O Palácio de Buckingham é uma visita obrigatória para turistas. Então porque é que a família real não quer viver lá?

CNN , Sam Peters
11 jul, 11:00
O Palácio de Buckingham, no centro de Londres, está atualmente a passar por uma renovação de 10 anos, no valor de 488 milhões de dólares. Chris Jackson/Getty Images
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O rei Carlos III e a rainha Camilla não vão viver no Palácio de Buckingham após a conclusão de uma renovação de 10 anos avaliada em 369 milhões de libras. Apesar de continuar a ser a sede administrativa da monarquia e palco de cerimónias oficiais, o edifício histórico, residência oficial dos soberanos britânicos desde 1837, tem sido visto por vários monarcas mais como um espaço institucional do que como uma verdadeira casa

Quando a família real britânica intensifica a pompa e o aparato para assinalar momentos de importância nacional, o Palácio de Buckingham fornece frequentemente o cenário perfeito.

Mas também tem sido a residência oficial em Londres do soberano desde 1837. A rainha Vitória foi a primeira monarca a viver no Palácio de Buckingham, mudando-se para lá quando subiu ao trono há quase 200 anos.

Apesar de passarem bastante tempo nos seus vários retiros no campo, do Castelo de Windsor, nos arredores de Londres, a Balmoral, na Escócia, todos os monarcas seguintes mantiveram o Palácio de Buckingham como residência principal. Até agora.

Foi revelado na semana passada que o rei Carlos III vai romper com esta tradição, uma vez que ele e a mulher, a rainha Camilla, não se vão mudar para o palácio quando um programa de renovação de 10 anos, com um custo de 369 milhões de libras — 431 milhões de euros — terminar no próximo ano.

Em vez disso, Carlos permanecerá na vizinha Clarence House, onde vive desde 2003, com o Palácio de Buckingham a continuar a servir como sede administrativa da monarquia.

“[O Palácio de Buckingham] será uma colmeia fervilhante de atividade real em todos os outros aspetos”, disse um porta-voz do palácio à CNN.

O palácio tem um salão de baile aberto para banquetes, receções, festas nos jardins e audiências privadas. Peter Macdiarmid/Getty Images

“Sua Majestade mantém um enorme afeto pelo Palácio de Buckingham e um profundo respeito pelo seu papel na vida real e pública.”

Ainda não é claro se a decisão de Carlos de permanecer em Clarence House diminuirá o interesse dos visitantes que se juntam diariamente junto às grades do palácio com remates dourados, na esperança de vislumbrar a vida real.

Um visitante disse à agência noticiosa Reuters que estava interessado em ver o edifício em si, acrescentando: “Se o rei vive lá ou não, isso não é relevante para nós.” Outro visitante teve uma opinião diferente, dizendo que um palácio sem membros da realeza no interior “perde a sua magia”.

James Chalmers, tesoureiro do rei e Guardião da Bolsa Privada, disse aos meios de comunicação britânicos que o palácio continuará a ser o principal local para funções cerimoniais e oficiais, incluindo a receção de dignitários estrangeiros.

“É e continuará a ser a sede da monarquia, a joia da coroa dos nossos edifícios nacionais, com o estandarte do soberano a ondular orgulhosamente no telhado sempre que Sua Majestade estiver em Londres”, disse aos jornalistas. Carlos manterá aposentos privados no local que poderão ser usados como alojamento.

“Muito mais do que cosmético”

A Buckingham House foi comprada por Jorge III em 1761 para que a rainha Carlota e os seus filhos lá vivessem. Quando Jorge IV subiu ao trono, encomendou ao arquiteto John Nash a ampliação da casa para a transformar num palácio, mas Jorge morreu antes de a obra estar concluída.

Embora o palácio tivesse custado 496.169 libras — cerca de 33,6 milhões de libras, ou 39,29 milhões de euros, atualmente —, Guilherme IV optou por permanecer em Clarence House, chegando mesmo a oferecer o Palácio de Buckingham como substituto das Casas do Parlamento depois de estas terem ardido em 1834. O Parlamento recusou a oferta.

Em 1845, a rainha Vitória supervisionou a última expansão do palácio, acrescentando a Ala Este, virada para The Mall. O edifício tem agora 775 divisões, incluindo 78 casas de banho.

Os mais recentes trabalhos de conservação começaram no palácio em abril de 2017. A obra é “muito mais do que cosmética”, disse num email à CNN Natasha Brown, especialista em conversões de edifícios históricos e diretora da Giles Quarme Architects, que não está envolvida no projeto.

Os trabalhos de restauro eram desesperadamente necessários. A princesa Anne, irmã de Carlos, quase foi atingida por um pedaço de alvenaria que caiu em 2007, segundo relatos dos meios de comunicação britânicos, e os funcionários tinham frequentemente de usar baldes para apanhar fugas de água.

