Um em cada três portugueses tem dor nas costas todos os dias. Saiba como evitar ou diminuir as lombalgias (não é com caminhadas)

14 jun, 07:00
Em Portugal, segundo o Instituto Nacional de Estatística, a lombalgia já afeta 43% das mulheres e 30,9% dos homens com mais de 15 anos (Pexels)

A lombalgia é um dos motivos mais comuns para faltar ao trabalho e das condições com mais impacto na qualidade de vida. Alguns estudos revelam que a covid-19 veio agravar a situação mas também há boas notícias: o tratamento mais comum requer apenas descanso e alguns fármacos. E a ciência tornou as cirurgias menos assustadoras

Para uns, é uma dor pontual, que vai e vem, que condiciona a rotina mas que passa rapidamente. Para outros, é já uma companheira diária, que não mata mas mói, que afeta o dia a dia e tira horas de sono e qualidade de vida. A dor lombar é das condições físicas mais impactantes e a primeira causa de absentismo laboral, a primeira causa de incapacidade permanente e temporária no trabalho.

Luís Teixeira, ortopedista e cirurgião, assiste diariamente a queixas de dores lombares. E não hesita em afirmar que a situação poderá agravar-se no futuro, muito à boleia dos hábitos cada vez mais tecnológicos, que já são uma realidade.

“Os estudos que a [revista] Lancet apresentou recentemente mostraram que, nas sociedades ocidentais, a patologia da coluna é a que maior incapacidade dá junto dessas populações, fruto da obesidade e sedentarismo, cada vez mais associadas a atividades relacionadas com novas tecnologias, com posições viciosas longas. Cada vez mais, as alterações ao nível da coluna têm um impacto”, explica o também diretor clínico da Spine Center. Os estudos a que o médico se refere fazem parte de uma série de documentos que a revista começou a publicar em 2018 e que atualizou em 2021.

A lombalgia - comummente chamada de dor nas costas -, carateriza-se por uma dor, tensão ou desconforto na região lombar (localizada na parte inferior da coluna). A dor surge entre a “última costela e a região glútea, com ou sem irradiação pelo membro inferior (ciática), sendo aguda se a duração for de um dia até seis semanas, subaguda até às doze semanas e após este período consideramos estar perante uma lombalgia crónica”, descreve a Sociedade Portuguesa da Patologia da Coluna Vertebral, que estima que oito em cada dez pessoas terão um episódio de lombalgia ao longo da sua vida. Em Portugal, segundo o Instituto Nacional de Estatística, a lombalgia já afeta 43% das mulheres e 30,9% dos homens com mais de 15 anos. E um em cada três portugueses (37,3%) tem dor lombar crónica.

Apesar de ser uma condição já recorrente em Portugal, a pandemia - seja pelas mudanças de estilo de vida ou pela própria covid-19 - veio aumentar as queixas, embora ainda não haja dados oficiais ou estudos que revelem a escala desta associação. Mas já é uma realidade vista em consulta.

“Verificou-se um aumento das queixas osteoarticulares ou músculo-ligamentares em doentes que tiveram covid-19. Temos doentes com situações clínicas osteoarticulares estabilizadas, mas depois da doença tiveram um aumento das queixas, envolvendo a coluna e outras articulações, mas não temos ainda uma explicação completa para isso. Noutros casos, a simples vacinação levou muitos doentes a durante alguns dias manifestarem dores musculares e articulares”, afirma Luís Teixeira.

Um estudo publicado na revista International Journal of Environmental Research and Public Health revela que a pandemia fez, de facto, aumentar os casos de dor nas costas e os períodos de quarentena e isolamento também contribuíram para isso, como revela outro estudo publicado na mesma revista.

Covid-19 agrava queixas

O Inquérito Nacional de Saúde, divulgado em 2020 pelo Instituto Nacional de Estatística, revela que se verificou, nos últimos anos, um aumento da proporção das pessoas com dores lombares e cervicais. “As dores crónicas, designadamente as dores lombares ou outros problemas crónicos nas costas e as dores cervicais ou outros problemas crónicos no pescoço, foram as doenças crónicas referidas com maior frequência em 2019, respetivamente 37,3% e 27,1%. A hipertensão arterial foi referida por 26,4% da população”, lê-se no documento, que contém os dados mais recentes sobre o assunto.

