Portugal-Espanha, 0-1 (crónica)

Sérgio Pires , Estádio Municipal de Braga
27 set, 21:48

Não é maldição, é medo de vencer

Atoleiros, Trancoso, Aljubarrota, Linhas de Elvas, Ameixial, Montes Claros... Daí até Braga.  Os campos de batalha deram lugar aos de futebol, mas o vizinho, umas vezes inimigo, outras «hermano», sempre deu ares de rival.

Esta noite, as espadas e cavalaria deram lugar à bola e na Pedreira Portugal sucumbiu vergado por culpas próprias e por uma Espanha que arriscou e mereceu ser feliz.

O destemor vence batalhas. A história ensina-nos isso mesmo. Foi assim que «La Roja» seguiu rumo à «final four» da Liga das Nações, onde vai encontrar Países Baixos, Itália e Croácia.

Voltemos ao início da refrega.

Para o combate Fernando Santos mudou três peças: Cancelo e Nuno Mendes entraram para os lugares de Diogo Dalot e Mário Rui nas laterais, enquanto lá na frente Rafael Leão cedeu o lugar a Diogo Jota.

Sendo a tática do quadrado coisa de outros tempos, Fernando Santos apostou num 4-2-3-1 com Ronaldo solto na frente, que por vezes se desdobrava num 4-3-3 com que Portugal pressionava a saída de bola espanhola.

O primeiro quarto de hora, foi para ver Espanha trocar a bola e jogar na expectativa. Não será por acaso que uma das seleções espanholas mais frágeis dos últimos tempos chegou ao intervalo com quase o dobro da posse de bola (64%-36%).

Diogo Jota, endiabrado sobre a esquerda, deixava ainda assim «La Roja» em sinal de alerta. E o resto coube a Bruno Fernandes, que aos 37 minutos fez o estádio gritar golo com um remate fortíssimo que beijou as redes pelo lado errado.

Ilusão de ótica, sim, mas só aí. A verdade é que no segundo tempo era preciso esfregar os olhos para ver a realidade. Em termos individuais, a seleção portuguesa é claramente superior aos espanhóis, como em raras vezes na história. Coletivamente, é taco a taco. Ou nem sequer isso. O segundo tempo começou com Luis Enrique a arriscar. E Fernando Santos, de novo, na expectativa.

Se Fernando Santos prometeu não jogar para o empate, assim parecia à medida que o relógio avançava.

A precisar de vencer, a Espanha criava perigo, ganhava terreno e dominava na posse de bola (chegando perto dos 70% aos 80 minutos de jogo).

Ronaldo, sem carga, foi poupado às substituições, que trouxeram o talento de Vitinha e Rafael Leão para dentro de campo apenas para os dez minutos finais. É um «crime» lesa futebol desaproveitar o MVP da última Liga Italiana e um dos médios mais virtuosos da atualidade, que é titular no luxuoso PSG de Neymar, Messi e Mbappé, mas não encontra lugar no meio-campo da «equipa das quinas», que, também por isso, se tornou previsível e acabou engolido por Pedri, Gavi e companhia.

Pairavam em Braga fantasmas de França (para a Liga das Nações) e da Sérvia (para o Mundial), quando Portugal perdeu na Luz dois jogos em que lhe bastava empatar para alcançar o objetivo. E a realidade, teimosa como ela é, embateu de frente com estrondo, quando aos 88m Morata surgiu na pequena área para finalizar uma assistência de Nico Williams e fazer o golo da vitória.

A colorida exibição de Praga esbateu-se num futebol cinzento em Braga, que teve como desfecho a primeira derrota lusa num duelo ibérico na última dúzia de anos.

Não são fantasmas, é a pura realidade. Não é maldição, é medo de vencer. É preciso coragem. Coragem para arriscar. Coragem para tomar opções.

Uma das gerações mais talentosas de Portugal não pode deixar à mercê do acaso um apuramento que estava à sua espera. A sorte nem sempre aparece. E, quando surge, costuma de proteger os audazes.

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