Informado em todas as frentes, sem interrupções?
TORNE-SE PREMIUM

Como um livro pode mudar uma vida. A biblioterapia “ajuda-nos a perceber que não estamos sós nas nossas emoções”

22 dez 2024, 18:00
Livros numa biblioteca

Sandra Barão Nobre é biblioterapeuta. De forma individual, nas bibliotecas, nos hospitais, nas escolas e nas empresas, usa os livros para trabalhar emoções e ajudar os clientes a enfrentar situações que a vida lhes apresenta ou simplesmente para criar hábitos de leitura em quem a procura. Teresa e Luísa são testemunhas de como um livro pode mudar uma vida

Com 58 anos, na pré-reforma e uma carreira de décadas na área financeira, Teresa (nome fictício) sempre viu nos livros uma forma de terapia. Era uma leitora ávida, quando jovem, mas o hábito foi-se perdendo, com as mudanças que a vida lhe trouxe e outras solicitações a pedirem a sua atenção. Na fase que agora atravessa, sentiu falta de voltar a ler de forma mais assídua, mais consistente e mais consciente.

“Um livro, sobretudo quando é mais emocional, ajuda-nos a perceber que não estamos sós, nas nossas preocupações, nas nossas inquietações e nas nossas emoções. Os livros são uma boa forma de falarmos com outras pessoas sobre nós, sobre o caminho que queremos percorrer”, diz Teresa, em conversa com a CNN Portugal.

Não estava a conseguir recuperar os hábitos de leitura sozinha, nem a fazê-lo da forma consciente de que necessitava. Decidiu procurar ajuda junto de Sandra Barão Nobre, a única biblioterapeuta com dedicação exclusiva em Portugal. “Há médicos e enfermeiros, psiquiatras e psicólogos que aplicam biblioterapia com os seus pacientes, mas com dedicação exclusiva, que eu tenha conhecimento, sou a única”, diz Sandra Barão Nobre, que teve sempre um percurso profissional ligado aos livros e fez formação específica em biblioterapia.

“Tive a oportunidade de fazer um pequeno curso de biblioterapia para crianças na universidade do Porto. E fui trabalhando na minha formação sempre numa lógica de autodidatismo. Em 2021, surgiu a grande oportunidade de fazer uma formação ‘a sério’, na Universidade Comunitária da Região de Chapecó, no Brasil. Fiz uma pós-graduação em Biblioterapia e Mediação da Leitura Literária”, especifica.

O início

Dando uns passos atrás na história, Sandra Nobre conta que tomou contacto com a biblioterapia quando estava a trabalhar na Wook, onde foi gestora de conteúdos durante 15 anos. “Houve um dia em que me passou pelas mãos um livro em inglês – ‘The Novel Cure’, de duas biblioterapeutas britânicas. Achei o título curiosíssimo e, ao explorar mais sobre o livro, fiquei estarrecida ao perceber que havia pessoas que viviam disto”, conta.  

Sandra Barão Nobre é biblioterapeuta. (Foto: Divulgação)

“A noção terapêutica da leitura e das histórias eu tinha-a enquanto leitora. Quando escolhia livros para ler, de acordo com o meu estado de espírito, de acordo a minha fase da vida. E também escolhia livros para oferecer assim. Pensei, na altura, que podia ser este o meu caminho. Percebi que havia estudos e artigos científicos sobre o assunto e que a biblioterapia vinha, pelo menos, desde o século XVIII”, acrescenta.

A descoberta, em 2014, coincidiu com um marco importante da vida de Sandra. Completava-se uma década de sobrevivência a um autotransplante de medula óssea e decidiu comemorar a data com uma viagem pelo mundo. Tirou uma licença sem vencimento e partiu à aventura: “A biblioterapia viajou comigo. Fiz essa viagem com uma amiga e falei muitas vezes nisso”.

“Em fevereiro ou março de 2015 demiti-me, para me dedicar à biblioterapia”, resume.

Em outubro deste ano, participou no primeiro congresso europeu de biblioterapia, em Budapeste, e confirmou o fascínio: “Eramos mais de 100 biblioterapeutas e tive a oportunidade de ser palestrante”.

Biblioterapia não é coaching nem psicoterapia

Pelo meio, Sandra Barão Nobre tirou um certificado de coaching, mas nunca exerceu. “Eu não sou coach, mas ele permite-me treinar, por exemplo, a escuta ativa e a traçar finalidades e objetivos”, reconhece.