“Inclui a substituição integral de sistemas elétricos, canalizações e serviços mecânicos envelhecidos, extensos trabalhos de proteção contra incêndios e a remoção cuidadosa de amianto”, explicou Brown.

Foi descoberto amianto na cave durante o restauro, com um custo de 10,1 milhões de libras — 11,8 milhões de euros — para o remover.

Uma quebra com a tradição?

Embora Carlos seja o primeiro monarca em 189 anos a não usar o palácio como casa oficial, está longe de ser o primeiro a evitar o edifício.

Embora a rainha Vitória o tenha tornado a casa da família real e o centro dos assuntos oficiais durante duas décadas, retirou-se da vida pública após a morte do marido, o príncipe Alberto, em 1861, e passou a maior parte do tempo no Castelo de Windsor.

Vitória estava tão raramente no Palácio de Buckingham que, segundo o The Telegraph, foi deixado um bilhete na vedação da residência em 1864, onde se lia: “Estas imponentes instalações para arrendar ou vender, em consequência do declínio da atividade da anterior ocupante.”

Durante a pandemia de Covid-19, a rainha Isabel II mudou-se para Windsor, citando as obras no edifício, mas “a falecida rainha nunca gostou muito de viver no Palácio de Buckingham”, disse em entrevista à CNN Robert Hardman, especialista em realeza que escreveu biografias do rei Carlos e da rainha Isabel.

“Ficou muito triste ao mudar-se para lá quando era menina, em 1936, quando o pai, Jorge VI, se tornou rei, e ficou ainda mais triste ao mudar-se para lá quando o pai morreu”, assegurou Hardman.

Clarence House, onde o rei Carlos III e a rainha Camilla continuarão a viver, mesmo depois de as renovações estarem concluídas no Palácio de Buckingham. Henry Nicholls/AFP/Getty Images

Isabel esperava ficar em Clarence House, onde vivia com o marido e os filhos, mas terá sido informada por Winston Churchill, primeiro-ministro na altura, de que a monarca tinha de “mudar-se para cima da loja”, referiu Hardman.

O problema, acrescentou Hardman, é que o palácio “nunca foi realmente concebido como uma casa”.

“Se entrarmos pela porta de Clarence House, sentimos que estamos a entrar numa casa. É uma casa grandiosa, mas é uma casa. Se entrarmos pela porta do Palácio de Buckingham, sentimos que estamos a entrar no gabinete de um chefe de Estado”, afirmou.

Jorge V preferia a sua propriedade rural de Sandringham, em Norfolk, e terá descrito o local como “a querida e velha Sandringham, o lugar que amo mais do que qualquer outro no mundo”.

Embora o público em geral só possa fazer visitas ao Palácio de Buckingham durante o verão, quando tradicionalmente o monarca está na Escócia, dentro do palácio “estamos muito no centro das atenções”, acrescentou Hardman.

Embora o palácio seja a residência oficial do monarca desde o reinado da rainha Vitória, passou por extensas remodelações desde então.

A ala este foi acrescentada em 1847, fechando o pátio aberto desenhado por Nash. Foi depois revestida novamente em 1913, quando o Marble Arch foi transferido para Hyde Park e o familiar monumento Memorial da Rainha Vitória foi acrescentado em frente à residência real, deixando a versão “mais austera e institucional” que temos hoje, explicou Brown.

Turistas juntam-se junto aos portões do Palácio de Buckingham, em Londres. Esta vista mostra a fachada este pública tal como ficou depois de Edward Blore fechar o pátio com uma nova ala em 1847, mas antes do revestimento mais familiar de Aston Webb, em 1913. A imagem é anterior ao Memorial da Rainha Vitória, erguido em 1911. English Heritage/Getty Images

Esta mais recente ronda de obras foi financiada por um aumento temporário da Sovereign Grant, a subvenção anual paga pelo Governo britânico para financiar os deveres reais desempenhados por membros da família e pela casa real.

A verba vem de uma percentagem do dinheiro gerado pelos terrenos e propriedades detidos pelo Crown Estate. Para 2027-2028, quando se espera que a remodelação do palácio esteja concluída, o financiamento descerá de 137,9 milhões de libras (161,32 milhões de euros) para 99,9 milhões de libras (116,87 milhões de euros). No entanto, esse valor continua acima dos 40,1 milhões de libras (46,91 milhões de euros) que a casa real recebeu em 2015-2016.

Críticos têm questionado tanto o elevado custo das obras de renovação do marco histórico como a decisão de Carlos de não se mudar para lá assim que estiverem concluídas.

“O contribuinte acabou de financiar uma grande remodelação do Palácio de Buckingham, apenas para Carlos decidir unilateralmente que não o vai usar”, disse à CNN Graham Smith, diretor executivo da Republic, um grupo antimonárquico no Reino Unido.

“Mas também não o vai entregar para que outros o usem. Está meio dentro e meio fora, impedindo que seja transformado num museu e galeria de arte de classe mundial”, acrescentou Smith.

Max Foster contribuiu para este artigo.

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