Champions: Benfica-Fenerbahçe, 1-0 (crónica)

David Silva , Estádio da Luz, Lisboa
27 ago, 22:11

Águias apuram-se para a Champions com razão e emoção

Antes do jogo, Bruno Lage pediu um Benfica mais racional do que emocional, dentro e fora de campo. Um pedido que de nada valeu - no «Inferno» da Luz, que estes jogadores do Fenerbahçe ficaram a conhecer, o guião da partida teve mais de Quentin Tarantino, do que Manoel de Oliveira. As decisões de arbitragem contribuíram para o acicatar dos ânimos, com dois golos anulados ao Benfica na primeira metade e uma expulsão de Talisca. Contudo, o resultado deu razão à equipa que se demonstrou superior técnica e taticamente.

O Benfica garantiu o apuramento para a fase de Liga da Champions com um golo de Kerem Aktürkoglu, aos 36 minutos. Ele que foi, juntamente com Leandro Barreiro, uma surpresa no onze de Bruno Lage. Fez um belo golo, mas praticamente nem celebrou, como que pedindo desculpa aos adeptos pelas más exibições. José Mourinho bem avisou na antevisão - o Fenerbahçe não tem os argumentos do Benfica... mas ainda ameaçou na segunda parte. Com um magro 1-0 no agregado, os encarnados carimbam a sexta presença em sete edições da Liga dos Campeões nesta década.

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Mais do que um jogo, um jackpot do Euromilhões

Havia algo de nostálgico neste jogo. Quase uma reedição de tempos gloriosos das duas equipas. Certamente que o Estádio da Luz voltou a albergar, nesta quarta-feira, adeptos que testemunharam em 2013 um emocionante Benfica-Fenerbahçe das meias-finais da Liga Europa. Gaitán marcou um golo sublime, Cardozo decidiu, como em tantas outras ocasiões, com um bis e Dirk Kuyt ainda deu esperanças aos turcos. Desde aí, nunca mais o Fenerbahçe chegou tão longe nas competições europeias. Já o Benfica viria a ‘morrer na praia’ duas vezes e, desde aí, tem estado arredado das decisões. 

Esta quarta-feira representava para os dois clubes muito mais do que um simples jogo. Tratava-se da consubstanciação das expectativas dos adeptos (e das direções) de dois clubes grandes na Europa, mas não gigantes em termos financeiros. Houve bastante investimento por parte dos dois no mercado, tendo a Liga dos Campeões em vista, e nenhum deles queria ficar sem as receitas milionárias da principal competição de clubes mundial.

O Benfica gastou cerca de 72 milhões de euros, tendo um prejuízo de seis milhões neste verão. Na antecâmara da eliminatória, Mourinho sublinhou os gastos do Benfica… mas esqueceu-se de referir que o Fenerbahçe tem um balanço negativo de 46 milhões de euros neste verão, sem vender nenhum jogador. Posto isto, os prémios destinados ao feliz vencedor da eliminatória seriam quase uma necessidade para os dois emblemas. Só para ter uma ideia, a participação na Champions valeu um bolo de 71,4 milhões de euros ao Benfica em 24/25.

Lage manteve os três médios, com Barreiro a surpreender tudo e todos

Bruno Lage apostou num onze inicial com duas alterações face ao último jogo. Lançou Leandro Barreiro como terceiro homem do meio-campo, regressando ao 4-3-3, e trocou Schjelderup pelo turco Kerem Aktürkoglu. Já Mourinho queixou-se da falta de opções na antevisão ao jogo, dizendo que, em contraposto, Bruno Lage era um «treinador feliz». Talvez essas limitações o tenham obrigado a apostar em En-Nesyri de início, mesmo após este ter apresentado problemas físicos na véspera. Talisca saltou para o onze atrás do ponta-de-lança.

