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"Carne fácil": projeto polémico de navios de combate litoral da Marinha dos EUA entra na reta final

CNN , Brad Lendon
28 mai, 11:47
O futuro USS Cleveland (LCS 31) chega a Cleveland, Ohio, a 9 de maio de 2026, antes da cerimónia de entrada em serviço.
Marinha dos EUA
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Depois de os navios terem sido afetados por uma série de falhas mecânicas e incidentes desde que o primeiro foi comissionado em 2008, ganharam uma interpretação depreciativa da sigla LCS: “little crappy ships” (barquinhos de brincar)

A Marinha dos EUA comissionou o último dos seus 35 navios de combate litoral, o USS Cleveland, no início deste mês num cais na cidade homónima do estado de Ohio.

“Aço. Resistência. Potência”, escreveu nas redes sociais o secretário interino da Marinha, Hung Cao, para assinalar a ocasião.

Os críticos do programa dos navios de combate litoral (LCS) tinham outras descrições.

“Carne fácil”, disse um.

“Uma experiência que não funcionou”, referiu outro.

O preço do programa está estimado em 60 mil milhões de dólares, mas um relatório de 2023 do site de jornalismo de investigação ProPublica afirmou que o custo final poderá ultrapassar os 100 mil milhões.

“Um dos piores desperdícios na longa história militar de aquisição de sistemas de armas sobrevalorizados e com fraco desempenho”, referia o relatório da ProPublica.

Os LCS situam-se no que a Marinha chama de “low-end” da sua frota de navios de superfície. São mais pequenos do que os contratorpedeiros lançadores de mísseis guiados, têm menos tripulação e menos poder de fogo e defesa, mas são mais rápidos e conseguem operar em águas mais rasas.

Mas depois de os navios terem sido afetados por uma série de falhas mecânicas e incidentes desde que o primeiro foi comissionado em 2008, ganharam uma interpretação depreciativa da sigla LCS: “little crappy ships” (barquinhos de brincar).

Depois de o Cleveland ter entrado na frota no último fim de semana nas margens do lago Erie, a grande questão passou a ser: o que fazer agora com os LCS?

Como chegámos aqui

Os LCS tiveram origem por volta da viragem do século, quando os planeadores navais procuravam uma plataforma mais pequena para operar em ambientes costeiros, onde as condições poderiam tornar navios maiores, como os contratorpedeiros, vulneráveis, segundo um relatório da Marinha de 2017.

O serviço enfrentava também a retirada de navios mais antigos e maiores e procurava formas de manter o tamanho da frota com navios de combate de superfície mais pequenos que pudessem ser construídos mais rápida e economicamente do que embarcações maiores, refere o relatório.

O então Chefe de Operações Navais, almirante Vern Clark, decidiu avançar com os LCS, um navio de guerra diferente de tudo o que a Marinha tinha adquirido antes.

E isso poderá ter sido parte do problema.

Os críticos argumentaram que “o almirante Clark decidiu primeiro que precisava de um navio e só depois tratou de perceber o que esse navio faria”, refere um relatório de 2014 do então subsecretário da Marinha Robert Work.

Nesse relatório, escrito para explicar as origens e complicações do programa LCS, Work afirmou que a Marinha recebeu o navio que pediu — “e, em alguns aspetos-chave, um navio melhor do que o esperado”.

Mas reconheceu que o desenvolvimento do navio foi “marcado por mudanças constantes” que obscureceram o seu papel e o tornaram alvo de críticas.

A Marinha reconheceu que estava a tentar algo diferente com os LCS.

“O programa LCS marcou uma mudança significativa na forma como a Marinha aborda a construção naval e a modernização da frota, enfatizando flexibilidade, rapidez e construção eficiente em termos de custos”, refere uma ficha informativa da Marinha, acrescentando que os navios deveriam ser rapidamente reconfigurados conforme as missões — contramedidas a minas, guerra antissubmarina ou guerra de superfície — mudassem.

A tripulação da Marinha dos EUA em posição de sentido enquanto o USS Freedom atraca na Base Naval de Changi, em Singapura, em 18 de abril de 2013. O USS Freedom foi o primeiro navio de sua classe a ser implantado na Marinha dos EUA. (Wong Maye-E/AP)

Mas o serviço não se fixou num único modelo e acabou por construir duas variantes: a classe Freedom, de casco único em aço — como o USS Cleveland — e a classe Independence, de casco trimarã em alumínio.

Uma ficha informativa da Marinha indica que se esperava escolher apenas um modelo entre propostas da Lockheed Martin e da Austal USA, mas acabaram por ser escolhidas duas variantes após a competição entre ambas ter resultado num processo de construção naval “altamente eficiente”.

Mas duas variantes complicam a logística e as cadeias de abastecimento, dizem críticos.

A classe Independence é a maior das duas, com 422 pés de comprimento e 104 pés de largura, contra 388 pés de comprimento e 58 pés de largura da classe Freedom. Esta última tem maior deslocamento, com 3.450 toneladas métricas contra 3.200.

Nenhuma utiliza hélices ou lemes; em vez disso, turbinas a gás alimentam jatos de água de alta velocidade. O design permite aos LCS operar em águas costeiras mais rasas e evitar ficar presos em fios ou cabos, como os que podem prender minas.

Um comandante dos LCS chegou a descrevê-los como “uma mota de água militar com convés de voo e uma arma”.

