A campanha eleitoral aproxima-se do fim: no seu percurso pelo país, o líder da AD não se pode queixar de falta de multidão, ainda que grande parte dela pertença à máquina do partido
O pai Leonel é “um entusiasta do PSD, embora não seja assíduo”, a mãe Elisabete não gosta de política, o filho ainda está a ponderar. Mas vieram todos juntos ao comício da AD em Viseu. “Venho ouvir as propostas para depois decidir, tenho ouvido o que dizem alguns partidos e acho que só no dia é que vou decidir o meu voto”, explica Renato, 20 anos, estudante de Gastronomia na Escola Superior de Educação de Coimbra. Para já, preocupa-o a dependência do país em relação ao exterior (“viu-se com o apagão”) e gostava que houvesse maior descentralização do poder. “E a habitação, claro. A habitação para os estudantes deslocados é um problema enorme. Só quando este problema estiver resolvido é que se pode falar do descongelamento das propinas.”
Se as eleições de domingo vão ser decididas pela capacidade de mobilizar os habituais abstencionistas e de captar os indecisos, então os candidatos deviam pôr os olhos em famílias como esta e ouvir as dúvidas que as pessoas têm. O problema é que numa campanha é muito difícil ouvir o que quer que seja.
Tudo ao molho e fé na AD
Luís Montenegro está na rua desde 1 de maio, embora a campanha só tenha começado oficialmente no dia 4, e já percorreu o país de norte a sul. A coisa passa-se mais ou menos assim: uma hora antes da hora marcada chegam as carrinhas da juventude. Trazem colunas com música, muitas bandeiras da AD, algumas bandeiras de Portugal, folhetos, canetas, autocolantes e uma vintena de miúdos que se disponibilizou para passar duas semanas atrás de Luís Montenegro. A sua função é animar as arruadas e dar colorido às fotografias, garantir que, seja qual for a adesão local, há sempre gente em volta do líder e há sempre bandeiras no ar. À comitiva da juventude que está a fazer a volta toda juntam-se os jovens das estruturas locais, os representantes locais dos partidos da coligação, os candidatos, deputados e ministros que marcam presença nas suas cidades - por exemplo, Fernando Alexandre em Santarém, Margarida Balseiro Lopes em Porto de Mós (Leiria), Leitão Amaro em Viseu, Ana Paula Martins em Vila Real.
Nem era preciso mais ninguém, que só estas pessoas já eram suficientes para fazer a festa. Mas ainda temos de contar com todo o staff do candidato - assessores vários, os imprescindíveis seguranças e a equipa de comunicação, que filma, fotografa e alimenta as redes sociais do candidato e dos partidos. E, por fim, os jornalistas dos órgãos nacionais e locais, entre eles fotógrafos e operadores de câmara com toda a sua parafernália.
Assim que Montenegro sai do carro, estas pessoas todas avançam na sua direção como se disso dependesse a sua vida, atropelam-se, dão encontrões, os putos aos gritos, os autarcas a quererem dar apertos de mão, os jornalistas de microfone em riste, as câmaras que querem captar tudo, os apoiantes - que também os há - a pedirem beijinhos e a música a sair das colunas, incessantemente. Seja onde for, no Alentejo ou no Minho, num mercado ou numa rua pedonal, assim têm sido as arruadas da AD: uma grande confusão de gente aos gritos, que acompanha todos os passos do candidato, quase sem lhe dar espaço para respirar. Pior no mercados e nas feiras - como em Barcelos ou em Espinho - mas geralmente bastante caótico.
Sempre com um sorriso, Montenegro segue em passo acelerado e vai distribuindo cumprimentos - entra em lojas, estende a mão a quem está nas esplanadas, dirige-se a quem está parado na rua. Os assessores vão à frente sinalizando os melhores locais para o candidato parar e até colocando em posição algumas pessoas, os seguranças orientam-lhe o caminho, mas Montenegro desvia-se muitas vezes, vai de um lado ao outro. Quando fala com alguém agarra-lhe a mão ou coloca as suas mãos sobre os ombros do interlocutor, agradece o apoio de quem demonstra apoio e diz mais ou menos o mesmo que todos os outros candidatos, obrigado, bom trabalho, conto consigo, vamos ganhar. Dá beijinhos, tira selfies, estende o polegar para quem está longe, faz “v” de vitória com os dedos, canta e dança com os jovens.
São 30 minutos, ou 40 ou 50, não mais. Na segunda-feira à tarde, por causa da chuva e do frio, as arruadas em Chaves e Vila Real duraram escassos 15 minutos. Com algum grupo local de “zés pereiras” a abrir caminho, os jotas a gritar ao megafone “já não pára, Montenegro”, e a música "agora é hora de fazer o meu país mudar" a tocar em loop nas colunas gigantes. No fim da rua, do mercado, da praça, o candidato sobe a um canteiro de flores ou empoleira-se no carro, faz adeus e vai-se embora. Os apoiantes dispersam. Faz-se silêncio, finalmente.