O treinador do Benfica tinha apelado na antevisão à «razão» mas não foi isso que aconteceu na primeira parte, por força das circunstâncias. O Benfica teve dois golos anulados que inflamaram os ânimos na Luz, como que atirando achas para o Inferno.

O primeiro, sem grande discussão – num canto estudado, António Silva surgiu liberto no coração da área, desviando para o segundo. Surgiram dois jogadores do Benfica (e um antigo) – Pavlidis desviou, Barreiro também pôs o pé mas acertou em Nélson Semedo em vez da bola. O internacional pelo Luxemburgo estava em fora-de-jogo e, por ter interferido no lance, o VAR avisou Vincic do sucedido. Na sequência da jogada, Semedo saiu lesionado.

No segundo tento anulado, aos 22 minutos, há motivo para maior interpretação. Num livre indireto batido bem largo para o segundo poste, Barreiro cabeceou bem para dentro da baliza. O problema? Aparenta ter empurrado Archie Brown pelas costas, o que motivou uma falta prontamente apitada por Slavko Vincic. O fiscal de linha não levantou a bandeirola. Esses dois momentos contracíclicos fizeram os adeptos do Benfica desesperar e o jogo partiu-se.

Livakovic já tinha negado um golo cantado a Leandro Barreiro, após uma assistência primorosa de Pavlidis, mas nada pôde fazer aos 36 minutos. Num lance algo caricato, em que Muldur cortou para uma zona proibida, a entrada da área, Barreiro reagiu rápido e entregou para o extremo Aktürkoglu. Ele, que tem sido tão criticado, puxou a culatra atrás e rematou de primeira para o canto superior direito da baliza contrária. A bola beijou as redes mas o turco nem celebrou – pareceu até pedir desculpa aos adeptos do Benfica. Um gesto que dará que falar.

Após algum nervosismo, o Benfica pôde ir em vantagem para o descanso.  E só não foi mais relaxado porque Leandro Barreiro perdeu duas boas chances de golo nos descontos. No entanto, há algo que se pode dizer sobre ele – esteve em todas as ocasiões de golo do Benfica, com melhor ou pior definição.

Fenerbahçe ainda ameaçou, mas expulsão de Talisca encerrou discussão

A segunda parte trouxe mais calculismo de parte a parte. Talvez cientes de que 45 minutos é muito tempo e um golo de diferença é muito pouco, ambos os treinadores terão pedido ‘cabeça’ no balneário. O segundo tempo trouxe mais duelos, com Yuksek a render o amarelado Amrabat no lado turco. Mourinho esperaria até aos 65 minutos para lançar uma dupla de pendor ofensivo – Jhon Durán e Oguz Aydin.

E do nada... En-Nesyri acertou na barra da baliza do Benfica. Trubin estava batido e a defesa pediu fora-de-jogo, mas o marroquino estava em posição irregular. Um lance infeliz a fazer lembrar o golo anulado aos turcos na primeira mão. Logo a seguir, foi a vez de Talisca, do alto dos seus 1,91m, cabecear com perigo. O jogo estava vivo.

Porém, ao contrário daquela visita do brasileiro à Luz em 2016, ao serviço do Besiktas, Talisca não estava inspirado. Tanto que acabou expulso por acumulação de amarelos na reta final do jogo e os adeptos... celebraram e disseram adeus ao ex-Benfica. O amor convive perto do ódio.

Que o diga também José Mourinho, que iniciou a sua carreira de treinador principal no Benfica, mas acabou eliminado por um emblema por quem nunca escondeu simpatia. Não foi desta que o mais titulado treinador português de sempre (e o «melhor de Setúbal e arredores», nas palavras de Bruno Lage) voltou à Liga dos Campeões. A última vez que participou na competição foi em 2019/20, pelo Tottenham. Agora, terá de contentar-se com a Liga Europa.

«O coração tem razões que a própria razão desconhece», escreveu um dia o filósofo francês Blaise Pascal. Uma frase que resume este jogo.

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