Não é sobre centímetros
O jogo com o Sp. Braga era o mais importante do Benfica nesta temporada. Poderia ter sido outro, mas a vitória em Alvalade e o empate em Famalicão tiveram as suas consequências distintas.
Assim como este empate as teve. E graves.
Se o dérbi levou a equipa de José Mourinho a acreditar no segundo lugar, a jornada anterior retirou-lhe o pouco conforto que lhe tinha caído no colo após os tropeções do rival. Deixou-a, no fundo, no fio da navalha, onde esteve durante quase toda uma temporada em que andou aos solavancos e a empatar um jogo em cada três.
Mas, perante um adversário desgastado (física e animicamente após a eliminação europeia na passada quinta-feira) e a lutar por pouco mais do que um quarto lugar, os encarnados voltaram a vacilar e deitaram fora o segundo lugar e a consequente possibilidade de encaixarem muitos milhões de euros, evitando apenas, com um penálti descortinado pelo VAR, a primeira derrota desta Liga já na compensação.
É um facto que o Benfica foi melhor, assim como se pode dizer que possivelmente foi por centímetros que não conseguiu vencer o jogo desta noite: os quatro do golo anulado a Ivanovic a abrir e os do outro do golo de Pavlidis revertido pelo VAR.
Mas é por muito mais do que isso que vai, com substancial dose de certeza, terminar o campeonato no terceiro lugar.
Faltou-lhe, por exemplo, a fiabilidade que uma grande equipa tem de ter quando conquista uma vantagem que tanto custa a construir. E isso faltou aos encarnados nesta noite, mas também noutras que terminaram de forma semelhante: Casa Pia (2x), Famalicão, Santa Clara, Rio Ave, entre outras.
É que, depois de uma primeira parte de superioridade no final da qual o nulo não traduzia justiça, os encarnados chegaram à vantagem nos segundos iniciais da etapa complementar. Prestianni aproveitou um raríssimo erro de João Moutinho e serviu Rafa para o 1-0.
A equipa de José Mourinho esteve, rigorosamente, 110 segundos em vantagem num jogo que estava, por força da vitória do Sporting à mesma hora, obrigada a vencer. E, apesar dos centímetros fatais, até esteve mais próxima de o perder.
Porque, depois do golo de Pau Víctor, Gorby (golaço) gelou a Luz aos 88 minutos.
Pelo meio, o Benfica teve o tal golo de Pavlidis, revertido pelo VAR, e montou um cerco à área dos minhotos, que desde o 0-0 jogaram com o nervosismo crescente nos jogadores do Benfica e das bancadas, descontentes com as perdas de tempo de Hornicek nas reposições e com as decisões do árbitro João Pinheiro, que não viu um penálti sobre Schjelderup, mas foi alertado pelo VAR e emendou a mão.
Emendou também o Benfica. Não pelo que este ponto lhe possa trazer (provavelmente quase nada), mas por continuar invicto.
Uma perspetiva menos dramática de ver as coisas, mas que mostra – porque se traduzirá (muito provavelmente, repetimos) num terceiro lugar – aquilo que é uma evidência e não é de agora. Uma fragilidade gigante de uma equipa que a impede tantas vezes de ganhar e de ser vitoriosa há tanto tempo.
E isso não é sobre centímetros. É estrutural.
