A jornada olímpica de Lindsey Vonn está longe de ser um fracasso, apesar da queda

CNN , Dana O’Neil
9 fev, 12:48
Lindsey Vonn a ser transportada de helicóptero depois do acidente na final feminina de downhill, a 8 de fevereiro. (Imagem: Jacquelyn Martin/AP)

Lindsey Vonn caiu 13 segundos após a partida no downhill, em Cortina d’Ampezzo, ao competir nos Jogos Olímpicos de 2026 apenas nove dias depois de romper totalmente o ligamento cruzado anterior

Às 12:09 de um dia espetacularmente bonito, no meio das deslumbrantes Dolomitas, um helicóptero cortou o céu, o seu corpo pintado de amarelo contrastava fortemente com o azul perfeito da atmosfera.

A aeronave subiu para lá da linha das árvores e ficou a pairar entre o pico irregular de uma montanha e a face rochosa de outra. Às 12:11, um cesto desceu do helicóptero e, pouco depois, voltou a subir com um socorrista agarrado a uma maca laranja.

Três minutos depois, o helicóptero regressava em círculos na direção da cidade de Cortina d’Ampezzo, transportando Lindsey Vonn para fora do alcance da linha de chegada que nunca chegou a cruzar.

A tentativa de Lindsey Vonn de fazer o impossível - lutar por uma medalha olímpica apenas nove dias depois de romper o ligamento cruzado anterior - terminou apenas 13 segundos após o início da sua descida.

O seu bastão de esqui bateu na quarta porta e torceu-lhe o corpo de lado quando passou por um salto. A atleta aterrou com força sobre o lado direito antes de dar várias cambalhotas encosta abaixo, até finalmente parar, com as pernas abertas e as bases dos esquis cruzadas.

O joelho esquerdo, aquele com o ligamento rasgado, apontava para a esquerda; o direito, feito de titânio, apontava na direção oposta. Vonn reclinou a cabeça, protegida pelo capacete, sobre a neve, enquanto os socorristas se aproximavam para a assistir.

"É de partir o coração", disse a colega de equipa Bella Wright, que assistiu à queda do topo da montanha enquanto aguardava a sua vez de competir. "As coisas acontecem muito depressa neste desporto. Ela vinha com uma velocidade incrível naquela curva, prendeu o braço e acabou ali, assim mesmo. Depois de toda a preparação, depois de anos de trabalho árduo e reabilitação, de tudo isso".

Lindsey Vonn a cair na final feminina de downhill, a 8 de fevereiro, em Cortina d'Ampezzo, Itália. (Imagem: IOC Handout/Getty Images)
Depois da queda da atleta, na mesma prova. (Imagem: Handout/Getty Images)

"É a última coisa que queremos ver alguém passar, a última coisa que queremos ver acontecer à Lindsey. Mas ela devia estar muito orgulhosa de tudo o que fez para voltar até aqui. Independentemente de ter ficado em último, de ter vencido - obviamente caiu - seja o que for que tenha acontecido hoje, ela é uma inspiração para todas nós e devia sentir-se muito orgulhosa", acrescentou Bella Wright.

"Provavelmente não se sente assim agora, mas espero que um dia consiga reconhecer isso".

Uma reviravolta chocante num conto de fadas

O acidente foi uma reviravolta emocional devastadora. Quando Lindsey Vonn entrou no portão de partida, apertando e desapertando os bastões, batendo três vezes com o pé direito e depois com o esquerdo, milhares de espectadores explodiram em aplausos.

Esses adeptos tinham começado a fazer fila horas antes, com filas a estenderem-se pela rua através de uma ponte pedonal metálica. Encheram as bancadas viradas para a meta, ocuparam um espaço em pé à direita da pista e reuniram-se em trajes de 'pós-esqui' na tenda de hospitalidade de luxo.

Quando Lindsey Vonn partiu do portão, pareceu que toda a montanha aplaudiu em uníssono. E quando caiu, a montanha inteira mergulhou num silêncio absoluto.

Ninguém falou. Muitos taparam a boca com as mãos enluvadas, incapazes de reagir. Nenhum telemóvel vibrou. Nada se ouvia, para além das batidas abafadas da música eletrónica que segundos antes ecoava pelas colunas e do som das hélices do helicóptero no ar. "Silêncio ensurdecedor" foi como Johan Eliasch, presidente da Federação Internacional de Ski, descreveu mais tarde aquele momento.

A esquiadora americana Breezy Johnson conquistou a primeira medalha de ouro dos Estados Unidos nos Jogos Olímpicos, na prova de downhill. (Imagem: Michael Kappelerdpa/picture alliance/Getty Images)

Horas depois, quando as 36 atletas terminaram finalmente a prova, a classificação final mostrou os extremos impossíveis do esqui.

Breezy Johnson - que quatro anos antes tinha caído nesta mesma montanha, terminando a sua hipótese de competir nos Jogos de Pequim 2022 - liderava a tabela, tornando-se a primeira mulher americana a vencer uma medalha de ouro no downhill em quase 16 anos. O nome da última americana a conquistar esse título olímpico? Lindsey Vonn, que surgia no fundo da lista com um "Did Not Finish" (não concluiu), no domingo.

