"Queria sentir-me bem comigo mesma": o lifting facial está cada vez mais a transformar a aparência dos jovens

CNN , Leah Dolan
5 abr 2025, 17:00
Lifting Facial

O cabelo loiro de Kim Haberly cai suavemente sobre os ombros, afastado do rosto. Os seus olhos amendoados apresentam vestígios de uma nódoa negra quase sarada, um testemunho silencioso da recente cirurgia plástica a que se submeteu. 

Junto à linha do cabelo, dois pequenos buracos do tamanho de um polegar denunciam a intervenção nas têmporas para elevar a parte exterior das sobrancelhas, algo que sempre a incomodou.

Além disso, realizou uma remoção parcial de gordura bucal, um procedimento que extrai pequenas almofadas de tecido do interior das bochechas para esculpir um rosto mais fino. No entanto, ironicamente, o inchaço pós-operatório dá-lhe temporariamente um aspeto mais arredondado.

Ainda assim, só quando Kim vira ligeiramente o rosto para a direita e aponta para perto da orelha, revelando duas incisões suturadas de fresco, é que se pode suspeitar que acabou de fazer um lifting facial.

“Hoje acordei muito inchada porque dormi de lado”, contou à CNN através de uma videochamada a partir do seu hotel na Turquia. 

No mês passado, Kim percorreu mais de onze mil quilómetros desde Perth, na Austrália, para se submeter a um dos procedimentos faciais mais invasivos disponíveis: um lifting facial de plano profundo.

Esta técnica avançada, amplamente preferida por cirurgiões especializados pelos seus efeitos mais duradouros, não se limita a reposicionar a camada superficial da pele (como acontece com os liftings endoscópicos tradicionais), mas atua também sobre a rede intrincada de tecidos e músculos fibrosos subjacentes.

Aos 37 anos, Kim, que também fez um lifting do pescoço, é quase uma década mais nova do que a média de candidatos a este tipo de intervenção na Austrália e, segundo a Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos (ASPS), encontra-se pelo menos 18 anos adiantada em relação ao perfil típico de pacientes de lifting facial.

Um fenómeno em crescimento

Tradicionalmente associado a pessoas mais velhas e utilizado para combater os sinais do envelhecimento, o lifting facial tem sido mais procurado por indivíduos entre os 55 e os 69 anos nos Estados Unidos, de acordo com dados da ASPS de 2023. Na Austrália, o grupo etário dominante para este procedimento situa-se entre os 45 e os 60 anos, segundo um estudo do Colégio Australasiano de Cirurgia e Medicina Cosmética. No Reino Unido, a Associação Britânica de Cirurgiões Plásticos Estéticos (BAAPS) também confirma que a cirurgia é mais comum em pessoas com mais de 50 anos.

No entanto, nos últimos anos, tem-se verificado uma crescente adesão de pacientes mais jovens, não com o intuito de reverter o envelhecimento, mas para aperfeiçoar os contornos do rosto. Num mundo cada vez mais digital e visual, onde a aparência está constantemente exposta, a procura por uma estética idealizada intensificou-se. Em 2023, o número de liftings faciais entre pacientes com idades entre os 20 e os 39 anos aumentou 7%, enquanto o crescimento na faixa dos 40 aos 54 anos foi de apenas 3%.

Esquerda: Kim Haberly antes do lifting facial de plano profundo. Direita: Kim totalmente recuperada após a cirurgia
Esquerda: Kim Haberly antes do lifting facial de plano profundo. Direita: Kim totalmente recuperada após a cirurgia (@iamhotblonde)

Jonathan Zelken, cirurgião plástico norte-americano especializado em liftings faciais, confirma essa tendência. “Os pacientes mais jovens procuram uma mandíbula mais definida, bochechas esculpidas, sobrancelhas elevadas. O objetivo não é apagar rugas, mas sim melhorar traços. Não se trata de um procedimento de rejuvenescimento, mas sim de embelezamento", explica à CNN.

O fascínio pelo lifting facial

O primeiro lifting facial foi realizado há mais de 120 anos no Hospital Charité, em Berlim. Em 1901, um médico alemão, Eugene von Holländer, foi abordado por uma aristocrata polaca que desejava uma pele mais lisa. A mulher levantou as bochechas e os cantos da boca com as mãos, demonstrando ao médico o efeito que pretendia alcançar. Embora a técnica não existisse formalmente na altura, o médico cedeu, vítima da "arte da persuasão feminina” e realizou a operação, documentando a experiência num artigo publicado em 1912. Embora haja pouca informação sobre a paciente zero, as notas do médico sobre as “rugas envelhecidas” e “bochechas descaídas” sugerem que tinha a idade de uma candidata prototípica.

