Amigo Loureiro de Barcelos”, artista que faz versos e canta à desgarrada por festas do Alto Minho e que, mesmo a falar, está sempre à procura da próxima rima. “Deus deu-me o dom de sorrir e alegrar o povo”, justifica. E tem mais uma quadra pronta para o candidato: “Nós vamos votar AD, tem equipa competente. Queremos Luís Montenegro para o país seguir em frente.”
Leonor distribui as quadras impressas em papel por entre todos os cantadores do Grupo das Concertinas de Arco de Valdevez para que ninguém se engane quando o primeiro-ministro chegar. “Vimos aqui tocar para o Luís Montenegro que é o que a gente quer”, explica, com os papéis numa mão e a pandeireta na outra. O grupo existe há já 19 anos e toca música popular, “da nossa terra”, conta Leonor. Tem acordeões e reco-recos e gente de voz afinada que se junta todos os domingos e dias santos para cantar e bailar. “Hoje é dia de trabalho, temos pouca gente”, lamenta-se Leonor.
Poderá ser pouca gente para as concertinas, mas para uma arruada eleitoral podemos dizer que está até bastante composta. Muito antes das 11.00 já está o largo do mercado cheio de apoiantes da AD. Ignoram o cartaz com as caras de Pedro Nuno Santos e Marina Gonçalves, ignoram o Rui Rocha que pede “confiança”, ignoram ainda o grande cartaz com os rostos de Mariana Mortágua e Adriana Temporão. Estão ali, ordeiramente, enfileirados no passeio, à espera de Luís Montenegro. “Era escusado fazer campanha, mudam todas as terras menos esta”, comenta um apoiante, recordando que nas últimas eleições a AD ganhou em Arcos e ganhou também no distrito, Viana do Castelo.
No café já há quem peça copos de vinho e quem perca dinheiro nas raspadinhas, enquanto à porta do supermercado os clientes pousam os sacos cheios de compras no chão e sentam-se nos bancos: “Já viu isto? Cortaram o trânsito, agora temos de ficar aqui à espera que isto acabe”, desabafa uma senhora. Nisto, todos os olhos se viram para o início da rua. “Lá vem ele!”
“Anda, anda! Não queres ver?” Armanda chama o marido, que ficou encostado à parede. Ele aproxima-se lentamente, já ela fura por entre a multidão. “Querem lá ver, vinha cá o primeiro-ministro e eu não lhe ia dar um beijinho?”, comenta, minutos depois, enquanto arranja o lenço que tem sobre os ombros e retoma a postura. “É muito povo mas eu consegui.”
No largo da igreja, Montenegro dirige-se à população: “Sabemos que estão cansados de eleições e preocupados com a estabilidade política, que tem de poder juntar-se à estabilidade social, económica e financeira do país. Se estão preocupados com a estabilidade política, temos de ser capazes de mostrar às pessoas que o único voto útil para a estabilidade é o voto na AD”, diz. “Quanto mais votos a AD tiver, maior estabilidade há em Portugal. Quanto mais votos forem dispersos pelos partidos de oposição, maior instabilidade haverá em Portugal.” No final, é o Loureiro que pega no microfone para debitar mais uma quadra: “No meio desta multidão eu sinto-me tão feliz, não posso ir embora sem dar um abraço ao Luís.”