Sandra até pode ir ‘beber’ conhecimento à formação que fez em coaching, mas a biblioterapia está longe de ser coaching. Ajuda pessoas a gerir emoções e a traçar caminhos de vida, mas também está longe de ser psicoterapia.

“Não exerço biblioterapia clínica. Posso até trabalhar com pessoas com condições do foro mental, que, em paralelo com o trabalho que fazem com os seus médicos regularmente, podem usar mais esta ferramenta, mas não sou profissional de saúde e tenho sempre a preocupação de que esse acompanhamento da psiquiatria ou da psicoterapia exista”, insiste em deixar claro.

“Trabalho numa ótica de prevenção. Trabalho com pessoas em princípio saudáveis. Mas todos temos desafios no nosso dia a dia. Trabalho para manter um estado de equilíbrio. Mas tenho pessoas que, por estarem deprimidas há muito tempo ou sofrerem de estados de ansiedade, voltaram a ler porque sentem os efeitos da leitura no corpo. Relaxa-as”, reforça.

De acordo com Caroline Shrodes, no livro de 1949 “Bibliotherapy: a theoretical and clinical-experimental study”, biblioterapia é “um processo de interação dinâmica e de carácter psicológico entre a personalidade do leitor e a literatura, que pode ser utilizado para a avaliação dessa mesma personalidade e contribuir para o seu ajustamento e desenvolvimento”.

A biblioterapia utiliza os livros e a leitura para proporcionar alívio dos sintomas de ansiedade e depressão. Baseia-se no princípio de que, quando lemos uma história ou um texto, exercitamos o cérebro e mergulhamos na história, enfrentando os nossos problemas e as nossas emoções através das personagens. Os livros permitem ao leitor compreender a situação pela qual está a passar, tornando-se numa forma eficiente de ajudar quem tem dificuldade de falar sobre o que sente.

Afinal, o que faz um biblioterapeuta?

A prática da biblioterapia consiste na leitura de textos e na interpretação do que foi lido. Sandra tem sempre uma primeira conversa com os clientes, gratuita, em que faz questão de os esclarecer “muito bem” sobre o que faz. “Esta primeira sessão dura 60 a 90 minutos. Confesso que não estou muito agarrada ao tempo neste primeiro encontro. Quero conhecer bem a pessoa, os objetivos, as necessidades. Faço um relatório, partilho parte desse relatório com a pessoa, e com base nos seus objetivos e necessidades, traço-lhe uma lista de sugestões de leitura. Tenho em conta sempre os hábitos de leitura e os ritmos de leitura da pessoa. Incluo ficção, poesia, acho as biografias e as autobiografias muito poderosas, mas também ensaios, alguns livros de História”, revela.

Dessa lista, o cliente é convidado a escolher um primeiro livro e a comprometer-se com um prazo para a sua leitura. “Quando a pessoa se sentir à vontade, depois dessa primeira leitura, marcamos uma sessão, em que refletimos sobre a importância daquela leitura para ela e sobre as lições que tirou dali. Depois, vou orientando as pessoas dessa forma. Fazendo sempre a ponte entre a leitura e a vida do cliente e os seus objetivos. A partir do momento em que passam pelo processo de seis meses ou um ano, adquirem ferramentas para a leitura na ótica da biblioterapia pela vida fora”, acrescenta.

A “esmagadora maioria” dos clientes de Sandra são mulheres. Têm entre os 30 e os 70 anos. “A minha cliente mais velha tem 76 anos”, sublinha.

A biblioterapeuta tem também um serviço a que chama “biblioterapia expresso”. “Os clientes preenchem um pequeno inquérito, que me dá umas pequenas luzes para lhes fazer as minhas sugestões. Neste serviço, aparecem as adolescentes. São as mães ou os pais que me compram este serviço para os filhos. E são quase sempre meninas que me aparecem”, relata.

A “publicidade” de quem reaprende a ler

Teresa prefere o anonimato “por razões profissionais”, mas garante que tem feito “muita publicidade” do trabalho de Sandra Barão Nobre. “Não a procurei por nenhuma necessidade específica, mas o facto de aprender a ler de outra forma, de uma forma mais ativa, tem-me ajudado a trabalhar a trabalhar uma série de questões, como a memória, ser mais focada. E esta identificação com as personagens e com as suas circunstâncias é uma base para podermos suscitar e apaziguar muitas das nossas emoções e das nossas vivencias”, reconhece.

