É o confronto que a Casa Branca estava à espera.
A agitação provocada pelas rusgas federais contra imigrantes em Los Angeles serviu de catalisador questionável para o presidente Donald Trump encenar uma demonstração de força militar.
A mobilização de tropas da Guarda Nacional, contra a vontade do governador da Califórnia e do presidente da câmara de Los Angeles - ambos democratas - parece, neste momento, ser principalmente para inglês ver, com o objetivo de criar a perceção de que a administração está a endurecer a postura.
Mas a presença dos reservistas num momento de grande tensão e politização pode agravar as tensões e até tornar-se um fio condutor que leve a uma ação mais agressiva da administração. O Comando do Norte disse no domingo à noite que 500 fuzileiros navais dos EUA estavam agora “preparados para serem destacados”, antes do que seria uma escalada impressionante e constitucionalmente duvidosa se aparecessem em Los Angeles.
Os protestos do fim de semana viram agentes da lei com equipamento antimotim usarem gás lacrimogéneo e granadas de efeito moral, para dispersar multidões no centro de Los Angeles e na cidade vizinha de Paramount. O Departamento do Xerife do Condado de Los Angeles disse que os manifestantes atiraram objetos e foram violentos com agentes federais e agentes do próprio xerife.
Trump está a saborear a resposta. "A ordem será restaurada, os ilegais serão expulsos e Los Angeles será libertada", publicou o presidente na rede social Truth, no domingo.
Donald Trump parece estar de olho em objetivos políticos que vão além da situação imediata em Los Angeles, que, em comparação com precedentes históricos, dificilmente parece justificar uma intervenção presidencial unilateral.
O presidente dos EUA está a enviar um aviso às jurisdições democratas em todo o país que se opõem às suas medidas de deportação. E não está simplesmente a demonstrar o desejo de militarizar a repressão aos imigrantes indocumentados, o que prometeu na campanha de 2024, apesar das restrições legais. Está a sugerir que usará as forças armadas, especificamente a Guarda Nacional, para agir contra protestos e dissidências — uma perspetiva preocupante numa sociedade democrática.
A ação de Trump no sábado também é uma indicação de que ele está disposto a ignorar tradições e possíveis limites constitucionais no futuro e que deseja explorar o que os republicanos consideram uma fraqueza democrata em relação à ordem pública. E reforça a imagem autoritária de um comandante-chefe forte, que terminou a semana passada a assistir, nas primeiras filas, a uma luta de UFC e que encerrará esta semana com tanques a rugir pela capital, no seu aniversário, a 14 de junho, numa parada que ostensivamente marca o 250.º aniversário do Exército, que também se realiza a 14 de junho.
Trump intromete-se no problema da Califórnia
Donald Trump deu a ordem para enviar 2 mil soldados da Guarda Nacional para Los Angeles após vários dias de protestos e agitação, no seguimos de rusgas da Imigração e Alfândega que resultaram em dezenas de detenções. A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse, no sábado à noite, que a medida era necessária devido ao fracasso das autoridades da Califórnia na proteção dos funcionários federais de imigração e dos seus próprios cidadãos.
Priscilla Alvarez e Betsy Klein, da CNN, relataram que os funcionários da Casa Branca decidiram primeiro enviar agentes federais e recursos para Los Angeles para proteger os agentes do Immigration and Customs Enforcement (ICE) e guardar um dos edifícios federais onde se concentraram os protestos. No sábado à noite, foi tomada a decisão de enviar a guarda.
Apesar da retórica acalorada dos funcionários do Governo e dos legisladores republicanos no domingo, no entanto, havia poucos sinais de que a desordem estivesse fora de controlo ou que as autoridades locais não conseguissem lidar com a situação. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, acusou Trump de tomar uma medida “deliberadamente inflamatória”, e a autarca de Los Angeles, Karen Bass, disse que o envio da Guarda Nacional não era “necessário”. E, pelos padrões das explosões de agitação nos EUA, nas últimas décadas, a situação em Los Angeles não parece especialmente grave.
No domingo, as tropas da Guarda Nacional tomaram posições em três locais de Los Angeles, no que parece ser o primeiro caso em décadas de reservistas a serem destacados por um presidente sem coordenação com um governador.