Mais de um século depois, a cirurgia voltou a reinventar-se, conquistando um público cada vez mais jovem. Zelken defende esta mudança, considerando que os seus pacientes mais novos apresentam alguns dos resultados “mais satisfatórios” que já obteve. “Ao realizar estes procedimentos é quase como se estivesse a criar um filtro para as redes sociais na vida real”, afirma. O custo do procedimento, segundo o cirurgião, pode variar entre 30 mil e 100 mil dólares (27 mil a 92 mil euros).

Embora reconheça que um lifting facial em alguém com pouco mais de 20 anos pode ser um sinal de alerta, o médico não descarta automaticamente o procedimento. “É difícil estabelecer uma idade mínima para este procedimento. Mesmo quando não há bochechas descaídas ou rugas de envelhecimento, é possível obter uma transformação estética muito atrativa”, afirma.

Emily Cipryk tinha 28 anos quando voou de Toronto, no Canadá, para Istambul, na Turquia, para fazer um lifting facial médio profundo - um procedimento que levanta o tecido e a pele à volta do canto dos olhos e das bochechas. “Queria sentir-me bem comigo mesma outra vez”, conta à CNN.

Emily trabalhava na área da tecnologia financeira e passava grande parte do dia em videochamadas, confrontando-se constantemente com a própria imagem. “Festejei muito nos meus anos de universidade, abusei e isso refletiu-se na minha aparência e acabou por me afetar”, admite.

Decidiu submeter-se a seis procedimentos de uma só vez, incluindo blefaroplastia, lifting labial, rinoplastia e remoção parcial de gordura bucal, gastando um total de 13 mil euros. O custo das operações foi financiado pelo noivo, que a acompanhou à Turquia. “Preferi fazer tudo de uma vez para não passar por este processo novamente”, diz, assegurando estar “muito feliz” com o resultado.

Embora os procedimentos de Emily tenham corrido bem, a canadiana alerta para os perigos de escolher cirurgiões inexperientes. “Muita gente vê preços baixos e pensa que pode pagar, mas acaba por cair nas mãos de alguém sem qualificações. Já ouvi casos de pessoas que recorrem a agentes imobiliários para transplantes capilares, porque não fazem a devida pesquisa”, conta.

Em 2023, a Associação Britânica de Cirurgiões Plásticos Estéticos e a Sociedade Turca de Cirurgiões Plásticos emitiram um alerta conjunto sobre o aumento de “complicações graves e até mortes” ligadas ao “aumento significativo do número de pacientes que viajam para o estrangeiro para fazer cirurgias plásticas estéticas”.

Emily Cipryk fez um lifting facial médio aos 28 anos. Realizou seis cirurgias de uma só vez, entre elas uma blefaroplastia e uma rinoplastia
Emily Cipryk fez um lifting facial médio aos 28 anos. Realizou seis cirurgias de uma só vez, entre elas uma blefaroplastia e uma rinoplastia (Dr. Şamil Yazgan-Renate Clinic)

As pressões das redes sociais

Recorrer à cirurgia plástica para manter uma aparência jovem e simétrica não é um conceito novo. Os procedimentos estéticos foram popularizados pela primeira vez no início do século XX por atores de Hollywood preocupados em melhorar a sua aparência no ecrã. Contudo, a ascensão das redes sociais desempenha um papel crucial nesta tendência. 

Catherine*, de 33 anos, da Califórnia, confessa que a sua perceção sobre a aparência foi fortemente influenciada pelas redes sociais Instagram e TikTok. “Passo o tempo a ver vídeos de influenciadoras de 20 e poucos anos com rostos impecáveis. A certa altura, começamos a querer atingir esse ideal, mesmo que seja inatingível”, diz à CNN.

Para Kim Haberly, a decisão de fazer um lifting facial foi motivada, em parte, pela rápida perda de peso devido a injeções de semaglutide, que a fizeram emagrecer cerca de 15 quilos. A pele solta tornou-se uma preocupação e começou a usar uma fita desportiva - concebida para suportar lesões nos músculos e nos ligamentos - para esconder essas áreas.

Além disso, o trabalho de Kim como cabeleireira implica, frequentemente, a gravação e partilha de vídeos das sessões dos seus clientes no Instagram. Embora não fosse esse o tema dos vídeos, a profissional recebia frequentemente comentários depreciativos sobre a sua aparência, como 'pareces abatida' ou 'pareces velha'.

"Isso acontecia, sobretudo, quando a câmara estava numa posição mais baixa. Sempre que publicava um vídeo, já sabia que ia receber esse tipo de comentários', lembra. 

Perante esta pressão online, Kim decidiu submeter-se a um lifting facial.

Quão jovem é jovem demais?