"É a beleza e a loucura deste desporto", disse Breezy Johnson. "A loucura de poder magoar o corpo de forma tão grave, mas mesmo assim continuar a voltar".

Compreender o impossível

É aqui que as pessoas - as pessoas comuns que não passam a vida a descer placas de gelo cobertas de neve - não conseguem compreender.

No perigoso vazio temporal entre a conferência de imprensa de Lindsey Vonn na terça-feira - quando anunciou que tinha rompido completamente o ligamento cruzado anterior, mas que ainda assim pretendia competir - e a corrida de domingo, médicos de sofá e psicólogos improvisados surgiram nas redes sociais a comentar o que devia ou não fazer.

Um médico no X sugeriu que talvez o ligamento não estivesse 100% rasgado - talvez 80% - o que soa um pouco a estar “ligeiramente grávida”, considerando que é preciso atuar no limite máximo da capacidade humana para competir a este nível. Um homem que se apresenta como treinador de desempenho mental e liderança escreveu num artigo do USA Today que Lindsey Vonn competiu porque toda a sua autoestima estava ligada ao esqui.

A atleta respondeu a ambos, garantindo ao médico que o ligamento estava, de facto, totalmente rasgado, e ao treinador mental que a sua vida estava bastante preenchida, obrigada.

Mais críticos surgirão agora, prontos para usar o benefício da retrospetiva para criticar a decisão de Lindsey Vonn. Caiu, logo foi uma ideia absurda. Se tivesse conquistado uma medalha ou vencido? Então todos diriam que sempre souberam que iria resultar.

Lindsey Vonn teve um bom desempenho na sessão de treinos de sábado, terminando em terceiro lugar entre os 21 esquiadores que participaram. (Imagem: Christophe Pallot/Agence Zoom/Getty Images)

Só que Vonn não caiu porque os joelhos falharam; caiu porque é assim que ela esquia: de forma destemida e agressiva.

Não se chega a ser Lindsey Vonn - possivelmente a maior esquiadora de velocidade da história, homem ou mulher - a jogar pelo seguro. Ela ataca a montanha com foco absoluto e um objetivo muito estreito, talhando o percurso o mais próximo possível das portas para ganhar preciosos nanossegundos num desporto onde uma fração de segundo faz toda a diferença.

Essa abordagem rendeu-lhe 84 vitórias em Taças do Mundo, três medalhas olímpicas (incluindo o ouro referido) e uma carreira que atravessa três décadas diferentes. Lindsey Vonn estreou-se nos Jogos Olímpicos aos 17 anos, em 2002, e entrou agora nos portões de partida com 41.

Ela nunca devia estar aqui. Lindsey Vonn retirou-se em 2019, finalmente a ouvir um corpo que lhe gritava para parar. O joelho direito doía-lhe tanto que coxeava ao andar. Mas em abril de 2024, um médico do sul da Florida criou uma imagem 3D do joelho e transformou-a numa mulher biónica. O joelho direito de titânio funcionou tão bem que a atleta percebeu que talvez - só talvez - pudesse voltar a esquiar.

Começou então um regresso celebrado como triunfante e inspirador. Aceitou o peso das expetativas, servindo de exemplo de que a carreira desportiva de uma mulher não tem de terminar com a idade - nem com lesões. Sabia que o que estava a fazer era anormal, mas esperava que, ao fazê-lo, outras pessoas pudessem redefinir o que consideram normal.

A atleta conquistou a medalha de ouro na prova de downhill nos Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver, em 2010. (Imagem: Francis Bompard/Agence Zoom/Getty Images)

Em dezembro de 2025, venceu a sua 44.ª corrida de downhill na Taça do Mundo - tornando-se a esquiadora mais velha de sempre a fazê-lo - e em janeiro venceu novamente. Se não tivesse caído na Suíça, teria sido considerada favorita a uma medalha aqui, joelho reconstruído e idade incluídos.

Mesmo assim, ao colocar uma joelheira para manter o joelho estável, nunca lhe ocorreu que algo tivesse mudado.

"Enquanto houver uma hipótese, vou tentar", disse. Avançou esta semana como só ela sabe: a todo o gás. Publicou imagens a treinar com pesos pesados, na piscina, e completou as duas descidas oficiais de treino na sexta e no sábado sem grandes problemas.

Lindsey Vonn optou por não falar com os jornalistas após os treinos, pedindo mais tempo para recuperar. O seu treinador, Aksel Lund Svindal, falou no seu lugar.

No sábado, passou cerca de 10 minutos na zona mista, partilhando a sua confiança nas hipóteses de Lindsey Vonn. Questionado sobre como descrever a sua força física, Aksel Lund Svindal sorriu: "Boa o suficiente para ganhar esta corrida".

Ao afastar-se, olhou por cima do ombro e disse, a sorrir: "Espero que amanhã estejam a falar com outra pessoa".

Um treinador leva os esquis de Lindsey Vonn após a sua queda no domingo. (Imagem: Jacquelyn Martin/AP)

Não foi assim, claro. Mas, na verdade, que mais há a dizer?

Mesmo tendo voado para lá da meta em vez de a cruzar, Lindsey Vonn já disse e fez tudo o que havia a dizer e fazer, personificando o espírito dos Jogos Olímpicos do início ao fim.

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