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Que Se Lixem As Eleições | Carlos Mimimi Moedas

2 set, 08:36
Carlos Moedas (Lusa)
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O presidente da Câmara de Lisboa é o rei das queixinhas. Infelizmente, nenhuma outra caraterística o destaca… tirando os vídeos nas redes sociais… a fazer queixinhas

Carlos Moedas é, à sua medida, uma estrela das redes sociais. Produz muitos vídeos. É talvez a única produção em que se destaca, embora os lisboetas o tenham eleito para dirigir a autarquia e não para dirigir curtas-metragens. Mas, enfim, cada um é para o que nasce e foca-se naquilo em que é proficiente. Quando sai à rua, é costume Moedas levar atrelada uma equipa de imagem e ter um microfone na lapela, porque há sempre o potencial de, ao virar da esquina, ter um qualquer conteúdo capaz de viralizar. Menos provável é que tome uma qualquer decisão que beneficie quem vive e trabalha na capital. 

Podia ser um daqueles casos em que se diz que não se pode ter tudo. Por sinal, até se pode: não há nenhuma incompatibilidade entre ser um autarca com grande capacidade de comunicação e forte presença nas redes sociais e, em simultâneo, ser capaz de delinear boas políticas públicas. Nem preciso de dar o caso do mayor de Nova Iorque, Zohran Mamdani, campeão das redes sociais que, em simultâneo, está a promover uma revolução tranquila na sua cidade. Por sinal, uma cidade ligeiramente mais difícil de governar do que Lisboa. Portanto, sim, pode-se ter tudo. Mas não com Carlos Moedas. 

A verdade é que ser uma estrelinha das redes sociais chegou para Moedas ser reeleito. Dir-se-á que a principal adversária que enfrentou lhe facilitou a tarefa. Mentira não é. Mas quem a escolheu que enfie a carapuça — Moedas limitou-se a aproveitar as fraquezas alheias. O que não significa que se deva ser complacente com a sua governação (chamemos-lhe assim…) da capital e com o seu estilo de permanente lamúria, queixinhas e desresponsabilização. Este texto é sobre isso.

O rei do "mimimi"

Num dos últimos trabalhos, Carlos Moedas queixa-se do estado em que está a rede de bicicletas municipais Gira. Digo “trabalho” porque os vídeos de Moedas para o TikTok e afins são, sem sombra de dúvida, a parte que leva mais a sério enquanto autarca, e o produto mais visível do seu… cof, cof… trabalho. 

O alcaide de Lisboa mostra o estado de degradação em que estão os postos de estacionamento das bicicletas Gira, uma realidade que qualquer utilizador das ditas conhece há muito. Equipamentos vandalizados, uns a seguir aos outros, e em muitos casos com sinais evidentes de vandalização que não é recente. Qualquer lisboeta que utilize as bicicletas municipais sabe o que a casa gasta: uma app cheia de problemas, veículos cuja manutenção deixa muito a desejar, e dezenas (centenas?) de bicicletas inutilizadas pela simples razão de que as respetivas docas de levantamento e estacionamento foram avariadas por vândalos.

Moedas denuncia esta situação exatamente como têm feito muitos cidadãos anónimos, e algumas associações promotoras de meios de mobilidade suave em Lisboa. Com uma diferença: é Moedas quem pode responder a este problema. Quem tem o poder, e os meios, de assegurar a manutenção destes equipamentos. Mas o presidente da câmara limita-se à denúncia, naquele tom lamuriento de que tudo lhe acontece e ele, coitado, não pode fazer nada em relação a isso. De um responsável político espera-se mais do que de um cidadão zangado e frustrado. Até porque os muitos cidadãos que se têm queixado do desleixo a que foi votada a rede Gira pagam impostos, nacionais e municipais, pelos quais esperam mais do que a mera constatação do desleixo. Esperam que quem gere um orçamento financiado por todos tenha mais soluções e menos “mimimi”. Por “mimimi” quero dizer queixinhas. Como naqueles monólogos do Calimero. Por azar, Carlos Moedas optou por ser o rei do “mimimi”.