Todos os dias: o hino nacional
Faltava uma hora para o comício e já havia uma longa fila de apoiantes da AD à porta do pavilhão multiusos de Viseu, no domingo à tarde. Anabela, empregada fabril de 43 anos, veio de Nelas com uma amiga para ouvir o candidato do partido que é o seu “desde pequenita, os meu pais também já eram”. E justifica: “Gosto muito dele. O outro esteve lá e não fez nada. Quem lá esteve antes é que pôs o país como ele o encontrou” - vê-se que Anabela tem estado atenta aos discursos de Montenegro. Preocupa-a, sobretudo, a questão da saúde - a falta de médicos, as listas de espera para as consultas e as cirurgias. “Acho que ele tem feito bem mas ainda pode fazer melhor.”
“Deixa o Luís trabalhar”, diz o hino que põe toda a gente a abanar o corpo ou a bater o pé. Luís Montenegro tem repetido esta ideia: “Se isto foi o que fizemos em 11 meses, imaginem o que conseguiremos fazer em quatro anos”. Ou em oito - já mais do que uma vez, o líder da AD pediu condições para repetir o feito de Cavaco Silva e conseguir governar durante duas legislaturas.
Os comícios podem ser em pavilhões ou teatros (como aconteceu em Viseu e em Castelo Branco) ou ao ar livre (Évora e Santarém) e, neste caso, os diretores de campanha escolhem praças relativamente pequenas, que rapidamente ficam cheias, dando ao candidato uma recepção acolhedora e permitindo boas imagens de uma multidão. Os comícios de 2025 são eventos profissionais - num par de horas as empresas contratadas montam o palco, com ecrãs ao fundo, filas de cadeiras, régie de som e imagem e até uma tenda, como aconteceu na tarde chuvosa de Vila Real. Em cada cidade, um speaker, recrutado numa rádio local, treinado em eventos desportivos, habituado a entreter multidões durante uma hora ou mais à espera do líder. “Está quase, está quase a chegar, levantem as vossas bandeiras, é agora”, às tantas não sabemos se estamos num estádio ou num comício, “lá vem ele, lá vem ele, é Luís, Luís Montenegrooooooo”.
Em cada comício há um orador convidado, geralmente o cabeça de lista distrital. Mas as palavras de Nuno Melo, líder do CDS-PP, e de Luís Montenegro são mais ou menos as mesmas, um dia a seguir ao outro. São palavras que exultam o trabalho realizado - “fizemos mais em 11 meses do que o PS em oito anos” - sublinham o aumento das pensões, a descida dos impostos, a aposta na segurança, os acordos alcançados com várias classes profissionais e o crescimento económico. No interior, refere também a questão da mobilidade e o apoio à agricultura. Montenegro apela à estabilidade e pede uma “maioria maior”. Pelo meio, vai deixando claras as linhas vermelhas que o separam do Chega e vai dando ferroadas nos “zigue-zagues” de Pedro Nuno Santos. Com a Iniciativa Liberal mantém a ambivalência. Se, por um lado, tem repetido o chavão liberal da meritocracia e do “remunerar mais quem trabalha mais”, por outro não quer deixar cair o Estado Social.
Ainda na segunda-feira, em Vila Real, voltou a colocar a AD no centro político, num espaço de “moderação”. “Não somos socialistas. Porque se fôssemos socialistas, nós achávamos que era o Estado que fazia tudo. Se fôssemos socialistas, nós andávamos a engordar o Estado para o Estado se autoalimentar a si próprio.” No entanto, acrescentou, esta força política também não é liberal.“Se fôssemos liberais, achávamos que era o mercado, que era a sociedade que resolvia os problemas de todos por si só. E nós não achamos isso”, afirmou, defendendo que tem de haver habitação pública, o SNS tem de ser a base do sistema de saúde e a educação pública é essencial para garantir igualdade de oportunidades a todos.
Já a Spinumviva tem sido pouco falada, o que não deixa de ser estranho, tendo em conta que foi ela que provocou a queda do Governo.
Os comícios terminam sempre com um momento solene: todos de pé a ouvir e a cantar o hino nacional.
Está quase a acabar: Luís vai dar tudo até ao fim
Entre as arruadas e os comícios, tem havido almoços e jantares, encontros com alguns sectores (bombeiros, polícias, autarcas, agricultores). E até alguns momentos mais “pessoais”. Carla, a mulher de Luís Montenegro, apareceu de mão dada logo no primeiro dia, em Barcelos. Depois, a meio da semana, o candidato fez um desvio no percurso anunciado para ir encontrar-se com ela, que estava em peregrinação a Fátima. Agora que já terminou a peregrinação, é provável que Carla se volte a juntar nestes últimos dias de campanha. Também já houve um dia em que Luís Montenegro foi jogar vólei de praia com os amigos. E em Vila Real chamou a atenção a presença no comício do filho Hugo, que, no final, disse aos jornalistas que o abordaram que, “se tivesse de ir [a uma comissão de inquérito], não havia problema”.
Entre as pessoas próximas de Montenegro, a ideia é que "a campanha está a correr bem". Mas a verdade é que, quando se está dentro da bolha, com o ângulo fechado e todo o barulho em redor, é difícil ver a floresta e perceber o que é o apoio popular e o que é a máquina de campanha a funcionar, o que são apoiantes espontâneos e o que são pessoas apanhadas pelo furacão quando só estavam a tentar comprar legumes para o almoço.
Esta quinta-feira, Luís Montenegro está no Porto; na sexta a campanha termina em Lisboa.