Um estudo de 2017 do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge já tinha revelado que a dor lombar crónica é uma realidade para 36,6% da população com 25 ou mais anos, tendo aumentado com a idade e apresentado um valor maior nas mulheres.

O sedentarismo e o uso constante de dispositivos tecnológicos - quase sempre associados a uma posição incorreta do pescoço - são também fatores a ter em consideração, mas a própria The Lancet, num dos vários estudos e revisões científicas que partilhou sobre o tema, diz que “a maioria das lombalgias não é grave e não pode ser vinculada a uma estrutura específica”.

A pandemia e até a própria covid-19 já são apontadas como uma das responsáveis pelo agravamento da lombalgia ou até pelo surgimento de quadros de queixa de dor. Mas já é possível medir o real impacto? “Sim, conseguimos medir isso pela experiência prática, em que houve um agravamento das dores músculo-esqueléticas, em que se destaca a lombar”, diz à CNN Portugal Armando Barbosa, anestesiologista e diretor clínico da PainCare.

Caminhadas "em pouco ou nada" ajudam a coluna

Armando Barbosa apresenta “vários motivos” para explicar o aumento das dores lombares: “tem a ver com o sedentarismo que aumentou com a pandemia, muitas pessoas ficaram assustadas e nem saíram de casa para procurar ajuda em casos de dor, houve uma perda de massa muscular muito grande, o que a partir de determinada idade tem consequências relevantes, e o teletrabalho também levou a um agravamento das posturas, as pessoas em casa não têm condições ergonómicas para exercer a sua atividade, os computadores não estão na altura correta, as cadeiras não são muitas vezes as melhores”.

O médico Luís Teixeira diz que “o aumento das queixas tem, na sua maioria, a ver com a mudança nos estilos de vida”, frisando também que o teletrabalho e o sedentarismo destes últimos dois anos “aumentam o risco de contratura muscular e agravam as queixas dolorosas”. Por outro lado, continua, “houve uma diminuição significativa” da prática de exercício físico, o que, desde logo, tem impacto não apenas no peso, como na correção da postura e alívio de dores.

“É verdade que as pessoas na pandemia continuaram a fazer caminhadas, mas importa não esquecer que a caminhada, que é importante para membros inferiores e sistema cardiorrespiratório, é muito insuficiente para a coluna, em pouco ou nada contribui, a única melhoria significativa que pode ter é a eventual perda de peso com consequente diminuição da sobrecarga da coluna”, esclarece Luís Teixeira.

Mas a própria doença covid-19 é igualmente apontada pelos dois especialistas como uma das responsáveis pelo aumento de queixas de dor de costas. 

“A covid-19 levou a um agravamento das dores da lombalgia, quando há uma infeção, há uma reação do sistema imunitário que vai tentar eliminar a infeção, mas o sistema imunitário tem um lado negro, pois quando excessivamente provocado pode agravar a doença e atacar áreas que estão previamente com lesões e isso é evidente a nível lombar e cervical. O sistema imunitário acaba por afetar as articulações da coluna e os discos intervertebrais já afetados [por outras condições”, adianta o anestesiologista Armando Barbosa.

Também o médico Luís Teixeira afirma que “houve um aumento de doentes a queixar-se de dores osteoarticulares” após contraírem o vírus SARS-CoV-2. “Mesmo doentes com patologia crónica da coluna estável, depois de ter covid-19, apresentaram um agravamento clínico da situação”, revela, embora diga que não há ainda uma razão “cabal” para esta associação.

Dor rara ou recorrente? Alguns conselhos e tratamentos

Boas posturas, boa alimentação, uso moderado de novas tecnologias - ou atenção ao ‘pescoço de telemóvel’ -, bom descanso e prática regular de exercício físico são os conselhos dados pelos especialistas para evitar a lombalgia. Mas nem sempre é possível prevenir a dor, sobretudo quando esta é sintoma de uma doença ou de um problema degenerativo, por exemplo - embora estes conselhos sejam também válidos para atenuar essa dor.

“Na lombalgia, acima de tudo, é muito importante distinguir dois tipos de dor: a dor rara, esporádica e excecional que é normal, mais de 80% das pessoas com 40 anos já tiveram uma dor lombar sem que signifique uma doença grave; e a dor lombar recorrente, progressiva, que afeta durante o dia e durante a noite, que dá limitações funcionais. Essa deve ser investigada e estudada”, diz Luís Teixeira.

