A autora define o livro como uma obra que emerge de um movimento de aproximação à sua própria biografia familiar, após ter escrito a biografia de Natália Correia
Filipa Martins regressa à ficção com “No meu fim está o meu começo”, um romance que cruza memória íntima com memória histórica e nasce de uma “urgência cívica”, em tempos de tentativa de branqueamento e simplificação do passado.
Oito anos depois do seu último romance, “Na memória dos rouxinóis”, e com a biografia de Natália Correia pelo meio, Filipa Martins volta ao romance, virando-se pela primeira vez para a sua intimidade e biografia familiar.
“No meu fim está o meu começo”, que será publicado na terça-feira, pela Quetzal, é uma obra que a autora rejeita etiquetar com expressões como “autoficção” ou “biografia ficcional”, mas que é efetivamente inspirada em histórias da sua família e que “estavam latentes” dentro de si desde sempre, contou a escritora, em entrevista à agência Lusa.
Inspirado num verso de T.S. Eliot, o título acabou por se impor como uma síntese da obra, uma vez que essa ideia de ciclo, de fim e recomeço, estrutura o romance.
“Há poetas extraordinários e conseguem dizer em apenas dois versos aquilo que os romancistas muitas vezes demoram 200 páginas para dizer (…). As cidades erguem-se e são destruídas, mas dos escombros nascem novos edifícios habitados e novas histórias”, afirmou, vendo nessa imagem uma metáfora da transmissão geracional e da relação entre passado, presente e futuro.
A autora define o livro como uma obra que emerge de um movimento de aproximação à sua própria biografia familiar, após ter escrito a biografia de Natália Correia.
“Senti a necessidade de sair da grande figura histórica e entrar na história íntima da minha biografia familiar”, explica, sublinhando que memórias transmitidas oralmente na infância ganharam, mais tarde, um peso histórico e simbólico.
“Há memórias que recebemos durante a infância, a juventude, quando ainda estamos numa fase de formação e uma fase formativa, e não compreendemos o seu peso; [memórias] que ouvimos à mesa da cozinha, entre vizinhas, nos encontros de família e pela repetição tornam-se quase episódios banais e, só mais tarde, entendemos que fazem parte de um arco maior, que é o arco da História. Neste romance, eu acho que a intimidade e a política, no sentido mais lato, respiram pelas mesmas feridas”.
Filipa Martins recorda que cresceu rodeada de mulheres com histórias de resistência quotidiana, mas que muitas vezes “não tinham palavras para dizer o que lhes aconteceu”, e são essas histórias de gerações passadas de mulheres que revisita e, de alguma maneira, dialoga com elas.
Na opinião da escritora, o poder não se exerceu apenas nas instituições, mas também na vida doméstica e nos corpos, “o poder organizava os afetos, os silêncios, as soluções familiares”.
Filipa Martins sublinha que muitas dessas experiências foram atravessadas por uma “pedagogia de silêncio”, comum a várias gerações de mulheres.
“Dar nome às coisas é em si um gesto político”, considera, sublinhando que, na ausência de palavras, “instala-se uma espécie de confusão moral” em que a violência “parece quase um destino, uma fatalidade”.
A este propósito, a autora evoca episódios de violência silenciada, referindo que muitas mulheres não tinham sequer linguagem para nomear o que lhes acontecia.
Recorda histórias familiares que inspiram o romance, como a da avó, que trabalhou nas minas de volfrâmio e foi vítima de violência sexual sem a reconhecer como tal, num contexto em que “parecia que era a condição feminina”, marcada por silêncio e submissão.
“Nestes relatos, quem ouve cuida sempre de questionar a atitude da vítima”, escreve a autora no romance, acrescentando mais à frente que à mulher “foi traçado o destino e a função (…) ser um corpo cooperante, maleável, mas também barreira aos golpes fatais”, como acontece com a mãe da protagonista – inspirada na figura da avó - que “nunca foi violada porque não conhecia a palavra ‘violação’”.
