Era uma vez, numa cidade chamada Lisboa, um lugar onde as ruas eram pintadas com aromas singulares. O cheiro familiar do sabão OMO misturava-se com o aroma do peixe fresco que as varinas levavam de porta em porta, criando uma sinfonia de cheiros e sons que envolvia a vida quotidiana. Entre as vielas estreitas e os azulejos coloridos, as vozes das vizinhas ecoavam de janela em janela: "Dª Rosa, como passou a noite?". A cidade vibrava com o calor humano que transformava cada esquina num lar. Com o passar dos anos, Dª Rosa, do alto da sua janela, observava a nova Lisboa, uma cidade que já não reconhecia. "Olhem, senhores, esta Lisboa de outrora", pensava ela, nostálgica, enquanto refletia sobre as mudanças que tinham ocorrido, e ao seu ouvido chegavam sons estranhos, palavras que já não reconhecia. A cidade que ela amava transformara-se. Contudo, ao mesmo tempo, esta transformação, impulsionada pela crescente atividade turística, trouxe oportunidades de emprego e empreendedorismo, dinamizando a economia local.
Nos últimos cinco a dez anos, Lisboa viu a sua visibilidade internacional disparar como destino turístico, provocando um conjunto de mudanças. Embora muitos cidadãos aceitem esta transformação pelos benefícios imediatos, com o tempo, fatores inicialmente ignorados começam a impactar a vida da população, alterando costumes e moldando o território.
Hoje, Lisboa é considerada uma das cidades europeias mais atrativas para investimentos hoteleiros, segundo o Atlas 2020 da Deloitte. Este sucesso deve-se, em parte, à diversificação na gestão do setor, como franchising e contratos de gestão, que facilitaram a expansão da hotelaria. Entre 2008 e 2017, o número de unidades hoteleiras duplicou, passando de 105 para 204. Entre 2020 e 2023, abriram 52 novos hotéis, principalmente em áreas como Santa Maria Maior e Santo António, com previsões de crescimento da oferta em 15% até 2025.
No entanto, este crescimento rápido no setor hoteleiro levanta sérias preocupações para a comunidade local. A expansão não afeta apenas a economia, mas também os valores sociais, culturais e ecológicos da cidade. Lisboa enfrenta desafios na adaptação das suas infraestruturas para os residentes, gerando tensões e até revolta. O desequilíbrio entre as necessidades da população e a pressão turística pode criar sentimentos de hostilidade, como os protestos em Barcelona e greves nas Ilhas Canárias, exemplos da crescente "turismofobia" em várias cidades europeias. Este fenómeno levanta questões sobre a sustentabilidade do turismo e o impacto na qualidade de vida das comunidades locais, exacerbado por processos de renovação urbana e gentrificação.
Pensar em soluções para esta crise recorda-nos a história de um idoso, um menino e um burro, onde a moral é clara: "por mais que façamos, nunca agradamos a todos!". Nos debates sobre o turismo em Lisboa, surgem duas visões: de um lado, a necessidade de hotéis para receber os turistas, defendendo que "há espaço para todos"; do outro, a urgência de devolver à cidade o seu ar de autenticidade histórica. Encontrar um equilíbrio entre estas perspetivas é uma tarefa árdua. No entanto, apresenta-se algumas soluções que podem mitigar esta tensão:
- Regulação do Crescimento Hoteleiro: Limitar novas unidades hoteleiras e promover hotéis em zonas menos saturadas.
- Turismo Sustentável: Sensibilizar as empresas para minimizar impactos negativos e respeitar as dinâmicas locais.
- Proteção do Património: Criar legislação que proteja residentes antigos e limite a especulação imobiliária e gentrificação.
- Participação no Planeamento Urbano: Estabelecer diálogo entre moradores, autoridades e empresários para encontrar soluções conjuntas.
- Descentralização do Turismo: Promover atrações e eventos em áreas menos visitadas, aliviando a pressão nas zonas centrais.
- Melhoria das Infraestruturas: Melhorar transportes e serviços, priorizando os residentes
Rui Martins, num artigo para o Observador (2024), apelida a crise habitacional de "Cavaleiros do Apocalipse Habitacional". E, de facto, se não forem tomadas medidas concretas que equilibrem o desenvolvimento económico com a preservação do tecido social e cultural de Lisboa. Estaremos a passar as três fases do apocalipse: a preterista (o passado, quando o euforismo turístico gerou a esperança de um futuro próspero), a historicista (o presente, resultado de decisões anteriores) e a futurista (a incerteza do que virá, aguardando a revelação e o retorno).
As cidades, sob a pressão do turismo, acabam por se transformar em imagens estereotipadas ou ajustam-se às exigências do mercado global. Assim, é urgente que tanto os responsáveis municipais, como a academia e os cidadãos, repensem Lisboa como uma cidade não apenas visitada e experienciada, mas também vivida e habitada.