Em 2008, o primeiro LCS de casco único, o USS Freedom, foi comissionado. Em 2010, seguiu-se o primeiro trimarã, o USS Independence.

Problemas acumulam-se

Os LCS foram concebidos como um componente-chave do poder naval dos EUA em áreas que dominam as notícias atuais, como o Golfo Pérsico, onde os EUA e Israel estão em guerra com o Irão, e o Mar do Sul da China, onde os EUA e aliados defendem a liberdade de navegação.

Os primeiros defensores do navio chamaram-lhe um “streetfighter”, segundo o relatório da Marinha: rápido e capaz de combater ataques de pequenas embarcações, mas também versátil o suficiente para caçar minas como as que o Irão alegadamente colocou no Estreito de Ormuz.

Mas os problemas começaram a acumular-se. Em janeiro de 2016, o USS Fort Worth sofreu danos no sistema de propulsão em Singapura. Embora mais tarde se tenha concluído que o problema foi erro humano, o navio, com apenas quatro anos, ficou inoperacional durante oito meses.

Uma aeronave A-10 Thunderbolt II da Força Aérea dos EUA fornece apoio aéreo aproximado ao navio de combate USS Santa Barbara, da classe Independence, durante um exercício no Golfo Pérsico, em 2 de fevereiro de 2026. (Petty Officer 2nd Class Iain Page/U.S. Naval Forces Central Command)

O incidente foi um de quatro problemas mecânicos na frota LCS num ano, prejudicando a reputação da sua fiabilidade.

À medida que os problemas dos LCS se tornavam evidentes, os responsáveis da Marinha consideraram que o dinheiro orçamentado para o programa poderia ser melhor utilizado noutros projetos.

Em 2021, começou a desativação dos navios mais antigos — um total de sete até à data — incluindo o USS Sioux City, desativado em 2023 após apenas cinco anos de serviço, numa frota onde se espera que os navios durem 25 anos.

Um oitavo, o USS Fort Worth, deverá ser retirado em julho, mas o Congresso bloqueou planos para desativar mais unidades, invocando a necessidade de navios e a proteção do investimento público de milhares de milhões de dólares.

Assim, a Marinha continua a tentar tirar o melhor partido de navios que os seus próprios responsáveis não queriam há poucos anos.

Um helicóptero da Marinha pousa no porta-aviões USS Independence nas águas próximas a Honolulu, na quinta-feira, 24 de julho de 2014. (AP)

O plano de construção naval de 2026, divulgado este mês, descreve os LCS como uma capacidade “essencial de baixo nível”, capaz de “complicar as decisões do adversário”, referindo que podem ser eficazes em contramedidas a minas e armados com o míssil Naval Strike para guerra de superfície.

“A estratégia para os LCS é uma transição da aquisição para a sustentação e modernização, para manter estes navios relevantes, com credibilidade de combate e fiabilidade ao longo do seu ciclo de vida”, refere o plano.

Os analistas mostram-se céticos.

“O que ainda está por ver é quão úteis seriam realmente num cenário de combate, uma vez que nunca participaram num”, disse à CNN Emma Salisbury, investigadora sénior não residente do programa de segurança nacional do Foreign Policy Research Institute.

A investigadora afirmou não haver provas de que, na guerra atual com o Irão, os três LCS destacados para o Médio Oriente para operações de desminagem tenham cumprido essa função. Questionado pela CNN, o Comando Central dos EUA disse não poder comentar o papel dos LCS no conflito.

Quando o Comando Central anunciou em abril o início da preparação para limpeza de minas no Estreito de Ormuz, não foram LCS, mas contratorpedeiros, os primeiros a atravessar a via marítima.

Desde o início da guerra, pelo menos dois dos três LCS destacados no Golfo para desminagem foram vistos tão longe como a Malásia e Singapura.

Carl Schuster, antigo capitão da Marinha dos EUA, disse à CNN que os LCS não têm defesas antiaéreas suficientes para desempenhar um papel real em cenários de guerra em águas contestadas.

Embora a Marinha tenha afirmado em 2025 ter começado a reforçar as defesas dos LCS contra drones, Schuster não está convencido.

“São carne fácil para um míssil de cruzeiro, drone ou plataforma aérea”, disse.

“Estão praticamente indefesos em qualquer cenário de ameaça. Até patrulhas anti-pirataria são perigosas em áreas com ameaças aéreas, drones, mísseis ou ataques em enxame”, afirmou.

Para Salisbury, os LCS são “um experimento que não funcionou como anunciado, por isso a Marinha faz o melhor que pode com o que tem”.

Ambos, Salisbury e Schuster, veem os LCS sobretudo como soluções temporárias para a Marinha, destinados a dar lugar a uma nova geração de fragatas anunciada em dezembro passado.

Esses navios, conhecidos por agora como FF(X), serão baseados nos navios de segurança nacional da classe Legend da Guarda Costeira. Serão maiores do que os LCS, com 4.750 toneladas de deslocamento, segundo um documento da Marinha apresentado num simpósio naval em janeiro e citado pela Naval News.

Um anúncio da Marinha de dezembro de 2025 indica que a instituição espera ter o primeiro casco na água até 2028. A Marinha poderá vir a operar entre 50 a 65 dessas novas fragatas, segundo a Naval News.

Schuster não prevê um futuro longo ou promissor para a frota LCS.

“Serão mantidos até que as novas fragatas entrem em serviço dentro de 3 a 4 anos… Depois serão discretamente retirados, um ou dois de cada vez.

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