Cora, Dawson e Callan, com idades entre os cinco anos e os oito meses, foram mortos depois daquilo que esta mãe alega ter sido uma psicose pós-parto
Lindsay Clancy confessou ter matado os seus três filhos pequenos.
Os seus próprios advogados não negam o crime, mas argumentam que não deve ser responsabilizada criminalmente, alegando que Lindsay sofria de psicose pós-parto e de doença mental grave na altura. A mulher está a processar os seus médicos, alegando negligência médica por falha no diagnóstico e tratamento adequados.
Por que razão, então, uma multidão de analistas amadores online aponta o dedo ao seu ex-marido, Patrick, culpando-o pelas mortes?
O julgamento em curso por homicídio cativou uma audiência muito para além do subúrbio costeiro de Boston, onde a tragédia familiar de 2023 resultou nas mortes de Cora, de 5 anos, Dawson, de 3, e Callan, de 8 meses, e numa tentativa de suicídio da mãe que a deixou paraplégica.
O aumento do interesse público no caso resultou numa onda de escrutínio online dirigida a alguém que, ao que tudo indica, não é suspeito. A falta de confiança nas autoridades e a desinformação proliferam nas comunidades online, dizem os especialistas, levando muitas vezes as pessoas a formular teorias alternativas que são recompensadas com um maior envolvimento nas redes sociais.
Eis o que sabemos sobre o porquê de Patrick Clancy ter sido descartado como suspeito – e por que razão estas teorias da conspiração surgem frequentemente de casos judiciais de grande impacto.
"Não acredito que..."
Patrick depôs como primeira testemunha da acusação. Para alguns, o seu testemunho levantou mais questões do que respostas.
Como Lindsay Clancy concordou com o que é chamado de estipulação de factos no caso, os procuradores não precisam de apresentar todas as suas provas em tribunal. Quando há uma lacuna no julgamento televisionado, cria-se um vácuo que muitos criadores de conteúdo estão a preencher com hipóteses alternativas.
Muitos estão a apoiar-se nas suas próprias suposições sem fundamento, mesmo aquelas sem suporte em provas.
"Não acredito que Lindsay Clancy tenha cometido estes crimes. Acredito piamente que Patrick a convenceu disso", disse um utilizador do TikTok. “Não duvidava de nada do que aconteceu até este homem abrir a boca”, acrescentou outro utilizador.
O advogado Howard Cooper, do escritório Todd & Weld, que representa Patrick Clancy, classifica afirmações como esta como patentemente falsas e difamatórias, alertando para as consequências reais que tais afirmações podem ter.
“Os factos são indiscutíveis: Patrick Clancy sofreu uma perda indescritível e inimaginável. Infelizmente, a tragédia que Patrick viveu foi agravada por declarações públicas patentemente falsas, difamatórias e prejudiciais”, lê-se no comunicado. “Os indivíduos que fizeram estas declarações – desde influenciadores menores a grandes celebridades – devem estar cientes de que as suas ações desprezíveis e declarações falsas e difamatórias causaram consequências reais para a saúde e segurança de Patrick e da sua família”.
Estas teorias que se espalham online, segundo um especialista, surgem da dificuldade das pessoas em encontrar uma explicação satisfatória para o sucedido.
“Quando uma mãe mata os filhos, a pessoa é levada a pensar: ‘Isto não pode ser verdade’”, diz Michael Wagner, diretor da Escola de Jornalismo e Comunicação de Massa da Universidade de Wisconsin-Madison. A sua investigação centra-se em como as experiências individuais em ambientes online estão associadas ao que acreditam ser verdade.
"Todos são suspeitos até deixarem de o ser"
Embora a maioria das investigações de homicídio dê prioridade às pessoas mais próximas das vítimas, Patrick Clancy teria provavelmente sido descartado como suspeito logo no início devido ao seu sólido álibi, refere Ken Corey, investigador do Laboratório de Polícia de Chicago e antigo chefe da polícia de Nova Iorque.
“Todos são suspeitos até deixarem de o ser”, explica Corey. “Só deixam de ser suspeitos quando há provas convincentes de que não cometeram ou não poderiam ter cometido o crime, ou quando há provas convincentes de que outra pessoa o cometeu realmente”.
As provas apresentadas publicamente no caso Clancy indicam que Lindsay era o único adulto na casa da família quando os investigadores acreditam que as crianças foram atacadas. Corey afirma que isto demonstra claramente que Patrick não estava em casa.
“Ele estava noutro lugar, e isso é comprovado, não apenas pelas imagens de vigilância dele na farmácia”, explica o antigo chefe da polícia. Durante a investigação, os detetives terão apreendido o telemóvel de Patrick para rastrear os seus movimentos e, dependendo do veículo, obtido os dados do GPS do carro “para demonstrar conclusivamente que não poderia ter cometido o crime, pois não estava fisicamente presente no momento em que o crime foi cometido”, disse.