Bem sei que Moedas foi eleito presidente da Câmara de Lisboa prometendo tudo para os carros e pouco para as pessoas que circulam de outras formas. E nada para as bicicletas. Lembro-me bem das principais bandeiras com que derrotou Fernando Medina por unha negra: mais espaço para circulação e estacionamento de carros, menos ciclovias, e acabar com uma em particular, a da Avenida Almirante Reis. Esta ideia era tão atraente para uma parte do eleitorado como absurda para quem tenha duas ideias na cabeça sobre como se gere uma cidade moderna. Tanto que, contra a sua própria promessa, Moedas não acabou com a ciclovia da Almirante Reis. Ainda lá está, com movimento, embora com cada vez menos Giras, porque… enfim… já percebeu.

Só Tiktok e queixinhas

Mas este não é um texto sobre bicicletas. É um texto sobre Carlos Moedas. O seu tiro totalmente ao lado sobre a ciclovia da Almirante Reis, o seu patético lamento sobre o estado de degradação em que estão as docas das bicicletas municipais, são só sintomas muito visíveis da sua forma de fazer política: sem ideias e sem responsabilidades. Só TikTok e queixinhas.

Há umas semanas, Moedas queixava-se forte e feio da justiça. Razão: uma turista foi baleada na Baixa de Lisboa, alegadamente atingida por um tiro perdido numa rixa. Carlos Moedas preside a uma autarquia com quase 660 mil residentes. Se juntarmos os não residentes que trabalham na cidade e os milhares de turistas que a visitam, serão no total umas 900 mil almas, mais ou menos dispersas por 24 freguesias. Diariamente Lisboa figura nos chamados “casos do dia”, ou “casos de polícia”. Por vezes, com mortes. Mas o ferimento de uma turista foi o que lhe fez soltar a mola da indignação. Ainda por cima, na Baixa! Diz qualquer coisa sobre não sermos todos iguais e sobre os muitos territórios de Lisboa não serem encarados da mesma forma? Talvez diga.

O autarca, engenheiro de formação mas jurista por presunção, exigia que os tribunais metessem na choldra o alegado responsável pelo disparo acidental contra a turista. Sueca, ainda por cima, que é gente fina. O indivíduo foi detido por causa de outro alegado crime, de violência doméstica, e Moedas considerou inaceitável que, na apreciação dessa acusação — que era a que realmente estava em apreciação — o alegado atirador não fosse logo preso por causa da suspeita do tiro quase fatal. O indivíduo está identificado e responderá por tentativa de homicídio devido aos disparos que atingiram a turista que estava pacatamente a comprar pastéis de nata na Rua Augusta. Isto, quando e se as investigações confirmarem que é mesmo ele o principal suspeito desse caso.

A primeira regra da Justiça é cumprir as suas próprias regras. Às vezes é exasperante? Muitas vezes. Mas sem isso não há Estado de Direito, e numa democracia regida por leis iguais para todos os responsáveis políticos devem ser os primeiros a defender o Estado de Direito. 

Moedas tem outra ideia. Que se danem os procedimentos policiais e legais, que se danem as leis, “o lugar dos criminosos é na cadeia”, como costuma dizer André Ventura e Moedas, pelos vistos, concorda. Ventura, já se sabe, fala como se fosse polícia, acusador e juiz. Moedas juntou-se a essa moda. Parece que dá votos. 

Por isso o autarca se referiu a um suspeito, ainda a ser investigado, como “um criminoso”. Ventura não diria melhor. Não foi um acaso o arranjo de Carlos Moedas com gente do Chega no atual mandato. Não é por acaso que Moedas se orgulha de pegar na questão da segurança que, reconhece, costuma ser terreno da extrema-direita. Não é por acaso que Moedas empola as questões de segurança, “sejam realidade ou percepção”. Não é por acaso que enche agora a boca com o slogan “Lei & Ordem”, tão do gosto de Trump, de Milei ou de Ventura. 

Curiosamente, não há memória de tanta paralisia na cidade do ponto de vista da “lei e ordem”. É o próprio Moedas que o confirma, quando diz que antes estava preocupado com a situação da segurança na cidade mas agora está “alarmado”. O que aconteceu entre antes e agora? Cinco anos de governo autárquico de Moedas. O presidente da câmara, que ocupa o cargo há mais de um mandato, fala grosso, mas atua fino, fingindo que é só uma vítima das circunstâncias. Se há uma Lei Moedas, ela dita que Moedas é sempre uma vítima, e nunca é responsável por qualquer coisa que corra mal.