O cirurgião ortopédico diz que “uma larga maioria das dores lombares são absolutamente benignas”, mas que existem “vários casos de dores lombares associadas a degradação de discos intervertebrais, a doenças infeciosas, a doenças degenerativas e a doenças tumorais, podendo ser necessário fazer exclusão de lesões de osteoporose em doentes mais velhos”, explica, reforçando a importância de não ignorar os sinais de alarme e de consultar um médico.

E quanto a sinais de alarme, o médico destaca “as alterações neurológicas, a diminuição da sensibilidade e a dor muscular”. “Isto implica uma consulta por especialista e estudo complementar”, reforça.

“A grande maioria das patologias da coluna é tratada de forma conservadora, com alguma medicação e tratamento de reabilitação funcional, como fisioterapia ou exercício clínico específico. Mas há patologias que continuam a exigir o tratamento cirúrgico, onde houve uma grande revolução nos últimos anos”, diz Luís Teixeira, que deixa claro que as operações não são o bicho papão de outros tempos. Pelo contrário, são mais seguras e menos invasivas.

Quando se está perante uma dor crónica, há três formas de tratar a lombalgia, dependendo da causa e da intensidade da própria dor. E ao contrário do que muitas pessoas pensam, a cirurgia está longe de ser a primeira opção.

Opção 1: Tratamentos conservador (comum para dor aguda)

Esta é a linha inicial do tratamento e inclui a mudança de hábitos - cessação tabágica, alimentação saudável, prática de exercício físico, descanso e melhorias na postura -, a medicina física e de reabilitação - onde há um foco nos exercícios que fortalecem o core e aliviam a tensão lombar - e os medicamentos.

No que diz respeito ao exercício (que muitas pessoas com lombalgia erradamente evitam), o recomendado, diz o médico Luís Teixeira, “são exercícios do fortalecimento dos músculos do tronco. Quando a queixa é lombar são os exercícios abdominais e de alongamento” os mais benéficos, assim como aqueles que garantem “um ganho de flexibilidade”. E dá exemplos do que pode ser feito: “pilates, yoga e alguns exercícios de hidroginástica”.

Opção 2: Técnicas percutâneas

São técnicas médicas pouco ou nada invasivas, cuja incisão é pequena e feita com recurso a agulhas ou cânulas e podem ser feitas por laser ou através de radiofrequência. E não invalidam a conjugação com os tratamentos conservadores, sobretudo no que diz respeito à mudança de hábitos e à adoção de um estilo de vida saudável.

Neste tipo de terapêuticas incluem-se os chamados bloqueios ou infiltrações (em que medicamentos ou anestésicos são administrados diretamente na zona a tratar), a radiofrequência (usada sobretudo no alívio da dor), a crioblação (que usa o frio) e o laser percutâneo.

Opção 3: Cirurgia

Não tendem a ser a primeira opção e destinam-se, sobretudo, ao tratamento de lombalgias cuja causa é conhecida e nos casos em que os tratamentos acima descritos não foram suficientes. Segundo o cirurgião Luís Teixeira, “cada vez mais é possível e mais fácil realizar atos cirúrgicos por pequenos orifícios com baixo índice de agressividade”, aquilo que considera ser a “revolução” mais marcante na área. 

O médico destaca os avanços dos últimos anos que oferecem agora uma “grande segurança com períodos de internamentos muito curtos, menos de 24 horas, e com regresso ao trabalho a curto prazo”, diz.

Ainda no que diz respeito às cirurgias, as que são feitas pela via clássica - incisão é maior e a recuperação é mais lenta - não deixaram de existir e, por vezes, são a melhor opção, mas são as cirurgias por navegação as que ganham mais destaque, uma vez que são menos invasivas e beneficiam do controlo de imagem via TAC durante a operação. Há ainda a cirurgia endoscópica e a robótica, esta última foi realizada experimentalmente no ano passado e conta com a ajuda de um robô - que não substitui o cirurgião, mas auxilia durante a cirurgia. O cirurgião Luís Teixeira foi o primeiro a realizar esta cirurgia na coluna com o robô Excelsius.

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