Nascer com o pé esquerdo

16 jan, 08:01
Países Baixos-Argentina

«Jogador de fim-de-semana» é um espaço da autoria de João Ferreira Oliveira, que reflete sobre a paixão em jogar com os amigos

Sempre tive um fascínio por jogadores com pé esquerdo. Alguém que nasce canhoto parte logo em vantagem, é uma luta desigual, como se tivesse sido equipado com ferramentas especiais capazes de garantir uma técnica e um estilo que os comuns dos mortais, os destros, dificilmente conseguirão igualar.

Maradona, o deus dos canhotos, dizia de Pelé que o seu grande sonho era ser canhoto. Kanu, com quem joguei à bola durante toda a infância e adolescência, o melhor jogador da freguesia e arredores e a pessoa que, até hoje, mais golos me marcou — devia a alcunha ao nigeriano Kanu, um bom gigante, como ele — era canhoto. Nunca fui capaz de antecipar ou adivinhar os seus movimentos e, sobretudo, as suas pausas, mesmo que jogasse com ele todas as semanas, milhares de horas por semana.

Cresci a acreditar que os grandes jogadores eram todos canhotos e, quando não eram, perguntava-me como teriam enganado o destino e as leis da física e jogarem tão bem, mesmo sem pé de atleta.

O meu fascínio por canhotos estende-se para lá das quatro linhas. Quando conheci a minha mulher, soube de imediato que seria a tal assim que a vi agarrar no copo de vinho com a mão esquerda. A nossa filha não é canhota, infelizmente, mas chuta com o pé esquerdo, embora desconfie que, mais do que uma inclinação genética, esta característica tenha sido imposta por mim, tantas foram as vezes em que, durante o confinamento — período durante o qual passávamos os dias a fazer passes e chutar a bola contra a parede — a obriguei a trocar os pés.

São muitos os desportistas que, mesmo não sendo originalmente canhotos, fazem ou fizeram carreira com o pé trocado, por sugestão dos familiares. Miguel Veloso, por exemplo, foi convencido pelo pai, Veloso, advertindo-o de que se jogasse com o pé direito seria apenas mais um. Não se transformou num jogador excepcional —e deu sempre a sensação de que havia qualquer coisa de errado no seu jogo, como se andasse à procura do pé certo — teve, apesar de tudo, uma carreira digna, suficiente para o tornar num jogador milionário e capaz de representar a Seleção A por 56 vezes. Ainda joga, em Itália, no Hellas Verona, aos 36 anos.

Nadal, o melhor tenista canhoto de sempre, também não é canhoto fora da quadra. Terá sido o tio e treinador, Toni Nadal, a obrigá-lo a jogar assim, se bem que ele desminta tê-lo forçado, mas apenas sugerido.

Durante os meses (anos?) de confinamento obriguei-me, também eu, a trabalhar o meu pé esquerdo, não só para dar o exemplo à minha filha, mas na expectativa de me transformar num jogador mais completo e útil à equipa. Não há nenhum canhoto de origem no meu grupo — existem, sim, dois ambidestros, algo igualmente excepcional, fazendo com que seja tão ou mais difícil adivinhar os seus movimentos.

Por momentos, acreditei que se treinasse muito, e eu treinei muito, poderia sair dos 40 e da pandemia com a bola controlada e, quem sabe, abdicar por completo do pé direito. Imaginava a cara dos meus colegas, no final do primeiro jogo, ou logo às primeiras jogadas, espantados, a perguntarem-me «mas tu agora és canhoto?» 

E eu: «Não. Sempre fui.»

«Jogador de fim-de-semana» é uma crónica literária de João Ferreira Oliveira, que escreve todas as segundas-feiras no Maisfutebol

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