Defender o português no ensino superior não é um gesto de fechamento nem de nostalgia; é um ato de coerência, de responsabilidade e de visão estratégica
O debate em torno da exigência de designação oficial em português para as faculdades da Universidade Nova de Lisboa expôs uma tensão antiga, mas nunca verdadeiramente resolvida: a falsa oposição entre internacionalização e afirmação da língua portuguesa. A decisão da reitoria, que permite o uso do inglês como versão complementar, mas estabelece o português como língua oficial, tem fundamento legal e simbólico. Ainda assim, gerou resistência por parte da Nova SBE, que, lamentavelmente, considera o inglês essencial à sua identidade e competitividade global.
É significativo que outras unidades da mesma universidade, como as faculdades de Medicina e de Direito, tenham já aceitado a orientação sem dramatismos, reconhecendo que a valorização do português não compromete a projeção internacional. A posição da Nova SBE e da Nova IMS não é apenas institucional; é reveladora de uma tendência mais ampla, segundo a qual a língua portuguesa é frequentemente vista como insuficiente para contextos de excelência académica e económica. Trata-se de um preconceito linguístico persistente, mas profundamente infundado. Trata-se de incapacidade para reconhecer o potencial da nossa língua como ativo económico e cultural.
Na base desta fundamentação estão números: a língua portuguesa é falada por mais de 260 milhões de pessoas em cinco continentes e constitui um ativo estratégico do espaço lusófono. Além disso, projeções das Nações Unidas indicam que poderá ultrapassar os 400 milhões de falantes até 2050, impulsionada sobretudo pelo crescimento demográfico em África. Estamos perante uma língua em expansão, com relevância crescente nos mercados emergentes, na diplomacia, na cultura e no ensino superior. Em Portugal, os setores ligados à língua, educação, cultura, turismo e economia criativa, representam cerca de 17% do PIB, o que demonstra que o português é também um instrumento económico com impacto real.
Apesar disso, continua a verificar-se uma substituição acrítica do português pelo inglês em contextos onde tal não é necessária nem justificada. Basta observar o espaço profissional e académico, nomeadamente as redes sociais, onde cargos e funções são apresentados em inglês mesmo quando existem equivalentes claros e consagrados em português. Vejamos, por exemplo, o Linkedin. A maior parte das pessoas registadas indica a sua profissão em inglês. Os CEO - Chief Executive Officer – são Diretores Executivos em português. Os Project Manager, administradores de projetos/gestores de projetos; os Business Director, diretores de negócios; os Member of the Board of Directors, membros do conselho administrativo ou membros da direção; os Inhouse Lawyer, advogados internos (numa empresa). Estes são alguns exemplos da invasão desnecessária da língua inglesa no nosso quotidiano profissional. E tudo começa na faculdade: a ideia de que comunicar em inglês nos engrandece, nos internacionaliza, quando, na verdade, apenas empobrece a nossa identidade, o nosso país, pois não se aposta numa verdadeira política de língua e não se acredita nela. Esta prática não reforça a internacionalização; enfraquece, isso sim, a visibilidade e a legitimidade da língua portuguesa como língua de pensamento, liderança e produção científica.
Internacionalizar não é apagar a identidade. As grandes universidades europeias demonstram que é possível afirmar a língua nacional e, simultaneamente, comunicar com o mundo. Ter uma designação oficial em português, acompanhada de uma tradução em inglês, não diminui prestígio nem alcance. Pelo contrário, projeta uma instituição segura da sua identidade e consciente da sua responsabilidade cultural enquanto entidade pública. Trata-se de política de língua!
Ora, uma política de língua eficaz começa sempre nos seus falantes. Se os próprios portugueses desvalorizarem a sua língua nos espaços institucionais, académicos e profissionais, dificilmente poderão exigir o seu reconhecimento internacional. Defender o português no ensino superior não é um gesto de fechamento nem de nostalgia; é um ato de coerência, de responsabilidade e de visão estratégica. A ambição global constrói-se com qualidade e rigor — nunca à custa da língua que nos define.