Benfica-Moreirense, 4-1 (crónica)
Depois do cerco, uma revolução silenciosa
Banhado pelo sol, fazendo lembrar as célebres palavras da poetisa Sophia Mello Breyner - «dia inicial, inteiro e limpo» -, o Benfica-Moreirense deste sábado coincidiu com o feriado em que Portugal celebra 52 anos do fim da ditadura do Estado Novo. Muitos fizeram a escolha (mais difícil para uns do que para outros) entre o desfile da Avenida da Liberdade e a presença no Estádio da Luz. 56 mil viram as águias vencer por 4-1, numa revolução silenciosa.
Aqueles que optaram pela ‘Catedral’ assistiram a Leandro Barreiro dar a primeira senha do golpe às 18h05 (dois minutos de jogo, pois iniciou com atraso), António Silva galgou desde o meio-campo até à grande área, numa ação pouco habitual dele, e assistiu o luxemburguês no coração da área. Este encostou para dentro, na cara de André Ferreira. Pavlidis ainda tentou desviar, mas não tocou na bola. Era como se soasse o «E depois do Adeus», de Paulo Carvalho, na Luz.
Mas houve pronta ‘reação’. O Moreirense obrigou a que Trubin fizesse três defesas no espaço de dois minutos, com algum grau de dificuldade, isto na sequência de cantos. Kiko Bondoso foi o primeiro a finalizar, numa jogada estudada em laboratório. Estava dado o aviso.
O Benfica manteve a toada atacante sem que o Moreirense escondesse a cara à luta. António Silva foi novamente à área adversária para acertar no poste direito da baliza e Lukebakio atirou cruzado justamente ao lado desse ferro. O 2-0 ameaçava os cónegos, mas seria Vasco Botelho da Costa a sorrir.
É que, aos 26 minutos, um ‘balão’ do guarda-redes André Ferreira para o meio-campo contrário acabou por desmarcar Diogo Travassos. No duelo com Samuel Dahl, o sueco falhou a bola e isolou inadvertidamente o jogador que pertence aos quadros do Sporting. Ajeitou e tirou do alcance de Trubin. 1-1.
A segunda senha (que soou a qualquer coisa como o «Grândola, Vila Morena», de Zeca Afonso) foi dada por Richard Ríos, às 18h32. Foi uma operação rápida face ao ataque das tropas moreirenses, que tinham marcado há apenas três minutos. No meio da confusão, à entrada da área, Barreiro libertou rapidamente Ríos e este atirou um míssil para o centro da baliza. Ferreira ainda tocou na bola, mas esta entrou caprichosamente.
Impasse resolveu-se com tropas estacionadas no banco
A primeira parte dava a entender que o jogo estava em aberto. Outras exibições deste Benfica na Luz recordavam que, apesar de uma vantagem encarnada contra equipas de menor nomeada, o empate está aí à porta. A segunda parte trouxe um espetáculo mais pobre, no entanto. Rarearam as ocasiões, defenderam-se as posições. Um pouco como na manhã e na tarde do dia 25 de abril de 1974, entrou-se num impasse. O Benfica fazia o cerco ao quartel de André Ferreira, emitia avisos sonoros, mas evitava a violência.
O comandante das operações, José Mourinho, não gostava do que via. Logo aos 57 minutos fez uma tripla alteração – saíram Rafa Silva, Lukébakio e Bah, para as entradas de Schjelderup, Dedic e Prestianni. O belga saiu insatisfeito e ainda esmurrou o banco de suplentes.
A verdade é que o primeiro momento de perigo só aconteceu aos 74 minutos. E foi quase ‘sem querer’. Dedic cabeceou para a barra ao segundo poste, com André Ferreira a parecer surpreendido pela trajetória da bola. Mas as ideias para derrubar a defensiva visitante rareavam e os cónegos faziam contenção de danos.
A machadada final – foi o este gesto de José Mourinho no banco -, foi dada por Franjo Ivanovic, que mais uma vez entrou para fazer mexer o marcador. Já perante um Maracás cansado, o croata fintou e rematou cruzado, como não vemos Pavlidis fazer há muito.
Logo a seguir, o inusitado bis, a encostar na pequena área após bela combinação de Prestianni e Dedic. Todos eles suplentes. E um grito de liberdade para o avançado que tem estado agrilhoado ao banco.
Ponto final no jogo e, após 90 minutos que pareceram horas de impasse, chegou a rendição das tropas visitantes, com pouco sangue derramado.