Eis a cronologia dos movimentos de Patrick, tal como foi apresentada em tribunal:
- Antes de sair de casa, pouco depois das 17:00 do dia 24 de janeiro de 2023, para comprar medicamentos e o jantar, Patrick embalou o bebé durante um minuto, viu o filho mais velho a comer no sofá e deu um beijo na cabeça da filha, testemunhou;
- Antes de entrar na farmácia, a cerca de três minutos de carro da casa da família, as provas apresentadas em tribunal mostraram que Patrick enviou um e-mail e, de seguida, entrou na loja;
- Enquanto estava na farmácia, os registos telefónicos mostram que Patrick ligou a Lindsay, mas ela não atendeu. A mulher retornou a chamada cerca de um minuto depois – por volta da hora em que os investigadores acreditam que os homicídios ocorreram – e os dois tiveram uma breve conversa, com Lindsay a confirmar que não havia problema em comprar a versão genérica do medicamento que tinha solicitado, testemunhou Patrick. Imagens das câmaras de segurança de Patrick dentro da farmácia e um recibo da sua compra foram exibidos em tribunal.
- Depois de pagar na farmácia, Patrick conduziu durante aproximadamente 10 minutos até um restaurante para ir buscar o pedido de jantar que Lindsay tinha feito. Imagens de câmaras de segurança mostram Patrick a entrar no restaurante às 17:54 e a permanecer lá menos de dois minutos. Patrick testemunhou que demorou cerca de 10 a 12 minutos a chegar a casa de carro;
- Em casa, Patrick disse que encontrou Lindsay no exterior, deitada de costas e a sangrar no quintal, e ligou para o 112. Quando lhe perguntou onde estavam os filhos, ela disse que estavam na cave, testemunhou. A mulher não mencionou que estavam feridos ou precisavam de ajuda, referiu o homem;
- Enquanto os socorristas chegavam e começavam a prestar auxílio a Lindsay, Patrick foi para a cave da casa, onde encontrou os filhos. Os polícias que acorreram à ocorrência ouviram gritos vindos de dentro da casa e correram para a cave. Lá, encontraram Patrick, que olhou para cima e gritou: “Ela matou as crianças, porra!”, testemunhou um polícia de Duxbury.
O facto de a equipa jurídica de Lindsay Clancy não contestar que a mulher estrangulou os filhos é mais um motivo para excluir Patrick como suspeito, disse Corey.
“Se houvesse a mínima hipótese de conseguirem semear alguma dúvida razoável, apresentando uma teoria alternativa para o crime e transferindo a culpa para ele em vez dela, certamente o teriam feito”, disse Corey à CNN.
A nova cultura da investigação online
Então, com a confissão de Lindsay e as provas que colocam Patrick fora de casa durante os homicídios, porque é que os detetives amadores ainda estão a devorar e a dissecar os detalhes na tentativa de encontrar outra explicação para os crimes?
A investigação de Wagner mostra que, quando as pessoas têm muito conhecimento sobre um assunto, mas pouca confiança nas instituições, tornam-se mais propensas a adotar teorias da conspiração. Estas teorias da conspiração, refere Wagner, são muitas vezes formas de ver o mundo que fornecem respostas a perguntas quando um desfecho é demasiado desconfortável para as pessoas.
“Portanto, se estão a acompanhar o julgamento e aprenderam muitos detalhes sobre o mesmo, mas não confiam no sistema jurídico, na polícia e nos meios de comunicação social, podem ser mais propensos a adotar teorias da conspiração como forma de explicar porque é que o resultado que acham que deveria acontecer não está a acontecer”, explicou Wagner, considerando o fenómeno “um caldo tóxico para o desenvolvimento do pensamento conspirativo”.
O que tende a tornar-se viral nas redes sociais, disse Wagner, são coisas altamente emotivas ou que muitas vezes não são verificáveis ou verdadeiras. "Quando as pessoas veem estas coisas a repetirem-se nos seus feeds, porque o algoritmo valoriza este tipo de conteúdo, também são mais propensas a envolver-se em teorias da conspiração", afirma.
Além disso, Wagner disse que as pessoas estão a ver excertos do julgamento televisionado em "segmentos muito resumidos" nas redes sociais, frequentemente criados por pessoas com os seus próprios interesses, como dizer: "Não pode ter sido ela; deve ter sido outra coisa".
O fenómeno, diz Corey, é algo contra o qual os instrutores de aplicação da lei alertam os detetives: o viés de investigação. “Pode selecionar certos factos que apontem para Patrick Clancy, ou pode manipular certos factos para o fazer parecer culpado e partilhar essa informação online. Mas está a fazê-lo ignorando os factos que o ilibam”, explica Corey.
As pessoas também costumam estar tão empenhadas em manter a sua própria perspetiva, disse Wagner, que quando lhes são apresentadas provas contrárias, encontram formas de as explicar. “E isto acontece com mais frequência com pessoas instruídas, ironicamente, porque foram ensinadas a argumentar com base em evidências”, acrescenta Wagner.
Para muitos, pode ser tão simples quanto isto: o horror e a tragédia incompreensível de uma mulher, descrita como uma mãe dedicada que sofria de uma crise de saúde mental, tirando a vida aos seus amados filhos, pode ser simplesmente demasiado difícil de assimilar.
Nota do editor: se você ou alguém que conhece estiver a debater-se com pensamentos suicidas ou questões de saúde mental, por favor ligue para a Linha de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico - 1411 - ou para a linha de crise Voz Amiga 213 544 545 | 963 524 660, para o SNS24 (808 24 24 24) ou para o 112, ou consulte o site prevenirsuicidio.pt
