Benfica-Gil Vicente, 1-2 (crónica)

David Marques , Estádio da Luz, Lisboa
2 fev, 21:25
Benfica-Gil Vicente (António Cotrim/Lusa)

Um galo também sabe voar alto

A sorte e o azar desempenham papéis importantes no futebol, ao ponto de não raras vezes a melhor equipa não ser a que sai vencedora de um jogo. Como se combate isso? Procurando ser-se, se possível, muito melhor do que o adversário, criando-se margem de manobra para que a sorte e o azar não se sobreponham a tudo o resto.

Foi, no fundo, o que o Gil Vicente fez na Luz: foi melhor, venceu por 2-1 e pela segunda vez em menos de um ano derrotou o Benfica na sua própria casa. No final, acabou por ter uma ponta de sorte, mas o que construiu até aí fez com que merecesse regressar a Barcelos com os três pontos.

Na Luz ficaram vincadas duas realidades: de uma equipa em falência futebolística; e de outra tremendamente competente e que justifica o quinto lugar na Liga e cada um dos 33 pontos com os quais termina a jornada 20 da Liga.

Na equipa de Ricardo Soares há critério: na forma como desenha cada jogada e se organizam as peças.

Há coragem: na forma como sai com bola das zonas de pressão e arrisca defender em casa de um grande quase no meio-campo contrário.

Há, acima de tudo, mais vontade de jogar futebol do que de impedir o adversário de jogar, ainda que essa estratégia, muito usada em Portugal pelos mais pequenos, seja também ela legítima.

«… ter a capacidade de impor o nosso jogo. O Benfica irá certamente respeitar-nos, até porque sinto a minha equipa forte e queremos fazer um grande jogo»

Ricardo Soares provou que mais do que um homem de palavras é um homem de PALAVRA.

O Gil foi grande e impôs-se no Estádio da Luz, colocando-se - já depois de um golo anulado aos encarnados, que muito protestaram - a vencer aos 11 minutos (Samuel Lino) numa daquelas transições para as quais o Benfica não tem solução desde tempos de pré-pandemia.

Mas não é só para isso que os encarnados não têm solução. A saída de Jorge Jesus do comando técnico das águias deixou ainda mais vincadas as gigantes carências desta equipa, que é hoje ainda mais descuidada a defender e apresenta incompreensíveis bloqueios criativos.

E hoje não pode queixar-se de falta de espaço para jogar, porque o Gil, pela ideia de jogo arrojada que levou para a capital e que, no fundo, lhe permitiu vencer, deu-lho.

Vertonghen, Otamendi, Gonçalo Ramos e Everton desperdiçaram para a equipa da casa ainda nos primeiros 45 minutos, mas a verdade é que o Gil, se definisse melhor no último terço, também podia ter ido para o descanso com mais do que um golo.

Bloqueios criativos, escrevemos.

Veríssimo também os terá visto e ao intervalo fez entrar João Mário e Rafa, preteridosos por Meite e Diogo Gonçalves nas opções iniciais.

Curiosamente, o período mais confortável do Gil em campo aconteceu já com a presença destes dois dos melhores jogadores do Benfica, com largos momentos de circulação de bola com qualidade, alguns calafrios causados e os adeptos a exasperarem perante a inépcia da equipa da casa na pressão.

Até que aos 65 minutos chegou a estocada final, dada por Aburjania na sequência de um pontapé de canto de Pedrinho, que já havia estado no lance do 1-0 e jogou uma brutalidade!

Quando já mais do que pouco havia a fazer, o Benfica acelerou, mas foi mais apressado a fazer as coisas do que propriamente rápido. E quando assim é, a história para contar é quase sempre a mesma.

Gonçalo Ramos ainda reduziu já perto dos 90 minutos, mas o Gil Vicente conseguiu segurar uma vitória que soube construir com mérito e uma exibição personalizada. E quando assim é (também), está-se sempre mais perto de vencer.

Que grande galo!

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