Apesar da crescente procura, muitos cirurgiões mostram-se hesitantes em operar pacientes mais jovens.

Na Austrália, Kim teve dificuldades em encontrar um médico disposto a realizar o procedimento e foi sujeita a um teste psicológico, obrigatório antes de qualquer cirurgia estética no país. Alguns cirurgiões sugeriram opções menos invasivas, outros recomendaram que aguardasse até aos 50 anos. No entanto, Kim não queria reverter os sinais da idade no futuro; queria travá-los agora. “Quero fazê-lo enquanto viajo, enquanto a minha cara está exposta em todo o lado”, justifica.

Um sentimento semelhante foi partilhado por Naomi*, uma paciente de 45 anos de Zelken que fez um lifting facial profundo no ano passado. “Eu quero aproveitar agora. Não quero esperar até que as coisas fiquem cada vez piores... Vamos antecipar-nos”, diz à CNN. 

Em 2023, o número de pacientes de lifting facial nos Estados Unidos, com idades entre os 20-29 e os 30-39 anos, aumentou 7% em relação ao ano anterior
Em 2023, o número de pacientes de lifting facial nos Estados Unidos, com idades entre os 20-29 e os 30-39 anos, aumentou 7% em relação ao ano anterior (CNN/Getty Images)

Sobre o que a levou a optar por um lifting facial, Catherine explica: “Passei oito anos a estudar e ainda fiz uma pós-graduação. Acho que o stress começa a deixar marcas”. Acrescentou que também se sentia insegura devido a uma certa “assimetria” resultante de uma cirurgia ao pescoço, realizada por motivos médicos quando tinha cerca de 20 anos. Após anos de recurso a Botox e terapia a laser, queria “algo que garantisse, a 100%, um resultado visível”.

A operação decorreu numa clínica local e incluiu um lifting da parte inferior do rosto e do pescoço, num plano profundo, bem como uma monitorização noturna por uma enfermeira – um serviço extra que elevou o custo total do procedimento para um valor entre os 25 e 30 mil dólares. 

A Dra. Kelly Killeen, cirurgiã plástica de Beverly Hills, alerta para o perigo de os pacientes mais jovens estarem a perseguir uma imagem irrealista, moldada por filtros e pela edição de fotografias online.

"A população mais velha olha para a cirurgia como uma forma de restaurar algo que teve na sua juventude, enquanto os jovens estão, por vezes, a perseguir algo que não existe. Muitos querem eliminar a flacidez natural do rosto, sem perceber que esse é um traço humano normal. Para eles não parece normal porque, com a forma como as celebridades editam as fotografias e gravam os vídeos, por vezes não se consegue ver que têm flacidez no pescoço e no maxilar”, explica.

Além das questões estéticas, há também riscos médicos a considerar. Jonathan Zelken sublinha que, embora complicações como danos nos nervos ou paralisia muscular possam ocorrer em qualquer idade, um paciente jovem pode sentir o impacto psicológico dessas sequelas de forma mais intensa.

Já o cirurgião Carl Truesdale adverte que quem realiza um lifting facial demasiado cedo terá uma maior tendência para repetir as cirurgias ao longo da vida.

“Alguém que procura um lifting facial quando é jovem é menos tolerante com os sinais da idade no rosto, por isso, quanto mais velho ficar, mais vai ser sensível a isso”, diz.

Só no ano passado, o médico recusou realizar cerca de 50 liftings faciais a pessoas com menos de 40 anos, com a justificação de que “não precisam”.
 

Haberly viajou mais de 11 mil quilómetros de Perth, Austrália até à Turquia para realizar a cirurgia
Haberly viajou mais de 11 mil quilómetros de Perth, Austrália até à Turquia para realizar a cirurgia (@iamhotblonde)

O preço da beleza

Determinada a avançar com o procedimento estético, Kim Haberly marcou uma consulta virtual com um médico turco, enviando fotografias e vídeos do seu rosto, beliscando a pele e movendo a cabeça conforme as instruções, através do WhatsApp. O plano de procedimento foi aprovado e a cirurgia custou mais de 18 mil euros.

No pós-operatório, a dor revelou-se "insuportável". No silêncio do hospital, num país estrangeiro, cada minuto arrastava-se como se o tempo se recusasse a avançar. “Durante dois dias seguidos, tremia de dor”, recorda. “Lembro-me de perguntar à minha mãe: ‘E se eu morrer com esta dor? E se nunca passar?’”.

No entanto, ao quinto dia, já não necessitava de analgésicos para aliviar a dor. “Na altura, nunca recomendaria a ninguém que passasse por isto, mas agora que vejo os resultados… estou feliz”, admite.

NOTA: Alguns nomes foram alterados para proteger a identidade dos entrevistados

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