Breve história de três ilustres desconhecidos, mesmo que uns mais que outros. E ainda a recordação de que há outro estreante
Quando se sentar para saber quem vai jogar com quem na próxima edição da Liga dos Campeões, três nomes vão aparecer-lhe de rompante a estragar as contas. Não porque não mereçam estar lá, mas porque ninguém esperava que lá estivessem, até porque nunca estiveram antes.
Talvez a maior surpresa seja o Kairat Almaty - cujos jogadores festejam na fotografia de capa -, equipa talvez até mais conhecida pelo futsal que pelo futebol. O conjunto que é o atual campeão do Cazaquistão conseguiu eliminar o bem mais histórico Celtic de Glasgow, que caiu nos penáltis depois de uma viagem longínqua até à montanhosa cidade de Almaty, a maior do país que se tornou independente da União Soviética em 1991.
E foi a segunda vez que os cazaques tiveram de chegar à marca dos 11 metros para decidirem a passagem. Já na eliminatória anterior, frente a um também favorito Slovan de Bratislava, a história foi a mesma. Estava mesmo destinado que fosse assim para um clube que antes de tudo isso ainda teve de eliminar os finlandeses do KuPS e os eslovenos do Olimpija Ljubljana.
Isso mesmo: foram precisos oito jogos, quatro eliminatórias, para chegar a um sítio onde muitos já estavam de cadeirinha. Que o diga o Sporting, que já está à espera de toda esta gente desde maio.
Com um plantel composto maioritariamente por jogadores cazaques, muitos deles jovens, alguns em ascensão, o Kairat Almaty tem também os portugueses Luís Mata e Jorginho, que em Portugal tiveram carreiras pouco relevantes, mas agora estão no maior patamar do futebol europeu.
É apenas a segunda vez que o Kairat Almaty está presente numa fase de grupos de uma competição europeia. A outra tinha sido em 2021/22, na Liga Conferência.
Vindos do frio
Do Bodo/Glimt, nome meio estranho, é mais fácil falar. Já nos vamos habituando a ver o clube amarelo e preto a substituir o imaginário de quem pensava no Rosenborg como a grande equipa norueguesa.
Foi precisamente o Rosenborg que, em 2007, marcou a última presença de uma equipa da Noruega na liga milionária.
Agora, e depois de um caminho por vezes tortuoso, o Bodo (vamos simplificar) faz o mesmo, vindo de lá de cima do Ártico, onde o FC Porto teve de penar no ano passado. Chega à Liga dos Campeões depois de ser campeão da Noruega. Bicampeão, aliás, com quatro títulos nos últimos cinco anos.
Sinal claro de uma equipa que andou às turras para cima e para baixo, e que não há tanto tempo assim até estava na segunda divisão. Acreditou-se no projeto e ele viveu. Renasceu, até.
Hoje, o Bodo é sinónimo de algo mais na Europa, fruto de resultados como a goleada de 6-1 imposta à Roma de José Mourinho ou até as vitórias contra FC Porto e SC Braga na última edição da Liga Europa.
Edição essa que, de resto, valeu aos noruegueses uma presença nas meias-finais, onde só foram derrotados pelo Tottenham, que viria a vencer a competição depois de ganhar ao Manchester United de Ruben Amorim na final.
Agora que jogadores como Andreas Schjelderup ou Fredrik Aursnes já quase nos ensinam a falar norueguês, é nessa língua que se compõe grande parte do plantel do clube. Jens Hauge é uma das estrelas, mas o coletivo é quem vale acima de tudo.
Ao contrário do Kairat Almaty, desta vez o Bodo teve de passar apenas esta fase, usufruindo da subida no ranking.
David Luiz, tázonde?
Resposta fácil: está no Pafos FC. Onde? Pois. Num clube fundado apenas em 2014, depois da fusão de dois clubes. Apareceu de mansinho na liga cipriota, mas depois foi a somar. Há duas épocas conquistou a Taça do Chipre e na última temporada ganhou o primeiro campeonato.
É verdade, teremos de esquecer o APOEL de Nicósia ou o Anorthosis Famagusta. Na Europa futebolística, Chipre agora escreve-se Pafos FC.
E escreve-se com nomes bem conhecidos. Não é apenas David Luiz, que terá visto nas praias da ilha que gregos e turcos dividem ao meio uma excelente pré-reforma.
É também por lá que andam Domingos Quina, Pepê Rodrigues ou Alexandre Brito, além de vários outros jogadores que por cá passaram, como Bruno Langa.
E que não se pense que o Pafos FC chegou a este patamar por acaso. Teve de passar Maccabi Telavive, Dinamo de Kiev e Estrela Vermelha, tudo equipas bem mais experimentadas, a última delas até já vencedora de uma Liga dos Campeões.
Será o nome menos conhecido dos quatro estreantes, mas também por isso é o mais entusiasmante.
A juntar a todos estes, mas que já se sabia desde maio, está o mais recente campeão belga. O Union St. Gilloise não era campeão há 90 anos, quando ainda nem havia Taça dos Campeões Europeus ou algo que se parecesse. A mal ou a bem, parece uma Europa mais democrática no que ao futebol diz respeito.
