É cada vez mais difícil comprar um "bolo de arroz" em Lisboa. Cidade está a ficar sem cafés de bairro

Agencia EFE , Blas Díaz
24 fev, 12:41
Bica, Lisboa (AP/ Armando França)

Estabelecimentos com décadas estão a dar lugar a alojamentos locais ou restaurantes franchisados, como mostra esta reportagem da agência noticiosa espanhola EFE

Lisboa está a perder os tradicionais cafés e pastelarias que acompanharam muitas gerações numa onda de encerramentos devido às rendas elevadas e ao turismo de massas, para os quais estão a abrir outro tipo de estabelecimentos.

Muitos deles, com décadas e até um século de história, estão a dar lugar a negócios orientados para o visitante, como alojamentos locais, lojas de consignação ou franchisings internacionais, deixando para trás a idiossincrasia dos bairros e virando os seus residentes contra eles.

É o caso da pastelaria Mujique, perto da praça central do Marquês de Pombal, que fechou as portas em dezembro, após décadas de funcionamento desde os anos 1980. Era um estabelecimento de toda a vida, onde os locais iam tomar café, comer um croissant ou qualquer outro bolo, que nos próximos meses será convertido para uso residencial.

Tiago era um dos frequentadores habituais do Mujique, porque trabalha na loja de ferragens do outro lado da rua e lembra-se com carinho do dono do café, que costumava comprar-lhe material.

O lojista disse à EFE que a Mujique fechou definitivamente as portas, "porque os novos proprietários do edifício não quiseram renovar o contrato de arrendamento", apesar de ter muitos clientes.

A 15 minutos a pé, a Confeitaria Vitória, que fechou em outubro depois de estar aberta desde 1931, alberga agora uma famosa cadeia de hambúrgueres, que conservou parte da sua antiga fachada.

O desaparecimento da Vitória e da Mujique repete-se em muitas ruas da capital portuguesa, onde blocos residenciais, cafés de especialidade e restaurantes de fast food ou internacionais ocupam o lugar que outrora pertenceu aos cafés de bairro.

Por vezes, é fácil reconhecer o local onde existiram, quando os estabelecimentos que os substituem não retiram os azulejos, os toldos ou as esplanadas. Outras vezes, a sua história desvanece-se, quando o espaço é completamente remodelado.

Sobreviver ao encerramento, cada vez mais difícil

Embora seja difícil manter vivas as lojas tradicionais, muitas delas continuam de pé graças à luta dos seus clientes e à determinação dos seus próprios empregados.

João, 41 anos, é o proprietário da pastelaria Luso Americana, junto à Praça do Chile, e está otimista quanto à continuidade da loja, que também se aproxima de um século de história.

No entanto, admitiu à EFE a sua preocupação com o aumento dos custos, como o das rendas, que tem levado à falência muitos donos de restaurantes.

"Há muitos casos em que os senhorios aumentam as rendas e os inquilinos, desanimados, não têm possibilidade de as pagar. Está a acontecer em todo o lado", apontou.

O problema das rendas não é o único: segundo o ativista Rui Martins, por vezes, a passagem de gerações de pais para filhos não é possível, porque os filhos "não querem deixar as suas carreiras" para herdar os cafés; e deixá-la para os empregados nem sempre é viável.

"Há alguns anos, os trabalhadores do comércio local herdavam quando os filhos não queriam. Hoje em dia é difícil porque as rendas são muito caras, o comércio local está em zonas muito caras", sublinhou Martins.

Lisboetas continuam à procura do seu "bolo de arroz"

Perante esta crise, alguns lisboetas organizaram-se para localizar e ajudar a preservar os cafés e pastelarias que sobreviveram.

Na sequência do encerramento da Confeitaria Vitória, o movimento “Vizinhos em Lisboa” elaborou nos últimos meses um mapa com cerca de 900 cafés tradicionais abertos, onde constam também os que fecharam para serem substituídos por negócios ligados ao turismo.

O grupo de moradores considera tradicionais os estabelecimentos que oferecem bolos de arroz, um dos bolos mais típicos de Portugal, semelhante a um cupcake, cuja fama não alcança a do pastel de nata e que é pouco conhecido pelos turistas estrangeiros.

Para Martins, “Lisboa também está a perder atratividade para o turismo”, com o desaparecimento de estabelecimentos tradicionais.

“Quando os turistas desembarcam dos milhares de cruzeiros ou aviões, e invadem até o castelo (de São Jorge), estão também à procura da Lisboa típica, que já não existe. O que temos agora são lojas de kebab, de souvenirs, mas não cafés e livrarias nestas zonas”, lembrou.

Com uma média de pouco menos de dois cafés tradicionais por cada mil habitantes, o desejo do lisboeta já não é que estes estabelecimentos reabram, mas que um dia deixem de fechar.

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