Sporting-Rio Ave, 4-0 (crónica)
A tragédia de uns é a comédia de outros
Os gregos podem reclamar a paternidade de muitas invenções. A democracia, os Jogos Olímpicos, o despertador, o mapa… são inúmeras as contribuições desse povo milenar. Mas duas em particular interessam a este jogo – a tragédia e a comédia. Dois géneros teatrais que retratam estados de espírito bem opostos, mas que andam de mãos dadas.
Em Alvalade, vimos neste domingo o conflito interior de outra criação grega que talvez não suscite tanto orgulho – este Rio Ave de Evangelos Marinakis -, perante uma comédia escrita por Luis Suárez. O colombiano bem pode reclamar direitos de autor. Marcou três golos e ainda fez uma assistência magistral para Maxi que, afinal, não estava adoentado.
E por que não alargar o sentimento de tragédia aos adeptos benfiquistas, que estão agora a cinco pontos do rival lisboeta?
Luis Suárez derreteu o gelo na primeira parte
Rui Borges apostou na mesma fórmula apresentada em Guimarães para levar de vencida o Vitória, com direito a goleada. Ioannidis jogou em parceria com Suárez no ataque, com apenas uma mudança forçada – Vagiannidis suplantou o castigado Fresneda na lateral-direita. O «adoentado» Maxi foi, afinal, titular pelos leões.
Já Silaidopoulos estava órfão de Clayton, seu melhor marcador, após este ter visto o quinto amarelo na jornada anterior, e de Nikitscher, que foi mesmo expulso. O grego promoveu quatro alterações e confiou no miúdo Zoabi, de 19 anos, para o centro do ataque. André Luiz, associado ao Benfica, ficou no banco de suplentes.
O Rio Ave apresentou-se sólido, com o principal objetivo de diminuir o perigo do bicampeão nacional. Com três defesas e dois alas que ora juntavam-se à linha defensiva, ora à linha média, o Rio Ave defendia quase sempre no seu último terço. O Sporting tentava contornar aquele rochedo grego, já que penetrá-lo... estava difícil.
O Sporting tinha chances de perigo, mas nenhuma ocasião clara de golo. Suárez rematou logo aos dois minutos, mas ao lado do poste direito. Pouco depois, tanto ele como Ricardo Mangas atiraram na direção do guarda-redes polaco Cesary Miszta. A melhor chance foi mesmo de Maxi, que rematou rasteiro de pé direito após uma arrancada decidida de Trincão. O polaco foi lá buscar. Aos 34m, nada pôde fazer.
Se de bola corrida estava complicado, um canto à esquerda abriu caminho à vitória leonina. Canto batido ao primeiro poste, onde Simões ganhou o primeiro contacto e desviou ao segundo ferro. Suárez surgiu à ponta-de-lança e fez o 12.º golo no campeonato esta época e a noite fria aquecia, por fim.
Suárez marcava, sorria, e marcava outra vez
A segunda parte foi um festival leonino e apetece dizer que o Rio Ave não foi convidado. O Sporting entrou com fome de resolver o jogo e ganhou um canto logo na primeira jogada. Aos 53m, os leões desenharam o melhor momento do jogo. Suárez picou a bola por cima da defesa contrária, Maxi contornou o guarda-redes e atirou para dentro.
Aos 60 e 61, Luis Suárez marcou dois golos de rajada. Primeiro, a cabecear de cima para baixo, novamente ao segundo poste, na sequência de um canto. Logo a seguir, surgiu no sítio certo para encostar a bola após primeira defesa de Mistza a remate de Trincão. O ritmo de Suárez, agora com 14 golos na Liga, era demasiado para o Rio Ave. Sorria para a bancada e voltava sempre a marcar.
Importa sublinhar que, na segunda parte, o Rio Ave fez apenas dois remates. E ambos ameaçaram mais os adeptos do que propriamente a baliza defendida por Rui Silva. Após o 4-0, o que restou deste jogo foi gestão. Tanto que Rui Borges retirou Morten Hjulmand (já com o limite de amarelos acumulados), Maxi Araújo, Simões e Inácio de jogo.
André Luiz foi lançado pelo Rio Ave na segunda parte, mas a velocidade que trouxe ao ataque era sempre ineficiente face à marcação apertada de Eduardo Quaresma. Este Sporting jogou, simplesmente, demasiado bem para este Rio Ave. No final do jogo, Alvalade cantou a plenos pulmões: «Quero o Sporting campeão». E, após esta exibição, este não parece um pedido descabido.
O Sporting agradece o empate do Benfica em Braga e afasta-se dos rivais, em segundo lugar, com 41 pontos. Tem mais cinco do que as águias e menos dois que o FC Porto, que ainda não jogou nesta jornada. O Ano Novo promete para os lados de Alvalade.
