Ultrapassados por bicicletas e trotinetes, buzinados no fim: fomos andar de carro a 30km/h com a vereadora de Lisboa que o propõe

18 mai, 18:50

O Livre propôs e a oposição na Câmara de Lisboa aprovou. A vontade é reduzir a velocidade máxima na capital, com os carros a circularem a 30 ou 40 km/h fora das vias estruturantes. A vereadora Patrícia Gonçalves entrou a bordo do carro da CNN Portugal para andar em Lisboa ao ritmo que o partido deseja. Carlos Moedas está longe de ser um apoiante disto

Patrícia Gonçalves, vereadora do Livre na Câmara de Lisboa, confessa que não testou propositadamente as velocidades máximas de antes de apresentar a proposta. É na sua experiência como condutora na capital que assenta a posição neste tema. “A velocidade média em que me consigo deslocar em Lisboa é relativamente baixa. É da ordem dos 30, 50 quilómetros por hora no máximo.”

A viagem, a bordo do carro da CNN Portugal, começa no Martim Moniz em direção à Avenida Almirante Reis. Aplicando-se os limites do Livre, o percurso inicia-se nos 30 km/h na Rua da Palma, considerada uma via de terceiro nível. Só ao chegar ao Intendente, com a transformação formal na Almirante Reis, é que se tornaria possível circular a 40 km/h, por ser considerada uma via interna de escoamento de trânsito. Hoje são permitidos mais 10 km/h.

O percurso ainda agora começou e o carro, no meio de um pára-arranca fora da hora de ponta, é ultrapassado por uma trotinete na ciclovia. Patrícia Gonçalves explica os objetivos da proposta: reduzir as emissões, a dependência dos combustíveis russos num contexto de guerra e melhorar a qualidade de vida na cidade. “Que tenhamos qualidade de vida sem o automóvel a dominar o espaço público.”

O ciclista com pequeno-almoço reforçado

Ao entrarmos na Almirante Reis o nome de Carlos Moedas é trazido à conversa, numa artéria que tem trazido muitos dissabores ao autarca de Lisboa. Patrícia Gonçalves ainda não teve oportunidade de discutir a proposta - aprovada pela oposição - com o presidente ou com o seu executivo. E admite que há falta de “vontade política”.

“Foi apresentada a 11 de abril à Câmara. E só foi levada à reunião a 11 de maio. O que quer dizer que houve um mês para se fazer a discussão da proposta com os intervenientes do executivo e não houve essa reunião feita, nem com o presidente da Câmara nem com o vereador. Não nos contactaram, não tentaram discutir.”

Enquanto a conversa decorre uma bicicleta ultrapassa pela ciclovia o carro da CNN Portugal. A vereadora do Livre faz uma piada, dizendo que o pequeno-almoço do ciclista foi “reforçado”.

Voltando à política: a proposta do Livre, além da resistência na Câmara, está a deixar os empresários agitados. E o Automóvel Clube de Portugal vai avançar com uma providência cautelar para evitar as mudanças. Mas o certo é que não há uma proposta concreta ainda, lembra esta porta-voz do Livre. Cabe ao gabinete do vereador com o pelouro da mobilidade, o social-democrata Adão Pereira, regulamentar essa vontade da coligação negativa na autarquia. Moedas diz que só avança com estudos feitos.

“Acho muito bem que ele estude porque esse é o trabalho deles, do senhor presidente da Câmara e dos vereadores com o pelouro. Porque são eles que têm os serviços sob a sua alçada e são esses serviços que têm os técnicos que podem fazer esses estudos. Nós estamos a fazer proposta política”, diz Patrícia Gonçalves.

Pára-arranca não gasta mais combústivel?

Na Almirante Reis, mesmo circulando abaixo dos 40 km/h que o Livre propõe, é necessária uma travagem mais brusca. O sinal ficou vermelho. E Patrícia Gonçalves aproveita a situação para lembrar a grande prioridade desta proposta: evitar acidentes e mortes. A vereadora socorre-se de uns gráficos que integram um estudo da Prevenção Rodoviária Portuguesa. Neles pode ver-se que a probabilidade de morte a 50 km/h é de 45%. A 30 km/h cai para os 5%. “É o tempo de reação humana e o tempo de paragem dos carros.”

Há muito carro para se lidar: em Lisboa entram diariamente cerca de 370 mil veículos. “Não podemos ter as taxas de trânsito e a poluição que temos. O que é preciso é que os transportes sejam melhorados e articulados” -  como os dois autocarros cujas paragens na Almirante Reis obrigam o trânsito, incluindo a viatura da CNN Portugal, a travar no espaço de poucos metros.

Mas o que deveria ser a prioridade? Deve cortar-se a velocidade, dando mais motivos de fúria aos condutores, ou apostar-se numa rede de transportes públicos que os faça desistir do carro? “Vamos ter de fazer tudo ao mesmo tempo. Já não podemos esperar mais.”

Estas mudanças querem promover também a poupança de combustível, mas um estudo indica que haveria custos adicionais de 21 milhões de euros – e essa é uma preocupação dos automobilistas com o “pára-arranca”. Apesar de não conhecer essa análise, a vereadora do Live justifica que terá sido tida em conta uma velocidade constante, que não é possível manter dentro das cidades. Depois, sustenta que os maiores gastos nas zonas de 30 km/h seriam compensados pela redução de velocidade noutros eixos.

 “O pára-arranca não é porque a velocidade está limitada aos 30 km/h. É porque há transito, porque as faixas não estão bem planeadas para a utilização que lhes queremos dar e porque há semáforos. E a semaforização também tem de ser estudada.”

A buzinadela

Estes são os limites da proposta: 70 km/h para as vias estruturantes como o Eixo Norte-Sul, 40 km/h para as vias internas de maior fluxo como o eixo do Marquês de Pombal ao Campo Grande e 30 km/h para as restantes vias. “Ninguém está a dizer que vamos amanhã mudar a velocidade nas vias todas de Lisboa. Agora o que aguardamos é uma proposta de implementação que vai ser faseada.” A prioridade, diz a vereadora do Livre, deveria estar nos bairros.

O percurso segue em direção à Avenida de Roma, onde a circulação pode hoje ser feita a 50 km/h. Contudo, a artéria é rodeada por zonas limitadas a 30 km/h, o limite que se passaria a aplicar a este eixo. “O número de mortos é de um em cada 10 por atropelamento se for a 30 km/h. Nove em cada 10 se for a 50 km/h”, argumenta a vereadora.

Mas Patrícia Gonçalves admite que, no processo de estudo, deve fazer parte a reclassificação de certas vias, como a Avenida de Roma, como via de escoamento de trânsito, permitindo uma velocidade máxima de 40 km/h. “É uma questão técnica, os serviços têm de estudá-la”, insiste. Bastaria, por exemplo, a criação de uma ciclovia para que os ciclistas, que hoje partilham a via de duas faixas com os automóveis, ficassem mais protegidos e os condutores pudessem apertar um bocadinho mais no acelerador.

Estamos nos últimos quilómetros de reportagem, segue o carro pela Avenida de Roma a 28 km/h quando se ouve um apito de quem segue atrás. Há protesto com os braços – e uma ultrapassagem. Patrícia Gonçalves falava da sensibilização que é necessário fazer junto dos automobilistas sobre estas mudanças. Perante a buzinadela, acaba por desabafar: “É essa a sensibilização que é preciso. Ele tem ali outra faixa. Toda esta mudança tem de ser feita com as pessoas, as pessoas têm de perceber que é o melhor para a vida delas”.

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