Factos primeiro: a TAP reduziu ou aumentou o número de voos no Porto?

4 abr, 18:00
TAP

TAP é acusada por Rui Moreira de ser uma "companhia regional" de Lisboa e de "abandonar" o Porto. Será assim?

Continua o ambiente de tensão entre a TAP e o Porto. Intervencionada pelo Estado, a companhia aérea garante que aposta no aeroporto Francisco Sá Carneiro como em todos os outros, mas a autarquia da cidade Invicta vê o contrário.

Para este ano estão previstas menos sete rotas em relação à operação em 2019, antes da pandemia de covid-19. A informação foi avançada pelo Jornal de Notícias e entretanto confirmada pela CNN Portugal: a TAP não vai reatar, para já, as ligações para Amesterdão, Barcelona, Bruxelas, London City, Madrid, Milão e Munique. O Jornal de Notícias diz que isso implica uma perda de 705 mil passageiros, informação não confirmada pela TAP, que no mesmo dia da notícia veio dizer que a oferta vai ser reforçada em 98% no período do verão de 2022 (que na aviação começa já em abril) em relação a 2021.

Ambos os cenários podem ser verdade. De acordo com os dados da Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC), a TAP transportou 1.414.778 passageiros no aeroporto do Porto entre os meses de abril e setembro de 2019. No mesmo período de 2021, o número foi de apenas 357.164 passageiros. Esta redução explica-se com a pandemia, mas analisando os boletins da ANAC verifica-se que houve uma redução do peso da transportadora portuguesa no Porto. Em 2019, representava 19% dos passageiros que chegavam e partiam daquela cidade; esse número caiu para 11% em 2021, dando espaço a outras companhias, como a Ryanair.

Ora, se a TAP diz que vai reforçar a oferta em 98% face a 2021, o mesmo é dizer que vai operar cerca de 7.373 voos no Porto. Quanto aos passageiros, é difícil fazer uma previsão exata, uma vez que isso depende do tipo de avião a ser utilizado pela companhia (um A319 leva menos pessoas que um A320, por exemplo). Mas, com base nos dados disponíveis, é possível estimar que a TAP transportará cerca de 700 mil passageiros no verão de 2022 no Porto. Nesse caso, ficaria a cerca de 714 mil passageiros abaixo do verificado em 2019.

Na prática, é possível reduzir a oferta em 705 mil lugares face a 2019, e ainda assim duplicá-la face ao registado em 2021, como a TAP diz que vai fazer.

Em vez de olhar para as ligações não retomadas, a TAP enfatiza o reforço de 40 mil lugares em viagens para Lisboa, mais 20 mil para o Funchal e outros 20 mil para Paris. O espaço deixado vago pela TAP permite o crescimento de outras companhias aéreas no Porto. KLM, Lufthansa, Swiss e Ryanair vão aumentar as suas ofertas, e até a norueguesa Flyr vai passar a ligar o Porto a Oslo. De resto, segundo os últimos dados da ANAC, a Ryanair já representou o dobro dos voos operados pela TAP no Porto, sendo que EasyJet e Transavia se aproximam a passos largos da companhia aérea portuguesa. Em Lisboa a situação é bem diferente, com a TAP a liderar claramente.

TAP é "companhia regional" de Lisboa?

O presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, acusou o Governo de querer transformar a TAP numa “companhia regional” para servir o hub de Lisboa e a transportadora de “abandonar mais uma vez” o aeroporto Francisco Sá Carneiro. Essa foi a reação à publicação do Jornal de Notícias.

A TAP rejeita este cenário, e realça que "o crescimento agora registado dá seguimento à estratégia de recuperação da companhia aérea a partir do Porto, que já no inverno 2021/22 tinha crescido 122% face ao inverno anterior".

"Com a recuperação do tráfego aéreo, a TAP tem vindo a investir cada vez mais no aeroporto Francisco Sá Carneiro", disse a companhia aérea.

Mas uma análise aos boletins da ANAC aponta para uma clara diferença na importância da TAP nos aeroportos de Lisboa e Porto. Se tomarmos como referência o tal período de verão, a operação da transportadora é significativamente mais importante na capital. Em 2019, último ano sem pandemia, o aeroporto de Lisboa registou 118.930 movimentos e 17.550.319 passageiros entre abril e setembro. Desses, 65.411 movimentos e 8.950.662 passageiros foram TAP.

No mesmo período foram registados 53.204 movimentos e 7.446.203 passageiros no Porto, dos quais 10.108 movimentos e 1.414.778 passageiros foram TAP. Na prática, Lisboa teve 55% dos movimentos e 51% dos passageiros operados pela TAP, enquanto os mesmos dados se ficaram pelos 26% e 19% no Porto.

Analisando o boletim mais recente, verifica-se uma tendência: a TAP realizou 53% dos movimentos e transportou 47% dos passageiros no verão de 2021 em Lisboa, enquanto no Porto esses dados foram de 13% e 11%.

Operações da TAP no verão de 2021

Aeroporto Movimentos (%) Passageiros (%)
Lisboa 31.770 (53%) 2,9 milhões (47%)
Porto 28.941 (13%) 357 mil (11%)
Faro 1.300 (6%) 82.724 (4%)
Funchal 2.637 (29%) 229 mil (21%)
Ponta Delgada 824 (8%) 88.217 (11%)

Os dados permitem concluir que a TAP tem um peso em Lisboa como não tem em mais nenhum aeroporto nacional, o que aliás não é novidade. Mas esta tem sido a base de críticas (como de Rui Moreira, mas também por exemplo de Rui Rio), que argumentam que, estando a companhia intervencionada pelo Estado em mais de 2,5 mil milhões de euros, deveria assumir uma posição mais "nacional". A conta para o Estado, aliás, deverá ser ainda maior, sendo que o Governo admite ter de gastar até 3,2 mil milhões de euros até 2024. Depois da notícia da não retoma de alguns voos, os partidos reuniram-se em críticas à TAP.

Resposta: o número de voos da TAP operados no aeroporto Sá Carneiro, no Porto, será reduzido este ano face a 2019 (antes da pandemia) e aumentado face a 2021 (ano de pandemia). 

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