O romance “Âncora”, de Katya Delimbeuf, aborda a identidade portuguesa e a ligação a África, numa narrativa sobre raízes, memória e descoberta pessoal
O romance “Âncora” marca a estreia literária de Katya Delimbeuf, que nele reflete sobre a identidade portuguesa, defendendo que “o imaginário africano faz parte” dela.
“O imaginário africano está muito interligado à identidade portuguesa, é difícil separar as duas coisas”, afirmou à agência Lusa a antiga jornalista, nascida em Lisboa filha de pai francês e mãe portuguesa.
“Ainda hoje ou através dos nossos pais ou dos nossos avós, uns que fizeram a guerra colonial, outros que viveram nos diversos países, antes do 25 de Abril e que trouxeram muitas memórias, acho que isso está muito presente em Portugal e na identidade do português, hoje”, argumentou a escritora, nascida em 1978.
Delimbeuf acrescentou: “Portugal foi, desde as descobertas, um país muito virado para o mundo, para fora, para a viagem, para a odisseia marítima, para o encontro com o outro, e eu acho que isso em África é particularmente visível”.
“Âncora” é um livro “sobre a identidade, sem dúvida, mas também sobre as raízes”, segundo a autora.
“É um livro em que questionamos quem somos. As personagens levam-nos numa viagem que nos faz questionar se somos o que somos por causa do nosso ADN, por causa das nossas vivências, ou por causa do olhar do outro, mas também que vai às nossas raízes, onde há muitos cruzamentos entre Portugal e África”, afirmou.
As duas personagens do livro, Laura e Afonso, encetam uma viagem, respetivamente, a Moçambique e a Cabo Verde, “mas também uma viagem interior”. Afonso, após alguma reflexão, parte num barco até à ilha cabo-verdiana de Brava “na busca de uma peça que lhe falta para completar o seu ‘puzzle’ existencial”.
Já Laura “embarca numa viagem interior tropeçando num elemento que a vai fazer colocar em dúvida tudo o que achava sobre si própria, depois também empreende uma viagem a Moçambique, mas no caso dela, as descobertas acontecem todas sem ela estar à procura”. Esta questão distingue os dois protagonistas.
A autora reconhece que - “porventura” - se pode encontrar um padrão neste tipo de comportamento, a personagem feminina mais reflexiva, introspetiva, enquanto a masculina mais voltada para a ação, mas Afonso “toma essa decisão de viajar depois de uma busca terapêutica”.
“Ele age numa derradeira tentativa de se encontrar e de se permitir ser feliz, fechar um pouco um ciclo”, referiu.
O outro protagonista, Laura, é terapeuta, “por definição, o quotidiano dela é ouvir, pensar, analisar, por natureza é mais introspetiva, não por ser mulher”, acrescentou.
Este livro foi a concretização de um sonho, de uma vontade antiga da autora, cujo percurso esteve sempre ligado à escrita: foi jornalista durante 17 anos no semanário Expresso, colaborou com vários outros meios de comunicação, entre eles, os canais televisivos franceses Plus e TF1, o jornal National Post Canada e várias revistas. Foi também formadora na área da escrita de viagens.
“Um livro era algo que estava no meu horizonte pessoal, na minha lista de objetivos e de sonhos há muitos anos, mas por uma questão de falta de tempo – porque um livro pede tempo”, disse a autora, que dedicou ano e meio para escrever este romance.
“Eu percebi que não conseguia acumular a escrita de um livro com um emprego regular, com horários e solicitações permanentes, pois não tinha espaço livre no meu cérebro para criar uma história com toda a entrega que é necessária”, afirmou.
A autora “gostava muitíssimo de continuar a escrever” e conseguir viver “só dos livros e projetos de escrita”.
Com um forte formação francesa, Delimbeuf afirmou que os seus afetos “são 100% portugueses”. “Se Portugal jogar uma partida de futebol com a França, eu torço é por Portugal”, disse.