Equipas da CNN recolheram imagens de tropas da Guarda Nacional da Califórnia, operando sob a autoridade de Trump, e não de Newsom, depois de o presidente as ter convocado para o serviço federal, repelindo manifestantes do lado de fora de um centro de detenção. Um agente federal foi visto a atirar o que parecia ser uma lata de gás lacrimogénio.
A instalação de tropas em instalações federais é uma distinção potencialmente significativa, uma vez que elas não estavam inicialmente a ser utilizadas na aplicação ativa da lei. Tal medida infringiria a Lei Posse Comitatus, que proíbe as tropas federais de participar na aplicação da lei, a menos que especificamente autorizadas pela lei ou pelo Congresso.
Mesmo neste caso, porém, a situação jurídica não é definitiva. Até agora, o Governo não invocou a Lei da Insurreição, que, em algumas circunstâncias, permite ao presidente usar as forças armadas para acabar com uma insurreição ou rebelião do poder federal num estado.
Uma análise objetiva da situação em Los Angeles sugere que ainda não existe tal desordem extrema. Mas um funcionário do Governo parece estar a escolher as palavras com precisão. O conselheiro de política interna Stephen Miller postou no X que havia duas opções: “Deportar os invasores ou render-se à insurreição”.
O eco da Lei de Insurreição por uma figura poderosa do Governo que afirma que uma “invasão” de imigrantes justifica o uso de emergência e o poder executivo quase ilimitado de Trump provavelmente não é uma coincidência. O presidente reforçou a sua posição numa publicação na rede social Truth no domingo, alegando que “multidões violentas e insurrecionistas estão a aglomerar-se e a atacar” agentes federais.
Como a situação influencia os objetivos políticos de Trump
A mobilização da Guarda Nacional claramente corre o risco de politizar as forças armadas. Mas é uma decisão política óbvia para a Casa Branca.
Imagens de tropas em equipamento de combate e as promessas do Governo de impor a ordem se os líderes locais não o fizerem reforçam a imagem de durão de Donald Trump, que é um fator importante em seu apelo aos apoiantes. Isso reforça as alegações republicanas de incompetência nas cidades governadas por liberais, que têm sido assoladas pela falta de habitação e pelo crime.
Ao enviar tropas sem consultar Newsom, Trump intensifica sua rivalidade com o governador, que é um dos democratas mais proeminentes do país, num momento em que o presidente ameaça cortar o financiamento federal ao estado. Isso também pode servir como um aviso a outros estados democratas de que poderão enfrentar a militarização do programa de deportação se não cooperarem.
Além disso, há o fator distração.
O espetáculo da chegada das tropas pode ajudar a disfarçar o facto de as deportações ainda não atingirem os níveis que alguns apoiantes provavelmente esperavam. E, num momento político delicado, após o afastamento público de Elon Musk e com dúvidas a pairar sobre o seu enorme projeto de lei de gastos internos, intensificar uma controvérsia sobre imigração serve para mudar o foco das atenções para Trump. A imigração tem sido há muito um dos seus refúgios políticos fiáveis. Ainda assim, uma nova sondagem da CBS, no domingo, mostrou que, embora a maioria aprove os objetivos de Trump sobre a questão, 56% criticam a sua abordagem.
Republicanos reforçam mensagem política
Os principais republicanos foram rápidos a apoiar as medidas de Donald Trump na Califórnia, depois de dias em que Washington foi consumida pelo psicodrama do presidente com Musk.
“O governador Newsom é muito fraco e tem tendência para a ilegalidade, não está a fazer cumprir as leis do país”, disse o senador republicano Markwayne Mullin, de Oklahoma, à jornalista Dana Bash, da CNN, no programa "State of the Union". E continuou: “O presidente deixou muito claro: se o governador ou o presidente da câmara da cidade não estiverem dispostos a proteger os cidadãos do seu estado ou da sua cidade, então o presidente fá-lo-á”.
Outro senador republicano, Ron Johnson, do Wisconsin, não se mostrou muito preocupado com a utilização das tropas da Guarda Nacional. “A Guarda Nacional fornece um grande número de efectivos para prevenir a violência”, declarou a Bash. "Seria bom se os políticos democratas não continuassem a agitar as coisas e a pedir às pessoas que saíssem para protestar contra ações legais de aplicação da lei. Isso é um bocado difícil de engolir".