“Eu cresci a ouvir as histórias de mulheres analfabetas, a minha avó morreu analfabeta, a pedir à vizinha para lhes ler a carta do Governo que anunciava a morte do filho no Ultramar, esta brutalidade tremenda, em receber a pior notícia que uma mãe pode receber, através da voz de outra pessoa; as histórias de pobreza aceite, a escassez quase como destino, e as mulheres eram estas economistas quase invisíveis que geriam a fome, a falta de roupa, os filhos, a doença, sem muitas vezes terem um salário ou um reconhecimento”.
O romance acompanha Isabel, enfermeira, filha de pai incógnito, que cuida da mãe em processo de demência enquanto revisita a sua própria história.
A ausência paterna surge como uma presença constante na narrativa, “define-se pelo que não se sabe”, afirma a autora, acrescentando que a personagem vive entre memórias fragmentadas que “não consolam, só corroem”.
A demência da mãe da protagonista ecoa também uma experiência pessoal da autora, já que Filipa Martins acompanhou de perto o processo de doença da avó, que “morreu com demência, com Alzheimer”, recorda, destacando a experiência de “despersonalização” e o impacto do papel de cuidador.
“O que me recordo é da figura da mulher, neste caso da minha mãe, enquanto cuidadora”, diz, apontando para uma repetição geracional desse papel feminino.
“Há aqui um desígnio feminino que se perpetua de que a mulher tem de cuidar primeiro dos filhos, porque é concebível a maternidade sem paternidade, e depois dos mais velhos, sem que esse trabalho seja reconhecido, monetizado, colocado na balança social como contributo. E lembro-me de chegar à conclusão de que há um lugar em que amar significa suportar também, e em que o corpo do outro também passa quase a ser uma agressão”.
Para a autora, a sociedade “não está preparada para algo que é inevitável, que é a decadência e a morte”, sendo esse trabalho muitas vezes assegurado por mulheres em silêncio e sem reconhecimento.
O livro cruza ainda esta dimensão íntima com uma reflexão sobre desigualdade social e memória coletiva, numa leitura que se estende também ao passado político, com a autora a alertar para o que considera ser uma tendência de reinterpretação do Estado Novo e de desvalorização das conquistas democráticas.
“Este livro não nasce apenas de um desejo, vamos chamar, artístico ou então de fazer justiça ou homenagem à minha história de família, eu acho que nasceu também de uma obrigação moral de não deixar desaparecer estas vidas sem testemunho, num tempo em que a memória histórica está a ser simplificada ou romantizada ou apagada”, afirmou, lamentando que “há hoje quem deseje sem vergonha três Salazares”, ignorando a dimensão quotidiana da opressão.
“A política entrava pela cozinha das pessoas, por aquilo que conseguiam pôr na mesa, condicionava os gestos, condicionava o corpo. Não era só uma questão de liberdade de pensamento ou de discurso, e este livro tenta mostrar isso, que a intimidade e a política nunca estiveram separadas”.
Nesse sentido, o livro procura também contrariar o apagamento da memória histórica, porque “quando uma sociedade esquece o que sofreu, corre o risco de desejar de novo aquilo que a feriu”, observa, alertando para uma tentativa de “domesticação do 25 de Abril”.
O romance articula ainda uma reflexão sobre herança e trauma, que Filipa Martins descreve como “heranças invisíveis, aquilo que recebemos sem consentimento”, incluindo “o sangue, a vergonha, o silêncio, a violência”.
Essas marcas atravessam gerações e revelam a extensão da violência pública para a privada, pois “era a mesma mão que autorizava a agressão política, que depois tolerava a agressão doméstica”.
Apesar da dureza dos temas, a escritora identifica no romance uma possibilidade de transformação, no momento em que a protagonista percebe que o ciclo de repetição pode ser quebrado e que a mudança pode acontecer entre gerações.
No final, “há uma porta que se abre, uma brecha pela qual entra a luz”, refere, sublinhando que a nova geração pode interromper padrões de silêncio e violência.
Filipa Martins resume o romance como uma tentativa de cruzar a “pequena história” com a “grande história”, num gesto que nasce tanto de necessidade pessoal como de responsabilidade coletiva.
“A ficção tem esse enorme poder, quando a memória nos falta. Eu acho que estamos a viver uma crise de memória, e a literatura pode ser testemunha”.