Puxados das nuvens
Depois de seis vitórias em seis jogos, da subida vertiginosa às nuvens após a goleada retumbante ao Atlético Madrid, o Benfica cai com estrondo na receção ao Feyenoord, conhecendo o primeiro dissabor da segunda vida de Bruno Lage na Luz.
Mérito do Feyenoord à parte, o Benfica pareceu uma sombra da equipa que tem sido no último mês e meio. Assemelhou-se, aliás, ao que era antes: foi previsível, errático, desnorteado.
Se aos homens da frente faltou a capacidade de pressão e de desequilíbrio de tempos recentes, do meio-campo para trás as fragilidades foram as de outros tempos.
Quase sempre pouco apoiado por Kökcü – noite péssima! – e Aursnes (muitas vezes a fechar o lado de Di María e obrigado a duplas funções), Florentino foi engolido pelos homens do meio-campo do Feyenoord, iguais aos centrocampistas das águias em número, mas superiores em quase todos os parâmetros.
A qualidade de Hwang nos passes longos, os rasgos de Timber e as infiltrações de Igor Paixão destruíram o Benfica nos primeiros 45 minutos na Luz.
Não foi só naquele minuto 12, quando, desmarcado por Timber, Igor Paixão serviu Ueda para o primeiro golo dos neerlandeses. Aconteceu também aos 16m, quando o avançado brasileiro arrancou sem pressão pelo miolo e quase tirou tinta ao poste direito num remate de meia-distância.
O cabeceamento de Bah ao ferro direito foi o que de melhor se viu das águias na primeira parte. E foi numa bola parada, o que também diz muito sobre a desinspiração do Benfica.
É indiscutível: o voetbal do Feyenoord foi melhor em quase todos os momentos. Imaculado defensivamente e oportuno no aproveitamento da permissividade do adversário. O golo anulado a Ueda pelo VAR foi um exemplo claro disso – três bolas na pequena-área, todas ganhas por homens da equipa visitante – assim como o foi o 2-0 de Milambo, com um túnel a Otamendi antes de bater Trubin.
O Benfica regressou para a segunda parte com os mesmos 11, mas uma atitude diferente vincada naquele remate de Pavlidis defendido pela perna de Wellenreuther. Ainda assim, defensivamente continuou a demonstrar uma permeabilidade preocupante. Naquela arrancada de Milambo e no golo anulado a Trauner, logo depois de Hancko (ele sim em posição regular) ter acertado no poste.
De certa forma, esse momento manteve as águias no jogo. E, depois disso, Bruno Lage mexeu pela primeira vez – saíram Florentino e Di María para entrarem Beste e Amdouni – arriscando na mesma medida em que procurou não comprometer o equilíbrio estrutural de uma equipa que nesta noite foi tudo menos isso: equilibrada.
E o Benfica andou, a partir daí, em cima daquela fina corda que separava o golo que o faria renascer do que acabaria com qualquer réstia de esperança.
Aktürkoglu reduziu numa recarga a um remate de Beste e os homens de Lage lançaram-se para a frente. O turco quase bisou e Amdouni forçou Wellenreuther a uma das defesas da noite.
Mas aos jogadores Feyenoord nunca faltou aquilo que o Benfica teve pouco nesta quarta-feira: serenidade. E foi assim que a Luz capitulou definitivamente já em tempo de compensação, quando Milambo fechou o jogo e deu ao Feyenoord uma vitória justíssima que representa duas más notícias.
Uma para o Benfica, que voltou a demonstrar fragilidades que pareciam estar há muito resolvidas, e outra para Portugal, na luta pelo sexto lugar do ranking da UEFA.