O outro senador republicano de Oklahoma, James Lankford, disse no programa “Meet the Press” da NBC que Trump estava a tentar “diminuir todas as tensões” enviando tropas.
Os democratas, no entanto, criticaram a atitude de Trump.
“A minha preocupação, é claro, é que isso agrave a situação e que ele esteja determinado a agravar as situações”, disse a senadora de Minnesota Amy Klobuchar no programa “Face the Nation” da CBS.
“Os governadores individuais analisam os seus estados. Eles tomam decisões” disse Amy Klobuchar. “Mas, neste caso, o presidente, repetidamente, mostrou essa vontade de, primeiro, violar a lei, como vimos em todo o país em muitas situações diferentes fora do contexto da imigração. E, segundo, inflamar as situações”.
O senador Bernie Sanders, independente de Vermont que faz parte do grupo democrata, alertou no programa “State of the Union” que “temos um presidente que está a levar este país rapidamente para o autoritarismo”.
Sanders acrescentou: “Este tipo quer todo o poder. Ele não acredita na Constituição. Ele não acredita no Estado de direito... ele acha que tem o direito de fazer o que quiser”.
Hegseth agrava a situação
As preocupações de que Trump esteja a dar asas aos seus impulsos autoritários e que a administração aprecie confrontos que lhe permitam avançar nessa direção foram sublinhadas por uma publicação no X do secretário da Defesa Pete Hegseth que escreveu que, se a violência continuasse, “os fuzileiros navais em serviço ativo em Camp Pendleton também serão mobilizados - eles estão em alerta máximo”.
A ameaça do secretário de Defesa de enviar para as ruas americanas uma força cujas honras de batalha incluem Belleau Wood, Iwo Jima e Fallujah não só ofende os princípios do governo republicano democrático. Seria quase certamente ilegal, a menos que Trump invocasse a Lei da Insurreição. Neste momento, as condições dessa legislação parecem estar longe de ser cumpridas. Trump disse no domingo que ainda não estava pronto para invocar a lei.
Ainda assim, tudo isto é assustador, dada a sua advertência no ano passado de que estaria preparado para usar as forças armadas contra “o inimigo interno”.
Isto também acontece depois de quatro meses em que a administração utilizou o questionável poder presidencial para atingir instituições, desde escritórios de advogados a universidades e meios de comunicação social. E recorreu a emergências nacionais polémicas declaradas para desbloquear autoridades em matéria de comércio e imigração.
A Common Defense, a maior organização de veteranos do país, condenou o envio da Guarda Nacional da Califórnia por Trump. “A resposta militarizada aos protestos em Los Angeles é uma escalada perigosa que prejudica os direitos civis e trai os princípios que juramos defender”, afirmou Naveed Shah, diretor político do grupo e veterano do Exército dos EUA.
A publicação de Hegseth ressalta uma das razões pelas quais os críticos o consideravam inadequado para o cargo de secretário de Defesa — o receio de que ele fizesse tudo o que Trump lhe mandasse, ao contrário do chefe do Pentágono no primeiro mandato, Mark Esper, que escreveu no seu livro que o presidente perguntou se as tropas poderiam atirar nas pernas dos manifestantes que se reuniram na Casa Branca, durante os protestos por George Floyd.
Hegseth evitou responder quando a senadora democrata do Hawai, Mazie Hirono, lhe perguntou repetidamente se ele cumpriria tal ordem de Trump. E também se esquivou quando a senadora democrata de Michigan, Elissa Slotkin, lhe perguntou se ele concordava que havia algumas ordens que um presidente poderia dar que eram inconstitucionais. “Não vou antecipar as conversas que teria com o presidente. No entanto, existem leis e processos dentro da nossa Constituição que seriam seguidos”, afirmou Hegseth.
Pouco na gestão de Hegseth, até agora, sugere que ele se oporia a qualquer uma das ideias mais extremas do presidente. Essa é uma das razões pelas quais o envio unilateral de tropas de reserva para Los Angeles por Trump parece ser o impulso inicial de um esforço crescente do Governo para usar as forças armadas num contexto doméstico.