Teresa trabalha com Sandra há poucos meses e está ainda no início do processo, mas garante que as escolhas que a biblioterapeuta fez para si foram acertadas. “A conversa inicial que temos é um ponto de partida para a biblioterapeuta nos recomendar os livros é muito interessante e eu revi-me muito naquela análise que ela fez de mim. São livros que tenho gostado imenso e que me têm trazido muitas emoções e me têm tocado de uma forma ou de outra”, admite.

O trabalho nos hospitais

Sandra sublinha que não é profissional de saúde, mas já levou a biblioterapia ao hospital. “Já fiz leitura de cabeceira com pessoas internadas em meio hospitalar e já trabalhei, durante um ano e meio no Centro Materno Infantil do Porto, com bebés prematuros e os seus pais. Incentivava os pais a lerem em voz alta para os bebés”, recorda.

“Só tive a possibilidade de observar os resultados a curto prazo desta experiência. Era possível constatar que os bebés se acalmavam imediatamente e que uma série de parâmetros que normalizavam. Não era pela história que estava a ser lida, era pela voz dos pais. A leitura tem uma certa melodia, uma certa cadência. O ouvir a palavra a ser dita tem também um impacto cognitivo, mas isso não é observável imediatamente. Teria de haver um acompanhamento das crianças após a alta e isso não foi possível por falta de financiamento para o projeto”, diz.

Sandra lembra que os livros têm impacto também nas crianças saudáveis e que há estudos internacionais que concluem que os bebés a quem se leem histórias começam a vocalizar mais cedo, a falar mais cedo e adquirem mais facilmente vocabulário.

Também já levou a biblioterapia para as empresas e essa será, promete, uma aposta para o novo ano: “Gostava que a biblioterapia estivesse mais presente nas empresas portuguesas. Em 2025, vou ter de investir mais nisso”.

O trabalho em grupo

Sandra Barão Nobre escreveu o primeiro livro sobre biblioterapia em português. (Foto: divulgação)

Sandra Barão Nobre dá também formação em bibliotecas, onde lhe aparece sobretudo “bibliotecários e professores” e leva o conceito às escolas, onde trabalha com os alunos.

A professora Luísa Teles é responsável pelas bibliotecas das escolas por onde tem passado há 13 anos. Assume-se como fã incondicional do trabalho de Sandra. “Tomei contacto com a biblioterapia quando estava a fazer uma pós-graduação em gestão de bibliotecas, há 12 anos. Nessa pós-graduação surgiu um módulo de biblioterapia. Foi lá que conheci a Sandra. Voltei a encontrá-la posteriormente num encontro de bibliotecas. Conversámos e ficámos logo com isso marcado para a escola onde estava onde eu estava na altura”, recorda.

“Decidimos começar com os alunos dos cursos profissionais. Com uma turma de 10 ano, que depois seguiu para o ano seguinte. Depois, outra turma do ensino regular assistiu à sessão e pediu para aderir. Foi um projeto muito acolhido. No primeiro ano, fizemos três sessões, uma por período e no ano seguinte, fizemos duas”, conta.

Luisa Teles sublinha que “não são sessões para trabalhar em grande massa” e que eram sempre preparadas previamente. Em colaboração com o professor de português ou com o diretor de turma, traçavam o perfil da turma, com base num questionário previamente enviado pela biblioterapeuta. Com base nesse perfil, Sandra Barão fez uma seleção de textos que entregava aos alunos e trabalhava com eles. “Os alunos, muitos até com problemas comportamentais e de instabilidade, aderiram muito bem enquanto grupo. Ela estabelecia regras muito claras de funcionamento dos grupos que eles aceitavam muito bem. No final até lhe pediram sugestões de leitura”, recorda a professora bibliotecária.

Sandra Barão Nobre colocou agora em livro alguns dos conselhos que dá nas consultas, nas palestras e nas formações que dá. “Ler Para Viver – Como a biblioterapia pode melhorar as nossas vidas”, prefaciado pela escritora Isabela Figueiredo, está nas bancas desde meados de 2024. É o primeiro livro sobre biblioterapia escrito em português.

O que a faz continuar são feedbacks como os de Teresa ou de Luisa Teles. “Fico muito contente quando as pessoas me dizem que voltaram a descobrir o prazer de ler e a recuperar os hábitos de leitura”, resume a biblioterapeuta.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Saúde Mental

Mais Saúde Mental