Como viver mais tempo? Os seus genes podem ajudar

CNN , Michal Ruprecht
22 fev, 12:00
A longevidade tem sido, durante muito tempo, associada sobretudo à forma como as pessoas vivem e ao ambiente em que vivem, mas um novo estudo sugere que os genes desempenham um papel maior do que se pensava. MJimages/E+/Getty Images

Estudo publicado na revista Science sugere que a longevidade se assemelha a outras características complexas — como os níveis de colesterol ou o risco de osteoporose — que são moldadas por muitos genes, mas também fortemente influenciadas pela forma e pelo local onde as pessoas vivem

Os cientistas acreditaram durante décadas que a duração da vida era moldada principalmente pelas escolhas de estilo de vida. No entanto, um novo estudo revela que a genética pode ter um peso muito mais significativo na determinação de quanto tempo as pessoas vivem.

De acordo com a investigação, a genética é responsável por mais de metade das diferenças na esperança de vida — um valor cerca de duas vezes superior às estimativas anteriores. Ainda assim, esta conclusão pode fazer sentido para quem observa padrões semelhantes na sua árvore genealógica ou ouve comentários recorrentes durante as consultas médicas de rotina.

“Não é nada surpreendente”, afirma Deborah Kado, codiretora do Stanford Longevity Center, que não participou no estudo. Embora os cientistas concordem que a maioria das características resulta de uma combinação entre fatores genéticos e ambientais, acreditava-se que a duração da vida era largamente determinada pelo ambiente.

O estudo, publicado na revista Science, sugere que a longevidade se assemelha a outras características complexas — como os níveis de colesterol ou o risco de osteoporose — que são moldadas por muitos genes, mas também fortemente influenciadas pela forma e pelo local onde as pessoas vivem.

Estudos anteriores subestimaram a influência da genética porque se basearam em dados de pessoas nascidas antes do século XIX. Esses indivíduos morriam frequentemente devido a doenças infecciosas ou acidentes, numa altura em que vacinas, medicamentos, práticas modernas de higiene e regras de segurança ainda não estavam amplamente disponíveis.

Quando estes fatores eram incluídos nas análises, acabavam por eclipsar os efeitos genéticos sobre a idade. Uri Alon, autor principal do estudo, explica que, ao “limpar” os dados e excluir esses fatores, “os genes passam a revelar todo o seu efeito”.

“As pessoas pensavam: ‘os genes provavelmente não são relevantes’”, diz Alon, investigador de longevidade no Instituto Weizmann de Ciência, em Israel. “Mas temos uma espécie de duração de vida genética, em grande parte pré-determinada nos nossos genes.” Ainda assim, os genes não contam toda a história.

Ainda temos algum controlo sobre a duração das nossas vidas

Embora cerca de 55% da duração da vida esteja definida geneticamente, os restantes 45% continuam em aberto. “Uma parte é sorte e outra parte são as nossas decisões”, explica Alon.

Segundo o investigador, escolhas de estilo de vida — como exercício físico, alimentação e ligações sociais — podem alterar a idade influenciada geneticamente em cerca de cinco anos. “A genética não é um destino fechado.”

Uma pessoa geneticamente predisposta a viver 80 anos pode chegar aos 85 com hábitos saudáveis, enquanto escolhas menos saudáveis podem reduzir essa expectativa para 75 anos.

“Mas hábitos saudáveis não o vão levar dos 80 aos 100 se a sua genética apontar para os 80”, sublinha.

A esperança média de vida nos Estados Unidos atingiu um máximo histórico de 79 anos em 2024, segundo dados recentes divulgados pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC). O valor vinha a subir há décadas, antes de cair quase um ano e meio durante a pandemia de covid-19.

É por isso que Kado considera que produtos comercializados com promessas de aumento da longevidade não são a resposta para viver mais tempo. O essencial, defende, continua a ser o exercício, a alimentação e as relações sociais.

Os genes que determinam o potencial genético

Embora alguns genes já tenham sido identificados como protetores ou prejudiciais no processo de envelhecimento, Kado sublinha que características como a longevidade são muito mais complexas do que um pequeno conjunto de fatores genéticos.

“Não existe um único gene”, afirma. “A biologia é complicada” — tão complicada que muitos dos elementos que contribuem para a determinação da idade ainda são desconhecidos.

Ainda assim, à medida que os cientistas aprendem mais sobre os mecanismos biológicos do envelhecimento, poderão surgir ferramentas capazes de atuar sobre vias que encurtam a duração da vida.

“Se conhecemos os genes, conhecemos o mecanismo”, esclarece Alon. “E se conhecemos o mecanismo, podemos intervir — podemos criar medicamentos.” Isto permitiria, segundo o investigador, atuar sobre o envelhecimento em si, em vez de tratar uma doença de cada vez.

Esse futuro, no entanto, ainda está a décadas de distância. Atualmente, testes genéticos conseguem identificar riscos hereditários para doenças como a perturbação bipolar ou problemas renais, mas não existe nenhum exame capaz de prever de forma fiável a idade genética de uma pessoa. Desenvolver uma ferramenta desse tipo, acrescenta Alon, seria o primeiro passo para tentar melhorar a longevidade genética.

O que é mais importante: saúde ou idade?

Dan Arking, investigador do envelhecimento na Universidade Johns Hopkins, considera que o estudo lança luz sobre outro debate importante entre os cientistas: como equilibrar os benefícios de viver mais anos com saúde em comparação com o número total de anos vividos.

“Se puder ser saudável durante mais tempo, isso tem um enorme valor”, considera Arking, defendendo que viver mais pode não compensar se esses anos forem passados com má qualidade de vida.

Segundo o investigador, reduzir o risco de doenças associadas à idade, como a osteoporose, pode aumentar o número de anos vividos com boa saúde. Já prolongar a duração total da vida é mais difícil. E não se sabe se a esperança de vida pode ultrapassar os 122 anos, a idade mais avançada alguma vez registada.

“Depois de um certo ponto, tudo começa a falhar”, acrescenta. “Pode existir um limite máximo.”

Alon também dá prioridade à qualidade de vida em detrimento da idade absoluta, lembrando que, nos últimos 150 anos, a esperança média de vida duplicou, mas a longevidade máxima quase não se alterou. De facto, a taxa de mortalidade entre centenários não melhorou nos últimos 30 anos.

“Quando nos aproximamos dos 100 anos, já sentimos a barreira dos 120”, explica. “Ultrapassar isso exigiria medidas muito mais drásticas, que também seriam muito perigosas.”

Apesar do debate em curso, Alon considera que o estudo representa um passo na direção certa. O objetivo é reafirmar o papel da genética na longevidade — e incentivar investigações semelhantes no futuro.

“O nosso estudo será uma motivação extra para avançar com essas investigações genéticas”, conclui. “É 50% natureza e 50% ambiente. Estamos habituados a esse conceito. E agora sabemos que a longevidade funciona da mesma forma.”

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