Há um português a pedalar de Itália à Índia para assistir a um casamento hindu que nunca vai acontecer

17 dez 2022, 12:00
Viajar de bicicleta até à Índia

O português Lucas e o italiano Marco já fizeram mais de três mil quilómetros nos dois meses que dura a viagem. Dormem onde calha, comem o que conseguem comprar. Estão a caminho para visitar um casal de amigos, com o menor impacto ambiental e financeiro que conseguirem. Como companheiros de viagem vão tendo a chuva, o frio e a neve. Mas até 50 javalis já se lhes tentaram juntar

Lucas e Marco conheceram-se nos Países Baixos, “há muitos anos”. A agricultura biológica e sustentável depressa os uniu, ao ponto de entrarem em aventuras em que poucos se envolveriam. Lucas é português, nascido em Vagos e criado para o Mundo. Marco é italiano, de Biella, no Norte, e tem o mesmo espírito livre. Lucas queria muito ir à Índia e Marco também. Estão a caminho… de bicicleta.

“Juntámo-nos na Suíça. Ele tinha amigos na Índia, com um projeto agroflorestal. E decidimos ir visitá-los. Eles iam casar e o plano era irmos ao casamento e ficarmos para os ajudar. O casamento acabou por não acontecer, por motivos religiosos, mas mantiveram o projeto e decidimos ir na mesma ajudá-los. Tanto eu como o Marco somos formados em agricultura biológica e será uma forma de ajudarmos e aprendermos também”, começa por contar Lucas Oliveira, de 26 anos.

“A bicicleta surgiu assim um pouco por acaso. Queríamos uma viagem o mais sustentável possível e com menor pegada ecológica possível. Assim, também visitamos outros países. Vamos parando em quintas, conhecendo projetos agrícolas sustentáveis e enriquecendo a nossa experiência”, acrescenta.

Lucas e Marco já fizeram mais de três mil quilómetros, desde o Norte de Itália, nos últimos dois meses. Estão agora na Turquia, junto à fronteira com o Mar Negro. Fazem, em média, 100 quilómetros por dia. Já passaram por cinco países: “Descemos Itália de Norte a Sul, apanhámos um ferry para ir para a Albânia, atravessámos a Albânia, entrámos na Macedónia do Norte, descemos para a Grécia e agora Turquia.”

Frio, chuva, neve e javalis

Lucas não é inexperiente em viagens inusitadas. Quando terminou a licenciatura na Escola Superior Agrária, em Coimbra, quis viajar durante um ano, com o menor impacto económico e ambiental possível. Percorreu na altura quase toda a América Central, sobretudo a pé e à boleia.

Agora, está a repetir a experiência de viajar com o menor impacto possível. Usam mapas offline para não dependerem de dados móveis ou de wi-fi. Dormem onde calha ou onde lhes dão guarida e só “pagam para comer”. Às vezes têm sorte de alguém lhes oferecer o sofá lá de casa, mas já ficam felizes quando os deixam dormir nos telheiros onde guardam as alfaias agrícolas, nas quintas por onde vão passando. Mas o seu abrigo principal é a tenda minúscula que carregam às costas e que montam e desmontam todos os dias. E, às vezes, há vizinhos pouco recomendáveis.

“Já tivemos de mudar porque já tivemos javalis à volta da nossa tenda. Eram uns 50 javalis, não conseguíamos entrar. Foi a sul de Roma. Um restaurante deu comida aos javalis e atraiu-os para o lado oposto e nós conseguimos ir buscar as nossas coisas. Nem desmontámos nada nem nada. Foi pegar nas tendas como estavam, nas bicicletas e fugir”, conta Lucas, em conversa telefónica com a CNN Portugal.

Mas uma viagem que começou com um outono ameno, está agora a fazer-se sob um quase inverno que ainda não chegou e já se adivinha duro: “O mais difícil tem sido o clima. A neve e a chuva. O difícil é mantermo-nos secos”.

Lucas e Marco dormem numa tenda, que montam onde lhes é permitido.

Às vezes, é necessário cuidar do veículo que os transporta e isso obriga a mudar para um percurso mais urbano. Por isso mesmo é que, pela primeira vez nesta viagem, dormiram num albergue, na Turquia, perto da oficina onde estão a fazer a manutenção das bicicletas.

Como os tumultos no Irão estão a dificultar a viagem

A ideia inicial de fazer a viagem integralmente de bicicleta pode não acontecer, por causa da instabilidade política e social de alguns países que têm de atravessar. “A ideia inicial era ir pelo Irão, Paquistão… mas, com todos os problemas que estão a acontecer no Irão, presumimos que não vamos conseguir. Todos nos aconselham a não entrar sequer no Irão, por ser muito perigoso”, lamenta.

Planificaram a viagem pelo Sul, atravessando os Emiratos Árabes Unidos e Omã e depois apanhar um barco para a Índia. Mas há muitos anos que o país de destino deixou de receber passageiros marítimos. Também fizeram planos para viajar pelo Norte: Cazaquistão, Quirguistão e depois China, mas, por causa da pandemia, a China não está a facilitar os vistos.

Agora, o objetivo é viajar até ao Azerbaijão, onde têm a certeza que conseguem entrar de bicicleta.  “No Azerbaijão, vamos avaliar. Talvez apanhemos um avião até ao Vietname e depois voltemos à bicicleta, atravessando o Laos, o Camboja, Mianmar, Bangladesh e depois Índia. Não queríamos muito recorrer ao avião, mas talvez tenha mesmo de ser”, adianta.

Lucas e Marco vão registando tudo com os telemóveis e, sempre que conseguem acesso a Wi-fi, enviam os registos para uma amiga que os vai partilhando numa conta do Instagram criada para relatar a viagem. Não descartarão, contudo, se alguém lhes propuser uma parceria e lhes fornecer material de melhor qualidade, para poderem documentar o projeto com maior profissionalismo.

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