As suas palavras, ipsis verbis, quando o tribunal libertou um suspeito que, até existir uma acusação formal, não tem nada a ver com a turista baleada: “É inaceitável esta decisão! (…) Como presidente da capital de Portugal, repudio em absoluto terem libertado um criminoso! Não é só a imagem de Lisboa que fica em causa, é a imagem de Portugal!”

Tantos problemas em tão pouco texto! (Se Moedas pode exagerar nos pontos de exclamação, talvez eu possa usar um…)

  1. A pressão sobre a Justiça — Moedas diz que é criticado e também pode criticar. Mas a posição de poder de onde lança a crítica (“presidente da capital de Portugal”) torna-a uma pressão descarada;

  2. A sentença de que aquele indivíduo é “um criminoso” — já tínhamos o “juiz” Ventura a botar sentença, agora temos o “juiz” Moedas. Torpedear o espaço da Justiça é o primeiro passo para destruir qualquer ambição de “lei e ordem”.

  3. Tanta coisa que haveria para dizer sobre a imagem de Lisboa... A começar pela forma degradante como os visitantes são recebidos no aeroporto e a acabar no desleixo que se sente por toda a cidade, bem visível nas ruas sujas, no lixo acumulado, nas paredes grafitadas, na muita iluminação pública que não funciona, na selvajaria do estacionamento, no caos dos tuk tuks, na falência dos transportes públicos. Desleixo chama desleixo; abandono chama criminalidade; guetos favorecem franjas à margem da lei.

Não há uma solução mágica

A julgar pelo discurso de Moedas, o problema da segurança em Lisboa deve-se a um juiz e ao ministro da Administração Interna. Ainda sou do tempo em que Carlos Moedas prometia amanhãs que cantam no momento em que o seu PSD governasse o país. Nesse momento, sim, Lisboa seria finalmente segura, pois o governo do seu amigo Luís (o Montenegro, não o Neves) colocaria um polícia em cada esquina, deixaria que a Polícia Municipal fizesse o que por lei não pode (deter pessoas em pleno delito), encheria a cidade de guardas-noturnos e libertaria verbas e condições para que Lisboa estivesse coberta de câmaras de videovigilância. Exigências a que o anterior governo, do PS, só não acedia por manifesta má vontade política.

Eis que o governo mudou há dois anos e os queixumes de Moedas continuam os mesmos. Não tem mais PSP nas ruas, não tem guardas-noturnos, não tem Polícias Municipais armados em PSP, não tem uma câmara de videovigilância em cada esquina. E, entretanto, o cidadão Carlos ficou “alarmado” porque velhinhas que antes saiam ao fim da tarde agora se fecham em casa, e raparigas que antes circulavam por certas zonas da cidade deixaram de o fazer porque têm medo. O que é que mudou? A questão que importa é outra: o que é que não mudou? Não mudou a incapacidade de Carlos Moedas pensar uma cidade para além de soluções populistas.

Há dias, o ministro Luís Neves contrariou o choradinho do autarca de Lisboa, garantindo que já há mais polícias nas ruas de Lisboa, nomeadamente elementos do Corpo de Intervenção em missões de policiamento e patrulhamento, uma presença que, pela natureza destes agentes, tem uma força reforçada de dissuasão. Mas o ministro da Administração Interna não se limitou a dar conta do reforço policial que já há e que será ainda maior. Lembrou que o combate à insegurança em Lisboa “não depende de uma única medida”.

Há, nesta frase, uma crítica arrasadora à incapacidade de Moedas e da sua equipa pensarem uma cidade no seu conjunto. O autarca faz equivaler segurança a muitos polícias na rua. Mas segurança urbana é tanto mais do que isso. Se Moedas visse para além dos estafados “unicórnios” e dos “piqueniques chiques”, perceberia isso. Mas é mais fácil insistir em balas mágicas que não dão trabalho e são responsabilidade dos outros.

