Profissionais de saúde queixam-se de falta de pessoal num cenário em que quase duplicaram a chamadas recebidas
“Nós seguimos o que está no sistema”. É desta forma que um profissional da Linha SNS 24 garante que não foi um problema no atendimento que motivou a transferência de uma criança de cinco anos para uma urgência que estava encerrada no dia de Natal.
Em conversa exclusiva com a TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), este profissional, que preferiu não divulgar o nome, acompanhou o caso de perto.
“No sistema não estava a dizer que o hospital de Torres Vedras estava encerrado”, garante.
E foi por isso que a Linha SNS 24 reencaminhou aquela criança, que estava a sofrer de uma otite grave, para aquela unidade.
“Esta situação acontece porque está tudo muito sobrecarregado”, acrescenta, explicando que houve uma triagem na Linha de SNS 24, para depois se enviar a criança “para o hospital que estava fechado”.
Esta mesma fonte sublinha que “os operadores não tinham qualquer informação” que indicasse essa situação, pelo que “os operadores fizeram o seu papel como deve ser.
Isto num cenário em que os profissionais da Linha SNS 24 atenderam quase o dobro das chamadas face ao ano passado, de acordo com os mais recentes dados dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), que fazem a gestão da linha.
De acordo com os dados, em dezembro, até ao dia de Natal, o serviço atendeu mais de 390 mil chamadas, tendo ultrapassado o valor de novembro (388 mil). O recorde do ano foi atingido a 16 de dezembro, com 21.187 chamadas atendidas, “uma evolução que vai ao encontro do que tem sido o padrão de incidência das doenças respiratórias”.
“O tempo médio de espera para este ano situa-se aproximadamente em um minuto e 48 segundos, pouco acima dos 57 segundos de 2023, apesar de o número de chamadas quase ter duplicado”, referem os SPMS.
Aqui o problema não foi o atendimento da chamada, mas antes a informação prestada. O profissional que falou com a TVI sublinha que todos estão a dar "o seu melhor". "Estão a trabalhar a 200 à hora e a senhora ministra tem conhecimento que o pessoal não é suficiente. Tem de haver mais mão de obra, precisamos de pessoal para trabalhar e para fazer um bom trabalho", acrescenta.
Uma criança de cinco anos foi encaminhada para um serviço de urgência pediátrica em Torres Vedras que estava encerrada após a Linha SNS 24 ter garantido que a unidade estaria aberta. A mãe acabou por guiar 40 quilómetros para procurar assistência num hospital de Caldas da Rainha, o mais próximo aberto. A ministra da Saúde já garantiu ter sido aberta uma auditoria para esclarecer os detalhes do caso.
“Tenho conhecimento de que esse caso aconteceu. Já falei com a senhora presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, que imediatamente acionou uma auditoria interna para saber exatamente o que se passou”, disse adiantando que “dentro de poucas horas, amanhã o mais tardar” já se saberá “exatamente o que aconteceu”.
De acordo com a SIC Noticias, a mãe, residente na freguesia de Ameal, tinha visto na página da ULS Oeste que o serviço de urgências estava encerrado. Depois de ter estado hora e meia a aguardar para ser atendida pela linha do SNS, foi-lhe insistido para se dirigir àquela unidade, tendo acabado por verificar que a mesma se encontrava encerrada.
Após, a mãe e a criança acabaram por conduzir a Caldas da Rainha, a 40 quilómetros de casa, para que fosse finalmente observada. No final, a pediatra confirmou que as dores eram provocadas por uma otite e uma inflamação na garganta. Esta quinta-feira, a ministra da Saúde disse ainda que apesar deste caso “quer deixar uma palavra de confiança” no sistema.
“Parece ter havido de facto uma falha de comunicação entre o hospital e a linha, ou seja, quem está na linha a atender e a fazer a triagem tem que saber que aquele hospital já não está a conseguir receber doentes pediátricos, ou emergentes", explicou a ministra Ana Paula Martins, admitindo que poderá ter havido outro caso semelhante.
O incidente em Torres Vedras não foi, no entanto, isolado. De acordo com a RTP, existiram vários outros utentes em Loures, que durante a manhã desta quinta-feira estiveram uma hora a ligar para a linha SNS24 sem sucesso. Também sobre isto, a ministra Ana Paula Martins assegurou que será feita uma auditoria e uma resposta será dada dentro de pouco tempo.
No final de uma visita ao Hospital de Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro, distrito de Setúbal, a ministra garantiu que foram registadas “milhares e milhares de chamadas e portanto estas situações têm que ser reparadas”. “Mas gostava muito de transmitir à população que não perca, de maneira nenhuma, a confiança no SNS24, porque ele, maioritariamente, está a funcionar muito bem”, referiu adiantando que nesta altura existe uma sobrecarga da linha destacando ainda o facto de estarem em curso no país 20 projetos da medida “Ligue Antes, Salve Vidas”.