Lembra-se do Intendente? Voltou ao mesmo

Recordo apenas um caso em que, sem mais polícias, Lisboa reabilitou uma das suas áreas mais inseguras e degradadas: o Intendente e a Mouraria. Depois dos executivos de Jorge Sampaio e João Soares terem feito um enorme esforço de limpeza e reabilitação do Casal Ventoso, o Intendente era o epicentro do lado mais negro de Lisboa, povoado por prostituição e tráfico de droga. A Mouraria, onde fica o Intendente, não teve a sorte da movida noturna do Bairro Alto, que virou moda, nem tinha o lado pitoresco e as casas de fado que foram a salvação de Alfama. Na Mouraria vivia quem não conseguia sair dali, mais os traficantes que faziam o seu negócio a céu aberto, os consumidores de droga que se injetavam em qualquer escadinha, as prostitutas que iam acabar a carreira naquelas esquinas. Ninguém entrava ali por acaso ou por engano.

Até que António Costa entrou por vontade própria. Quando foi eleito presidente da Câmara de Lisboa, identificou a Mouraria, e em particular o eixo Intendente-Martim Moniz-Caldas, como uma prioridade para reabilitar a cidade. Podia ter clamado por mais polícias, pois Lisboa nunca teve abundância deles. Em vez disso, articulou uma reorganização territorial dos agentes Municipais e da PSP que existiam (o que incluiu uma nova esquadra na Rua da Palma), mas sobretudo liderou um plano amplo e multifacetado para mudar de vez o bairro.

Começou por mudar o local de trabalho do presidente da Câmara de Lisboa para o Largo do Intendente, o coração daquele cancro da cidade. Isso não mudou tudo. Na verdade, mudou pouco. Mas deu o sinal necessário para a grande mudança. Depois, Costa implementou um programa global para a Mouraria, que começou por uma grande intervenção no espaço público desde o Intendente ao Largo do Caldas, passando pela Rua do Benformoso e pelo Martim Moniz, onde avançou a última geração de prédios da EPUL – para a classe média, com a ideia de contrariar guetos. Num desses prédios foi projetado um centro de saúde. Na principal escola daquela zona houve uma grande intervenção, que incluiu a construção de um jardim de infância e a transformação de um parque de estacionamento em recreio. Imagine-se o sacrilégio!, tirar espaço aos carros para dar às pessoas…

Não foi tudo. Surgiu uma mini incubadora de projetos sociais, um projeto de combate à sida, outro de apoio a prostitutas. Surgiu a loja de A Vida Portuguesa que se tornou uma âncora, o Café das Joanas, a Associação Ao Largo, a Casa Independente. Uma escultura de Joana Vasconcelos tornou-se o símbolo da nova vida do Intendente, que atraía que cada vez mais gente que antes fugia dali. O fado voltou, a Casa da Severa foi recuperada, foi criado um local de homenagem a Fernando Maurício, e até um festival de ópera passou a atrair lisboetas e turistas para um lugar que antes estava fora de qualquer mapa. O Martim Moniz tornou-se um mercado de comidas do mundo, beneficiando do facto de se tratar da área mais multicultural de Lisboa.

Foi tudo perfeito? Claro que não. Mas uma das piores zonas de Lisboa ficou irreconhecível e tornou-se um dos bairros mais procurados e mais elogiados em publicações internacionais. Era fácil o presidente da Câmara de Lisboa ter ficado a choramingar por mais polícia. Optou por fazer mais de tudo o resto.

E hoje? Hoje o Intendente e a Mouraria voltaram ao passado. Basta ver esta reportagem da TVI, emitida esta semana. Resumo: “Insegurança revolta moradores da Mouraria, em Lisboa. Autarquia tem pedido mais policiamento para as zonas da cidade consideradas particularmente perigosas.” 

Bem pode Luís Neves tentar convencer Moedas de que a insegurança “não depende de uma única medida”. É verdade que o que quer que Neves diga vale hoje muito pouco. No caso de Moedas é mesmo chover no molhado. Se, como prometeu ontem, Luís Neves conseguir mesmo manter-se em funções para “combater o populismo”, pode começar pelo partido do seu Governo, e pelo autarca da capital.

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